Gaiatos e Gaianos
06/05/2008 às 14:04
Viva o pequeno agricultor!

Pesquisas estimam que 60% de tudo o que alimenta o brasileiro hoje vem do trabalho dos pequenos produtores agropecuários – e não das terras fartas dos fazendeiros que transformam quilômetros de paisagem (e de áreas que deveriam ser conservadas!) em monocultura.

Viajando pelo Rio Grande do Sul, visitei alguns assentamentos da reforma agrária, terras que antes eram particulares e hoje são o ganha-pão de centenas de famílias de pequenos agricultores. Estive em Nova Santa Rita, Guaíba, Tapes, Rosário do Sul, Santana do Livramento (e ainda devo passar por Viamão e Eldorado do Sul, pelo menos).

Em todos esses lugares, as famílias enfrentam dificuldades, sim, para conseguir produzir, mas dão conta de se alimentar, na maior parte, daquilo que elas mesmas produzem: hortaliças e legumes da horta, grãos da lavoura, carne suína e bovina. E como a auto-sustentabilidade ainda é um sonho a ser buscado, é preciso se organizar para aumentar a produção e comercializá-la e, assim, transformar o trabalho na terra em renda para a compra de roupas, sapatos, combustível, um agrado para os filhos e tudo o mais que – por enquanto – só se consegue com dinheiro mesmo.

Em Nova Santa Rita, interior do estado, Airton integra uma cooperativa de produção de arroz agroecológico. “O arroz orgânico faz bem à saúde do produtor, que não lida mais com os defensivos químicos, e também é melhor para a saúde de quem compra o nosso produto”, diz, com orgulho. Perto de Livramento, na fronteira com o Uruguai, Jocerlei conta, no galpão da ordenha, que o leite produzido pelas famílias dos assentamentos da região é consumido por boa parte da população do sul do estado.

Para ela, além da oferta da produção agropecuária, a chegada dos assentamentos também foi importante para o desenvolvimento da região. “Quando tomamos posse da terra, muitas lojas da cidade estavam quase fechando. Mas nós tivemos que comprar material de construção, fogão à lenha, roupas, e os comerciantes foram melhorando de vida. E sem falar da nossa produção da horta, que começou a abastecer os moradores. Os próprios fazendeiros nos procuravam para comprar produtos nossos, já que a terra deles não produzia nada”, lembra.

Hoje cedo fui ao Mercado Público de Porto Alegre conhecer a Loja da Reforma Agrária, um espaço que virou ponto estratégico para a venda de produtos cultivados e beneficiados nos assentamentos, nas pequenas propriedades ou, pelo menos, produzidos com um diferencial agroecológico. Lá estava Airton, o produtor de arroz, cuidando de alguns detalhes do negócio e dando vida ao sonho de vender sem um atravessador...

De conversa em conversa, ficava um discurso sempre presente: é preciso vender localmente, para evitar os altos custos de frete e também para fortalecer a economia regional. Nas cooperativas, atender os mercados mais próximos é meta fundamental e estratégia de “divisão” solidária de potenciais consumidores. Quem produz em Tapes, vende em Tapes e entorno; quem produz em Livramento, vende por lá mesmo; e assim por diante.

Óbvio? Bastante, mas não o suficiente, ainda, para virar estratégia nacional. Basta lembrar do nosso bom e velho pãozinho que, num país de terra tão generosa, leva quase sempre farinha de trigo importada... não é à toa que o preço sobe absurdamente a cada dia. Está mais do que na hora de sacramentar a necessidade de pensar racionalmente sobre o que botamos na mesa.

Consumir é concordar.






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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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