Educação para o campo
Veranópolis, RS. Dia chuvoso, um tanto frio e bastante agitado. Passei o dia em visita ao Instituto de Educação Josué de Castro, que oferece cursos para integrantes de movimentos sociais, especialmente aqueles ligados à terra (MST, Via Campesina, Movimento dos Pequenos Agricultores e por aí vai). No centro da cidade, bem próximo à prefeitura, a educação proposta pela escola está voltada para as demandas e desafios das famílias no campo - que, só para lembrar, produzem boa parte de tudo o que levamos à nossa mesa.
Enquanto eu conhecia um pouco do que se vive nos cursos e durante a estadia dos militantes na escola (horta, padaria, mercado de produtos agroindustriais, coordenação dos núcleos de base, aulas de filosofia etc.), eu me flagrei diversas vezes me perguntando: o que aconteceu com a reforma agrária na agenda política? Como fortalecer as discussões sobre o tema num momento em que a população urbana ultrapassa a rural e coloca-se como tendência para os próximos anos? É claro que não tenho essas respostas. Aqui, limito-me a compartilhar com você, neste momento, alguns pensamentos.
Uma coisa que me impressionou muito foi a determinação dos jovens com quem conversei. Eles chegam à escola de várias regiões do país, do Piauí e Maranhão ao Rio Grande do Sul. A maioria mora em assentamentos da reforma agrária e, aos vinte e poucos anos, já guarda na memória a experiência de viver sob a lona preta do acampamento. Esses meninos e meninas (e alguns adultos já de boa data) consideram-se, por isso, vencedores: passaram do acampamento para um assentamento, dividindo a glória e os problemas com outras famílias.
É exatamente nessa hora, quando conquistam a terra, que a formação e a educação para a vida no campo se torna fundamental. E é esse aprendizado, esse conhecimento acerca da administração de uma cooperativa ou da saúde comunitária, por exemplo, que leva tanta gente para o Instituto de Educação Josué de Castro, mantida pelo Iterra – Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária.
Difícil imaginar o que é viver nesse Brasil rural quando se mora numa grande cidade! Confesso, fico sem palavras diante desse povo de mãos calejadas, olhar firme e discurso certeiro. Na porta de uma das salas de aula, encontrei uma frase atribuída a Carlos Drummond de Andrade que sintetiza bem essa história: “Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho.”
Sinto que é preciso olhar com atenção para os trabalhadores do campo. Especialmente num momento em que as cidades, além de não comportarem mais migrações, dependem do que acontece no campo para se alimentar, se vestir e...até, em alguns casos, (polêmicas à parte) abastecer o automóvel. Olhar hoje para o campo, com humildade, significa lembrar que um dia todos estivemos lá e que a terra ainda é aquela entidade misteriosa que nos fornece de tudo um pouco para a nossa existência.
p.s.: no próximo post eu conto um pouco mais sobre minhas andanças no sul do país...
Comentários
08/05/2009 às 12:12linda rosa dos santos - diz:Gostei muito de ler sua carta.pensei muito sopre o que eu li ,agradeço a Deus pro existir pessoas como voce. Um abraço
29/10/2009 às 14:33Juarez - diz:Amigo, preciso uma forma de contato com o Instituto de Educação Josué de Castro. Gostaria de fazer um trabalho e para isso preciso visitar a escola.Juarez