Gaiatos e Gaianos
04/08/2009 às 18:04
Por que adoro feiras de trocas


Toda vez é a mesma coisa: é só eu saber que vai ter uma feira de trocas para eu vasculhar os armários da casa à procura de coisas que estão encalhadas, sem uso, só ocupando espaço - quando poderiam ter utilidade para outras pessoas. E, por mais que eu faça isso, sempre encontro o que levar: uma peça de roupa que não uso há mais de um ano, livros que sei que nunca vou ler, discos que não têm mais lugar na minha vida, um brinquedo esquecido no tempo.

Uma das coisas que me fascina numa feira de troca é esse convite à reflexão sobre o que é realmente importante e indispensável para mim. Em outras palavras, é um grande exercício de desapego, de deixar ir sem olhar para trás.

Numa feira de trocas, pessoas muito diferentes se encontram para compartilhar aquilo que é resultado dessa “faxina doméstica” – e, por que não, mental também? E isso não significa que a feira só tenha bugigangas, tranqueiras, quase-lixo. Não, não, não. A ideia não é essa. Para ser bacana, precisa ter coisa bonita, em bom estado. Se tiver artesanato, ainda melhor. As mais interessantes, às vezes, têm até produtos que foram testemunhas de boas histórias, “viveram” experiências interessantes - essas são as minhas preferidas. Quer um exemplo? Uma vez, troquei um japamala indiano, colar usado para meditação, por um livro do Platão, num legítimo intercâmbio oriente-ocidente. Um amigo tinha acabado de voltar de um ashram na Índia, com uma mala cheia de artigos para vender aos amigos e, assim, pagar parte das despesas com a viagem. Alguns itens, por sorte, estavam na feira de trocas. Eu queria o japamala; ele, o livro do Platão. Estava feita a troca.

Há duas semanas, participei de uma atividade dessas na Morada da Floresta, aqui em São Paulo (o tempo feio me fez adiar mais uma vez a ida à ecovila). Como sempre, separei algumas coisas em casa. Até pensei em fazer um bolo ou pão integral para levar, mas faltou tempo. Tudo bem. Vamos nessa. O imprevisível precisa de espaço para acontecer...

Bom, a feira não teve moeda solidária, por opção dos organizadores. Até prefiro assim, na base do escambo, sem moeda alguma. É que o dinheiro alternativo ajuda, algumas vezes, a aumentar o número de trocas. Mas é perfeitamente possível dispensá-lo, especialmente quando os participantes já têm certa experiência nesse tipo de evento.

Fiz trocas ótimas e, digamos, até engraçadas. Primeiro, troquei um livro meu (que estava há anos acumulando poeira na estante) por uma calça perfeita para as práticas de yoga. Detalhe: a menina que trocou a calça comigo foi quem costurou a peça, com as próprias mãos. E, segundo me contou, usou uma única vez, para meditar. De minha parte, o livro fora presente de uma amiga de Alto Paraíso de Goiás, e falava sobre jejum e espiritualidade. Trocamos histórias e sorrisos. E os produtos ganharam nova vida.

Minutos depois, foi a vez de trocar coisas ainda mais inusitadas. O rapaz ao meu lado se interessou por um livro de literatura francesa infanto-juvenil, que estava entre as minhas ofertas. E me pediu para que olhasse suas coisas, na expectativa de que algo pudesse me servir. Foi uma das trocas mais estranhas que já fiz: um livro por uma muda de palmito e uma frigideira de ferro! Pois é, eu estava mesmo atrás de uma frigideira “nova” e consegui uma usada em bom estado... O palmito está num vaso e será levado para a ecovila assim que entrar a primavera. Por enquanto, cuido dele aqui em São Paulo.

Feiras de trocas são assim, cheias de surpresas. Mais um exemplo? Bom, nessa última, uma amiga levou um aparelho usado por diabéticos para medir o nível de glicose no sangue. “Achei que ninguém ia se interessar”, disse ela. E não é que ela conseguiu fazer a troca?!? E também trocou um equipamento de inalação, CDs de cantigas de roda e até um catavento de enfeitar jardim. E você, já pensou em organizar uma feira de trocas com os amigos? Ou com os vizinhos do prédio? Ou quem sabe entre os primos, irmãos, tias e avó depois da macarronada do domingo? Uma coisa eu garanto: com boas trocas ou não, é sempre muito divertido. Experimente!

Foto: Eu e a amiga Aluá, em momento de troca curiosa na Ecovila Clareando: a saia dela era da minha adolescência (não cabia mais em mim). Já seu bichinho de pelúcia na minha mão era um desses prenúncios de gente ainda pequena querendo deixar para trás a infância.... (Levei para casa como futuro presente para minha sobrinha, ainda criança o bastante para querer a companhia do macaquinho cor-de-laranja...)
 






Comentários

04/08/2009 às 21:18
Lívia Corazza Nogueira - diz:
Olá, Giuliana! Que sincronia com seu tema de hoje! Exatamente neste domingo fiz a primeira Feira de Trocas em casa, com algumas amigas. Há umas 3 semanas resolvi organizar a Feira em casa e convidei, timidamente, uma porção de amigas (como foi uma experiência, chamei só as mulheres, mas certamente realizarei a Feira de Trocas novamente e convidarei os meninos também... Sem preconceitos..rs). E foi muito gostoso! Já fui algumas vezes à uma Feira de Trocas no Espaço Cultural Jacutinga, em Moema e já ouvi falar sobre a que acontece na Morada da Floresta e achei interessante criar uma "moeda" pra ajudar e a nomeei de Jasmim..rs Música, bolos, chá mate e muito papo me fizeram render um (re)encontro inesquecível, uma luz pra novas perspectivas e algumas peças de roupas muito legais! Todas elas adoraram e já estamos combinando a próxima. Assim que decidirmos a data, vou te convidar com muito prazer pra vir aqui em casa! Se quiser, posso te enviar algumas fotos deste domingo e te dar mais uns detalhes de como foi. Lendo seu texto, você me incentivou ainda mais a dar continuidade a Feira de Trocas. Muito obrigada! Grande abraço!

07/08/2009 às 13:30
Adriana - diz:
Gosto muito de passar por aqui, adoro a ecovila e suas postagens! Se quiser me visitar estou no:http://bem-bom-adriana.blogspot.com/

31/08/2009 às 17:23
Giuliana - diz:
Lívia! Só agora pude responder! Adorei saber de seu interesse (e até experiência) pelas feiras de trocas. Seu convite foi muito gentil e agradeço antecipadamente. Trocar é sempre gostoso. Ouvir histórias de quem está no mesmo caminho, então, é delicioso. Obrigada! Adriana, farei uma visita no seu blog, com certeza. Grande abraço!



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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