
A figura do lixeiro, do trabalhador que cuida da limpeza da cidade ainda é vista como o excluído e marginalizado, que perdeu a chance de ter uma vida digna.
Mas o fato é que no Brasil existem cerca de 75 mil catadores, uns organizados em cooperativas, outros que mantêm sozinhos a carroça que passa de porta em porta pedindo garrafas, latinhas e papelão.
Lá na Granja Julieta, o nome da cooperativa, Nossos Valores, lembra a todos a necessidade de resgatar a dignidade perdida. Sim, cada um daqueles catadores tem uma vida que pulsa no peito, uma família, um jeito de olhar o mundo, um sonho de não ser mais um rejeitado pela sociedade.
Quando cheguei na cooperativa, a primeira impressão não foi das melhores. O local não é muito organizado, porque a cooperativa cresceu além de seus limites físicos - que, para serem ampliados, vão precisar passar por uma via crucis e isso deve levar mais algum tempo. Os materiais se amontoam por todos os lados, mas, como descobri depois, seguem uma ordem própria, que só quem trabalha ali consegue identificar.
A Nossos Valores pode não ser um modelo de organização e logística interna. Mas a reciclagem que ela já conseguiu fazer com seus 50 cooperados é algo que merece aplausos. “Sou mulher, negra, tenho mais de 40 anos e sou ex-presidiária. Onde mais eu iria arranjar um trabalho?”, diz Cida, emocionada. Depois da gravação da entrevista, concedida com os olhos marejados de quem se orgulha de ter agarrado firme a chance de dar a reviravolta, Cida recebeu o abraço das amigas da cooperativa, sua mais nova família.
Marcelo era morador de rua, depois viveu um tempo num albergue da prefeitura, até que um colega comentou sobre a cooperativa. “Hoje pago meu aluguel e tenho uma conta poupança, onde guardo minhas economias para um dia ainda comprar uma casinha e ver se assim eu arrumo uma companheira para dividir a vida comigo.”
Flavia, vinte e poucos, também morou na rua, dependente química e sem qualquer perspectiva de futuro. Márcia, na época presidente da cooperativa, percebeu o vício da menina assim que ela pisou no galpão, ainda no primeiro dia de trabalho. Mas decidiu ajudá-la. A menina, de olhos brilhantes e sorriso de quem reencontrou a esperança, hoje fala do passado sem vergonha, porque sabe que venceu.
Marias, Antonios, Josés, todos têm uma história dura de vida. Perderam a família, a moradia, o rumo. Mas se encontraram na cooperativa, onde recebem o afeto de que tanto precisam. E assim seguem adiante, lutando contra a exclusão e todo tipo de preconceito - e, de quebra, tornando a cidade um lugar mais limpo, mais habitável e melhor para se viver. Se você separa o lixo da sua casa, tenha certeza de que em algum canto desse país tem um catador agradecido pelo seu gesto.