
Mal a primavera conseguiu impor sua força sobre o frio do inverno, já estamos com problemas na estrada de terra. Ontem, alguns moradores não conseguiram chegar em casa e tiveram que improvisar para passar a noite na cidade. O motivo? As chuvas, que inundaram um trecho da estrada de terra e destruíram parte dos bloquetes instalados nas subidas mais íngrimes.
No início do ano, todo o trecho de terra, de 7 km, virou um caos. A prefeitura, depois de muitas reclamações, arrumou a estrada – que não é ruim na maior parte do ano, mas não resistiu à ação das chuvas absolutamente fora de qualquer média pluviométrica da região. Choveu tanto em Piracaia este ano que as represas cobriram áreas não inundadas há anos e, no inverno, quando é comum perceber a diminuição das margens, as águas se mantiveram praticamente intactas. Não poucas vezes, alguns vizinhos tiveram que largar o carro na estrada e seguir caminhando até a ecovila. Intransitável, a estrada provocou medo e revolta.
Durante os meses de seca, choveu muito na ecovila. Amigos que estão construindo viram a obra atrasar por causa da chuva. Dos males, o menor. O problema é pensar que daqui até março, a coisa só tende a piorar. O que fazer, então? Bom, estamos formando uma comissão para atuar junto à prefeitura, cobrando soluções, intervenções mais eficientes e duradouras – e não apenas ações pontuais emergenciais, de caráter provisório. Será preciso mexer de verdade, reformar seriamente a estrada.
E não se trata de dinheiro público a ser investido para umas poucas famílias. A ecovila faz parte do bairro Dandão (nome engraçado...), que tem escola rural, sítios, chácaras e condomínios residenciais. É muita gente para ficar sem saber se vai conseguir ir e vir sem surpresas pelo caminho.
As chuvas já provaram que não estão brincando. A bagunça climática é cada vez maior. Amigos da ecovila, entre um café e outro, uma conversa e outra, compartilham a ideia de trocar de carro. Assunto burguês, não? Pois é, e eu, que não sou nem um pouco ligada em carro, também estou vivendo essa dúvida: será que teremos que trocar o carro por um veículo 4x4? Ou será que um fusca, carro comum entre os moradores da região, daria conta? Que modelo de jipe seria melhor? Existe jipe tipo flex que não custa uma fábula nem tem cara desses carros enormes que estão na moda e, na cidade, só dificultam ainda mais o trânsito? Ou o melhor seria radicalizar e comprar uma charrete e um cavalo? Mudando de perspectiva, será que teremos que reivindicar o asfaltamento da estrada? Que impactos essa medida teria para a região?
Escolhas difíceis, especialmente quando consideramos também os critérios ecológicos. A ecovila fica numa área de relevo acentuado, com subidas e descidas intensas. Bicicleta, por exemplo, só para atletas. Caminhadas também pedem um bom preparo físico. Para o dia a dia, porém, é inviável não considerar o carro como meio de transporte, infelizmente. Daqui a algum tempo, pensamos em comprar um micro-ônibus, por exemplo, para reduzir o número de carros que saem da ecovila com destino à cidade, o que não exclui, é claro, um bom sistema de caronas solidárias.
Seja como for, estou nessa fase de avaliar uma provável troca de carro. Já tive a desagradável experiência de ter que voltar para São Paulo quando estava a uns 3 km da ecovila, porque o carro não conseguiu transpor uma subida de lama... Estávamos carregando várias chapas de vidro para a minha casa e não seria muito bom largar o carro e seguir a pé. E não gostaria de passar por isso de novo, principalmente como moradora. Imagine ter uma emergência de saúde, por exemplo, e não conseguir chegar à cidade! Ou não conseguir buscar o filho na escola, como aconteceu com uma vizinha, em fevereiro!
Não quero ter um carro com cara de “esse é para poucos”, entende? Estou buscando uma vida mais simples, menos consumista, mais serena e tranquila. E será que terei que comprar um jipe importado (com alguns anos de estrada, porque não tenho dinheiro para isso), que gasta um litro de gasolina a cada 6 km para garantir, em termos, que eu consiga chegar e sair de casa?
Estou falando da zona rural de uma cidade relativamente próxima à capital paulista. Isso me dá uma ideia de como deve ser a vida de quem mora na zona rural mais profunda do Brasil... Sem estradas decentes, sem escolas, sem médicos, sem energia elétrica, sem acesso à internet. Sem nada. Isso é a zona rural no país. Esquecida pelo poder público. Excluída por todos nós. Até que a cidade nos cansa, vem a vontade de buscar uma vida fora do estresse urbano e, com ela, duas descobertas: 1- a vida rural precisa de ajuda para se tornar viável; 2- as mudanças climáticas não têm fronteiras. Buscar soluções faz parte do processo de entender o sentido mais pleno da palavra sustentabilidade – que, apesar de desgastada, ainda tem muito a nos ensinar.