Gaiatos e Gaianos
18/03/2008 às 11:45
Poluição e Arte dentro do túnel


Imagine passar madrugadas inteiras dentro de um túnel em São Paulo, protegido (até certo ponto) por uma máscara, retirando com um pano de limpeza a crosta preta de poluição que se acumula nas paredes da passagem subterrânea, ao mesmo tempo em que desenha crânios humanos. Passatempo? Não, são os ossos do ofício do artista plástico Alexandre Orion, criador da intervenção “Ossário”, no túnel Max Feffer, zona Sul da capital.

Com aproximadamente 4 mil crânios “grafitados” ao longo de mais de 350 metros de extensão do túnel, a obra concluída no ano passado consumiu 13 madrugadas do artista e dezenas de abordagens de policiais militares, guardas civis metropolitanos e funcionários da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), empresa responsável pelo gerenciamento do trânsito da cidade.

“Eles me abordavam perguntando por que eu estava pichando o túnel. E eu sempre respondia: não estou pichando, estou limpando”, conta Orion, que nas ocasiões mostrava os panos brancos que ele usava como instrumentos de trabalho. “Quase fui parar na delegacia várias vezes. Mas como eu não reagia, eles não tiveram motivo para me levar”, explica.

Aos 29 anos, Orion diz que a idéia de desenhar subtraindo a sujeira das paredes do túnel surgiu por acaso. “Eu entrei num túnel da cidade para tentar entender o que acontecia com aquelas superfícies amarelas que escureciam com o tempo. Fiquei perplexo quando percebi que aquilo tudo era a sujeira que os motores dos carros depositavam nas paredes. O corrimão, por exemplo, chegava a ter 2 cm de poluição”.

Batizado de “Arte menos Poluição”, o projeto reúne duas fases. Na primeira, a poluição é subtraída de uma superfície para se transformar em obra de arte, como a intervenção “Ossário”. Já na segunda, o artista transforma a fuligem que fica acumulada nos panos em pigmento e, por adição em telas de pintura, constrói obras de arte.

Como boa parte das criações dos artistas contemporâneos, o “Ossário” durou pouco tempo. Poucos dias depois do término dos desenhos, funcionários da prefeitura lavaram o túnel e “apagaram” os crânios. “Eles fazem isso a cada dois meses em todos os túneis da cidade”, afirma Orion, que garante não ter ficado frustrado quando todo aquele trabalho sumiu da noite para o dia.

“Tenho certeza de que quem passou por ali foi surpreendido com uma imagem difícil de encarar, a de que somos poluidores e não sabemos muito bem o que fazer com isso”.

Recado dado, Orion! Fiz questão de registrar essa história que já saiu tantas vezes na mídia para relembrar que, apesar da obra "Ossário" não poder ser mais apreciada ao vivo, a NOSSA "obra de arte" que é feita um pouquinho por dia nos túneis e no ar de São Paulo está diariamente ganhando novos adeptos. Não dizem as pesquisas que a cidade recebe 800 novos veículos a cada 24 horas?!? Haja pano para limpar tanta sujeira! Alguém mais se habilita no mutirão?

P.s.: Antes que eu me esqueça, a entrevista que fiz com Alexandre Orion vai virar um vídeo para a revista eletrônica "Fórum", publicação da Arquitetura & Construção destinada a construtoras, incorporadoras e empresários da construção civil de São Paulo. Assim que a edição estiver pronta, passo o link para você. O vídeo já foi editado e ficou bem bacaninha...


Para saber mais, recomendo uma visita ao site: www.alexandreorion.com

Lá tem outros detalhes sobre o trabalho dele, bem como outras imagens da intervenção "Ossário" (além desta que copiei para ilustrar o post) e do projeto "Metabiótica".

Ah, e tem também outras reportagens sobre o artista. Confira os links:

Blog da Super
POLUIÇÃO SOBRE TELA
http://super.abril.uol.com.br/blogs/planeta/51558_post.shtml
Ele usa a fuligem que tirou do túnel para pintar.
 
Reportagens
AS CATACUMBAS DE SÃO PAULO - Superinteressante
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/conteudo_248322.shtml
 
FAXINA URBANA - MTV
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/conteudo_246221.shtml







Comentários


Deixe aqui seu comentário:
Preencha os campos abaixo para deixar seu comentário no blog.

Seu nome:

Seu e-mail:




Gaiatos e
Gaianos


Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
Posts anteriores
21/07/2009
• Entre amigos



Mapa do Site | Quem Somos | Política de Privacidade | Fale Conosco | RSS | Faça do Planeta Sustentável sua home page | Adicionar aos Favoritos
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados