Gaiatos e Gaianos
22/09/2009 às 13:03
Festa da primavera


Adoro a chegada de uma nova estação do ano. Muda nosso estado de espírito também. Na Ecovila, sempre nos reunimos para celebrar esses momentos. Em parte, é pretexto para fazer festa, coisa que a gente adora por lá. Mas não deixa de ser uma oportunidade de observar os ciclos da natureza, as árvores que cresceram no último ano, os ipês floridos, as novas casas na paisagem, nossos próprios ciclos internos.

No último fim de semana convidamos todo o grupo para participar de atividades primaveris. Começamos com um belo mutirão para adubar o pomar da rua da Mata. Todas as frutíferas receberam uma mistura de composto orgânico, esterco e calcário. Força extra para os próximos meses. Em grupo, trabalhamos durante toda a manhã e mais um bom pedaço da tarde. Os homens abriam buracos entre as raízes e, em seguida, as mulheres ofertavam o mix nutritivo. Estávamos alegres e gratos com o crescimento das árvores que, muito em breve, fornecerão frutos para nossa alimentação: manga, abacate, mamão, pitanga, caju, goiaba, limão, laranja, romã, banana, acerola, caqui, figo e muitas, muitas outras.

À tarde, eu e meu companheiro deixamos o grupo para trabalhar um pouco na nossa casa. Rebocamos com areia e cal as duas paredes externas dos quartos, que erguemos com tijolos de adobe. Um trabalho e tanto. Na foto acima, dá para ver um pouquinho do que fizemos. Ainda falta pintar tudo com uma tinta de terra... (Rapidamente, só para situar: a parede térrea é de adobe, a superior, de pau-a-pique; o deck foi feito com cruzetas de antigos postes de iluminação pública, e a janela e o vidro são peças de demolição.)

Mesmo depois de tanto trabalho, ainda restava energia para a festa temática que estava reservada para depois do jantar na casa da Regina e do Júlio. Acredite: um baile brega! Preconceitos e conceitos à parte, a ideia era unicamente se divertir. Montamos um pequeno guarda-roupa na entrada da casa com peças ultracoloridas, estampadas, extravagantes. Mesmo quem chegava ‘à paisana’ – quase ninguém, na verdade - não escapava de uma rápida mudança no visual. Camisas listradas com calça xadrez, laços no cabelo, combinações duvidosas de cores e tecidos...

Ao som de hits do Abba, Lindomar Castilho, Ovelha e Sidney Magal – com um forrozinho do Luiz Gonzaga entre uma e outra, porque ninguém tem ouvidos de ferro – todos dançaram e riram como nunca. Meu companheiro, DJ da noite, recebeu o troféu abacaxi, com muito orgulho. Lá pelas tantas, muitos comentavam: “imagine se alguém que nunca esteve aqui antes chegasse agora e visse todo mundo assim! Iria se perguntar: que tipo de ecovila é essa?!?”

Aí está um bom gancho para refletirmos sobre o que é ou deveria ser uma ecovila. Há regras para isso? Me lembrei de um princípio interessante que já ouvi de muitos ecovileiros e tenho adotado em muitas ocasiões (especialmente quando as reuniões ficam chatas e tediosas): se não é divertido, não é sustentável. Pois é mesmo por aí. E mais do que isso: o gostoso da vida em comunidade é a presença da diversidade. Meditamos ao amanhecer, trabalhamos no pomar, preparamos as refeições juntos, dançamos e rimos do jeitinho que o corpo desejou. E tudo isso no mesmo dia.

Quando evitamos a rigidez, estamos com mais frequência abertos ao novo, ao que o outro pode nos oferecer. Diversidade expande nossa mente e nossas ações. Monocultura de ideias, ao contrário, nos torna dogmáticos, inflexíveis. E é preciso muita disposição e abertura para mudar hábitos, criar um novo estilo de vida, aprender a viver de outro jeito, tornar o discurso reflexo da prática diária e constante. Dançar uma música que você jamais ouviria em casa, por exemplo (eu, pelo menos, não conhecia boa parte do repertório), pode ser um primeiro passo para uma busca mais profunda pelo entendimento – e aceitação - de um ponto de vista alheio. Ainda que você prefira rock ou bossa nova, respeitar o gosto do vizinho (ou seja, sustentar a diversidade) é sinal de saúde e esperança no futuro da comunidade. Pense nisso! E saudemos a primavera, cada um no seu ritmo, à sua maneira!





Comentários

22/09/2009 às 14:09
Ricardo Zylbergeld - diz:
Bravo!

23/09/2009 às 19:24
marina martins de oliveira - diz:
odiei

24/09/2009 às 08:04
Luna Rodrigues - diz:
Giuliana, Sou universitária do 2º ano de Jornalismo na Unip. O contato aqui no blog é para garantir que minha mensagem chegue até vc (já que não tenho certeza que o e-mail chegará). Estou realizando um projeto (para a universidade) de elaboração de uma revista que tem como tema principal as "Cidades Sustentáveis" e tenho grande interesse em abordar esse assunto contigo. Você teria disponibilidade para falar desse assunto? Abraços.Luna Rodrigues.Ps: Gostei muito da ideia do texto acima de "sustentar a diversidade". Muito bom!

24/09/2009 às 15:35
Cristiane - diz:
Giulianda... Lindo o teu relato, como sempre. Parabéns!Ai ai... Que logo o nosso projeto também saia do papel e coloquemos as mão na massa...

24/09/2009 às 16:00
Camila - diz:
Giu, tô até imaginando, viu, a cara do Edilson e as suas risadas, muito bom! Eita ecovila supimpa!!! Sem preconceitos!!!! Amo vocês!Cá.

11/10/2009 às 14:32
Projeto Lixo Zero em residência. Implantamos a Coleta Seletiva e obtivemos os seguintes resultados: ~ Geração de lixo comum não reciclável: 1% Geração de material reciclável para doação: 99% Geração de material orgânico para compostagem 40kilos mais informaçõe: wbazilio@sabesp.com.br ou www.bancodoplaneta.com.br.

19/10/2009 às 01:10
cind - diz:
seu cachorrinho é muito charmoso, hihi



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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