Gaiatos e Gaianos
17/06/2008 às 08:17
Catadores de esperança


“Cresci ouvindo que quem não estuda vira lixeiro. Mas hoje eu não tenho vergonha nenhuma de dizer que trabalho aqui. Sou lixeira, sim, mas também sou uma ambientalista.” Por trás da frase da catadora Mara Lúcia Santos, presidente da Cooperativa Nossos Valores, na Granja Julieta, está um preconceito que ainda persiste no tempo e torna a tarefa de recolher os materiais recicláveis das ruas algo ainda mais pesado.

A figura do lixeiro, do trabalhador que cuida da limpeza da cidade ainda é vista como o excluído e marginalizado, que perdeu a chance de ter uma vida digna.

Mas o fato é que no Brasil existem cerca de 75 mil catadores, uns organizados em cooperativas, outros que mantêm sozinhos a carroça que passa de porta em porta pedindo garrafas, latinhas e papelão.
Lá na Granja Julieta, o nome da cooperativa, Nossos Valores, lembra a todos a necessidade de resgatar a dignidade perdida. Sim, cada um daqueles catadores tem uma vida que pulsa no peito, uma família, um jeito de olhar o mundo, um sonho de não ser mais um rejeitado pela sociedade.

Quando cheguei na cooperativa, a primeira impressão não foi das melhores. O local não é muito organizado, porque a cooperativa cresceu além de seus limites físicos - que, para serem ampliados, vão precisar passar por uma via crucis e isso deve levar mais algum tempo. Os materiais se amontoam por todos os lados, mas, como descobri depois, seguem uma ordem própria, que só quem trabalha ali consegue identificar.

A Nossos Valores pode não ser um modelo de organização e logística interna. Mas a reciclagem que ela já conseguiu fazer com seus 50 cooperados é algo que merece aplausos. “Sou mulher, negra, tenho mais de 40 anos e sou ex-presidiária. Onde mais eu iria arranjar um trabalho?”, diz Cida, emocionada. Depois da gravação da entrevista, concedida com os olhos marejados de quem se orgulha de ter agarrado firme a chance de dar a reviravolta, Cida recebeu o abraço das amigas da cooperativa, sua mais nova família.

Marcelo era morador de rua, depois viveu um tempo num albergue da prefeitura, até que um colega comentou sobre a cooperativa. “Hoje pago meu aluguel e tenho uma conta poupança, onde guardo minhas economias para um dia ainda comprar uma casinha e ver se assim eu arrumo uma companheira para dividir a vida comigo.”

Flavia, vinte e poucos, também morou na rua, dependente química e sem qualquer perspectiva de futuro. Márcia, na época presidente da cooperativa, percebeu o vício da menina assim que ela pisou no galpão, ainda no primeiro dia de trabalho. Mas decidiu ajudá-la. A menina, de olhos brilhantes e sorriso de quem reencontrou a esperança, hoje fala do passado sem vergonha, porque sabe que venceu.

Marias, Antonios, Josés, todos têm uma história dura de vida. Perderam a família, a moradia, o rumo. Mas se encontraram na cooperativa, onde recebem o afeto de que tanto precisam. E assim seguem adiante, lutando contra a exclusão e todo tipo de preconceito - e, de quebra, tornando a cidade um lugar mais limpo, mais habitável e melhor para se viver. Se você separa o lixo da sua casa, tenha certeza de que em algum canto desse país tem um catador agradecido pelo seu gesto.






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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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