Gaiatos e Gaianos
15/04/2008 às 08:52
Por trás do velho clichê


"A união faz a força". Quem nunca ouviu essa expressão? Pois ouso dizer (tangenciando o clichê) que o tal ditado tem muito sentido quando o assunto é viver em comunidade. Precisa erguer uma parede de pau-a-pique? Cuidar de uma horta? Nada melhor do que contar com o apoio de quem está por perto.

Li dias atrás um artigo escrito por uma das fundadores da Rede Global de Ecovilas, a dinamarquesa Hildur Jackson, sobre sua experiência no final dos anos 60. Em 1969, com um filho de seis meses e outro de um ano e meio, ela tinha acabado de se formar em Direito e estava encarando o dilema que ainda assombra muitas mulheres: cuidar dos filhos e sacrificar a carreira ou alavancar a vida profissional e "terceirizar" a primeira infância dos filhos?

Em pleno período de liberação sexual, descobertas feministas e ebulição de uma cultura pra lá de revolucionária, Hildur não hesitou em quebrar padrões. "Se eu me juntasse a outras mulheres que estão na mesma situação, poderíamos criar algo novo!", pensou. E foi assim que ela teve a iniciativa de estabelecer uma maneira diferente de viver, em que várias famílias combinavam lares privados com espaços abertos comuns e sem fronteiras, além de algumas facilidades compartilhadas (lavanderia, refeitório, sala de estar etc.) – conceito que ficou conhecido mais tarde como cohousing (e que inclusive já foi tema de um post por aqui).

Depois de reunir cinco famílias de amigos (com filhos pequenos), o casal Hildur e Ross Jackson se mudou para uma antiga fazenda nas proximidades de Copenhagen. Na casa principal, cada família tinha seus espaços privados (dormitórios, por exemplo), mas compartilhava um ambiente que lembrava uma pequena creche. Lá, as mães (e os pais) se revezavam para cuidar das crianças de todas as famílias. Como eram amigos, a confiança permitia que as mães pudessem ir tranqüilas para o trabalho – que, muitas vezes, era voluntário e ligado a ONGs feministas, ambientalistas, pela paz e não violência e outros tantos movimentos que fizeram a cabeça dos jovens daquela época.

Naqueles anos, Hildur chegou a publicar um artigo num dos principais jornais da Dinamarca intitulado "Children Need 100 Parents" (na tradução livre, algo como: Crianças precisam de 100 pais e mães), em que sugeria o modelo criado por ela e seus amigos como uma forma de transpor barreiras sociais para as mulheres e, mais do que isso, melhorar a qualidade de vida dos pequenos. O artigo, como ela soube depois, inspirou outras muitas famílias a apostar na novidade.

Fico pensando, com esse exemplo, em como pode ser mais fácil transformar problemas em novas oportunidades. Outro clichê? Talvez, mas o que importa é que essa história dá certo! Na Permacultura, como já citei aqui inúmeras vezes, existe um princípio que diz que o problema é a solução! Parece simples, mas pensar dessa maneira requer coragem e desprendimento.

 Na vida em comunidade, isso significa encarar os desafios como peças de um quebra-cabeça que precisa ser construído, aos poucos, ao longo do tempo. E que desafios? Por exemplo, a educação dos filhos. Quando chega a hora de alfabetizá-los, algumas comunidades alternativas enfrentam mais um dilema: em que escola devo colocar as crianças? Que tipo de gente aquela escola vai formar: adolescentes capazes de passar num vestibular de universidade pública ou seres humanos mais habilitados para a vida em sociedade, com valores menos competitivos e mais solidários?

Muitas vezes, a solução está na fronteira entre a comunidade e a cidade ou a vila mais próxima. Há vários casos entre as ecovilas de “adoção” de escolas públicas, em que os pais das crianças que moram nas comunidades são voluntários na escola pública mais próxima para melhorar o ambiente educacional dos filhos. Eles se oferecem para dar aulas de desenho, pintura, música, teatro etc; levam produtos orgânicos para a alimentação, ajudam a manter uma horta dentro da escola e, o mais importante, participam ativamente das reuniões pedagógicas.

Dessa forma, o que poderia ser motivo de “evasão” da ecovila (buscar uma escola para os filhos) vira uma ação social que melhora não só a educação dos próprios filhos como também das crianças que estão no entorno da ecovila. E aí temos uma outra lição: viver em comunidade não quer dizer viver numa bolha isolada do resto do mundo. Ao contrário, significa buscar um estilo de vida mais próximo do que se imagina como mundo ideal, mas sempre mantendo as portas abertas para os vizinhos, que também se enriquecem com essa experiência social – e sempre têm o que ensinar também, obviamente. Como dizia Gandhi, é preciso SER a mudança que se quer ver no mundo.

Sei que nada disso é fácil. Mas tem coisa mais gostosa do que ter uma utopia?...






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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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