Gaiatos e Gaianos
29/07/2008 às 10:03
Histórias de João-de-barro


De que é feita uma casa? De barro e de palha, diria o João-de-barro. Esperto que nem ele só, sabido e de olho na natureza. Será que ela ‘güenta sol e chuva, cumpádi? Pois bote reparo na casa do João alado e responda ocê mesmo, ora. Terra é coisa prá lá de bão. Funciona melhor que ar-condicionado e inda resiste cinco geração. Fé na sabedoria popular, sábado passado lá fui eu e meu companheiro exprimentar subir parede de barro na casa em Piracaia.

E como se fazia no campo dos tempos de antigamente, foi preciso chamar os amigos prá ajudar a amassar o barro. Caboclo sozinho leva dias e noites prá transformar terra em abrigo. Já caboclo acompanhado dos irmão-do-peito leva poucas horas prá erguer uma parede - e ainda tem chance de avistar maritaca atravessar o céu em bando.

Foi tudo uma alegria só. Os amigos foram chegando devagarinho, sorriso solto. Tiravam o sapato e, instantes depois, já estavam dançando sobre a terra, misturada com areia, serragem, palha e um pouco de água. O trabalho, é bom dizer, é desses que não tem idade. Aceita gente grande e pequena. Aliás, nem sei dizer se é trabalho ou festa disfarçada de coisa séria. O fato é que foi prá lá de bão reviver esse companheirismo perdido no tempo, no espaço e no equívoco do homem moderno, que insiste em num inxergá a sabedoria enraizada na simpricidade elegante da cultura popular.

As crianças, nessa prosa, eram as mais animadas. Pareciam agradecer a oportunidade do resgate de um conhecimento esquecido no baú dos avôs e avós. Mais que isso, a nova geração parecia aprovar com satisfação aquela herança anunciada.

Adultos de trinta, quarenta e cinqüenta e tantos ficaram entretidos com a fórmula mágica do barro: dez pás de terra vermelha, sete pás de areia, uma pá de serragem, um bom maço de palha de capim seco e água até deixar a mistura com jeito de massa de pão, feita com os pés.

Para amassar o barro valia dança e cantoria. E prá isso todo mundo tem memória boa e consegue voltar aos tempos de criança em cantiga de roda. Sim, sim, ainda existe música assim.

Onde aprendi essas coisas? Devo um tanto a dois amigos arquitetos às avessa, Xico e Dosão, que largaram prancheta para observar a lógica própria do João-de-barro, bem diferente daquelas casas de cimento e concreto que se vê por aí. Eles vivem dizendo que quem sabe construir de verdade é esse João de bico estudado prá carregar barro e palha, e fazer casa prá atrair passarinha fêmea à procura de uma família.

Ouvi um tanto dessa história por aí, verões passados. E quis exprimentar, por assim dizer, na prática do dia-a-dia. Dizem que o barro guarda informações. Pois que guarde, então, a alegria do povo que veio em casa amontoar pãozinho de barro prá fechar parede e fazer casa pros amigo podê viver em harmonia. Harmonia com a Terra, mãe do barro, da água e desses amigo tudo que meu coração não esquece jamais.

Com o perdão do português acaipirado, agradeço de monte o bem que foi ter ocêis por perto, pessoar das Piracaia. Sonho sonhado junto vira céu estrelado: tá lá no arto, mas preenche tanto o coração que faz o longe mais longe ficar pertinho de nóis. Feito minha casa, crescendo devagarinho, no compasso da sorte de ter amigos assim de tanta preciosidade.

P.S.: Para o povo da cidade, as paredes lá de casa estão sendo erguidas com a técnica do Cob, usada durante séculos nos países nórdicos, mas que lembra em muito o bom e velho pau-a-pique tupiniquim. Só que não leva a trama de madeira ou bambu. A massa, depois de preparada com os pés, é moldada com as mãos, feito pão, e empilhada em camadas de até 50 cm, que precisam secar antes de receber a próxima fieira de barro. Dá para fazer paredes curvas, incorporar nichos para o santo da casa ou enfeitar com pedras coloridas. Se bem protegidas por um beiral generoso, são muito duráveis e dão excelente conforto térmico. Estou certa de que essas paredes vão combinar direitinho com o telhado que virou um jardim.

Foto: As meninas Carolina e Sophia, futura geração da ecovila Clareando, fazendo festa com o barro durante o mutirão.






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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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