
Quando me mudei para São Paulo, para fazer faculdade, caí numa cidade cinza, de caras amarradas e proporções assustadoras. No começo foi muito difícil. Vez ou outra, a balança que contabilizava somente problemas pendia para outro lado, sinalizando mais oferta de arte, cultura ou conhecimento.
Alguns anos depois e muitos caminhos rodados na metrópole, me engajei num projeto chamado Ecobairro. A inspiração vem das ecovilas e, como o próprio nome diz, a meta é criar células sustentáveis dentro da cidade, a partir dos bairros – um jeito diferente de olhar a São Paulo de 11 milhões de habitantes.
Os bairros são como pequenas cidades, embora a metrópole não imponha fronteiras internas. E é aí que mora boa parte do problema. (Não estou dizendo que sou a favor de muros para delimitar as regiões da cidade ou passaporte para entrar no Brás ou em Higienópolis. Longe disso!) O fato é que em São Paulo (e em boa parte das grandes cidades) muitas pessoas não conseguem manter um vínculo com o lugar onde moram.
Quantos paulistanos moram num bairro e trabalham no outro extremo da cidade? E como saem cedo de casa, não convivem no bairro, não conhecem os vizinhos e tomam café e fazem compras na padaria perto do escritório. Muitas vezes, a referência de cidade se limita ao quarteirão da empresa onde passam o dia inteiro sob luz artificial e ar-condicionado. Sem falar no caminho traçado entre a casa e o trabalho que, na maior parte das vezes, se resume a uma imensa fila de automóveis com motoristas estressados que não andam mais do que 10 km por hora. Assim fica mesmo difícil gostar da cidade!
Dia desses, uma amiga estava me contando sobre seu dia-a-dia (lembra, Luciana?). Ela, o marido e a filha de 12 anos moram no Campo Belo, zona Sul. A escola da menina fica no bairro, bem como os escritórios dos pais. Caminhando, eles chegam ao trabalho em dez ou quinze minutos, depois de deixar a filha na porta do colégio. A hora do almoço é sagrada: todos se encontram em casa, com calma, e depois retornam para suas atividades, sempre por perto.
Você pode pensar que isso é para poucos. Mas será que é verdade? As poucas oportunidades (se você pensa assim) ocorrem, em parte, porque os bairros não são explorados integralmente, com seus pequenos negócios que poderiam – se apoiados pelos moradores – fortalecer a economia local. O mesmo vale para as escolas, os parques, as empresas, as cooperativas de materiais recicláveis e os transportes.
Uma cidade grande com bairros fortes que recebem o cuidado de seus moradores tende a ser mais harmoniosa. Trabalhar perto de casa significa poder sair mais vezes com a magrela e menos com o carro, ter mais tempo livre depois do trabalho, menos tempo perdido no trânsito, mais chance de almoçar em casa ou dormir até mais tarde.
Valorizar o bairro ajuda na sustentabilidade da cidade. Lembra-se da hipótese de Gaia, criada por James Lovelock, de que a Terra é um organismo vivo? Pois então, a cidade também o é e, nesse caso, os bairros têm pulso próprio e devem ser conservados para aprimorar a saúde da cidade - que precisa e muito de coração, fígado e estômago sadios...