
E são tão comuns que já viraram banalidade e tomaram o lugar do tempo natural, do ritmo do nosso corpo, do sol e da lua. Acordamos com o barulho do despertador eletrônico (e quase nunca quando nosso próprio corpo desperta) e tomamos o café da manhã em 5 minutos para não perder a hora (com fome ou sem fome). Sentados à mesa do escritório, não percebemos o calor do sol, o vento ou a chuva. Tudo é artificialmente igual, graças ao ar-condicionado que nos mantêm numa única estação durante o ano todo.
Para não perdermos a noção do tempo, relógios estão sempre à vista: na tela do computador, na parede, na tv, no carro e até no microondas. O horário do almoço é estabelecido pela empresa, assim como o lanche da tarde (quando existe) e a hora de voltar para casa - se bem que, nesse ponto, existe uma flexibilidade ruim que sempre permite a esticada na jornada de trabalho. Quando nos damos conta, ops, o dia acabou. E parece que não rendeu nada. Voou, sumiu, escafedeu-se. O que será que aconteceu?
Toda vez que deixamos o tempo ser marcado por uma máquina, reificamos ou coisificamos nossa existência (ainda que inconscientemente), permitindo que sejamos encarados como máquinas também. Com isso, nos afastamos cada vez mais dos ciclos da natureza e de nós mesmos, criando padrões artificiais de tempo. É como se nem sentíssemos o tempo passar e fôssemos levados, empurrados por máquinas que vivem a sussurrar em nossos ouvidos: “corre que você está atrasado”. Correr do que e de quem?!?
Calma! Precisamos aprender a ajustar nosso relógio interno aos fenômenos da natureza. Isso nos conecta com ela e nos traz ao momento presente, que é o tempo que deve ser vivido. Nem para a frente, nem para trás. O que nos tranqüiliza é viver o agora, sempre. Para isso, é necessário observar a natureza. As fases da lua, a posição do sol (que muda durante o ano), as flores, as folhas no chão, o acasalamento dos animais, enfim, tudo isso muda em períodos curtos ou mais longos de tempo e está aí, à nossa volta, como maneiras naturais de contabilizar o tempo que passa, que passa e que passa.
Perder tempo significa estar em descompasso com esse tempo verdadeiro, que é o tempo do nosso corpo (que pede água, comida, descanso, sexo) e do planeta. Comer alimentos da estação é outra boa estratégia de se conectar com o tempo natural, como já escrevi aqui. A natureza é sábia e nos oferece alimentos adequados para a nossa sobrevivência e bem-estar a cada estação do ano.
Estar atento(a) a esses fenômenos aumenta nossa integração com o planeta e o cosmo. Você viu a lua cheia do domingo? Estava belíssima! Percebeu a mudança na pressão do ar e nas nuvens, que nos avisavam da chuva? Sentiu o cheiro que ficou no ar depois daquele toró? E o ronco do seu estômago, pedindo para antecipar o almoço? Ou os bocejos que lhe pediam para desligar a tv e ir dormir? Nosso corpo é esperto demais para você e eu acharmos que é possível enganá-lo a vida toda, sem conseqüências. Por isso, dê a ele a atenção que ele merece e, quanto ao tempo, que tal dançar com ele ao invés de correr dele o tempo todo?