
Logo no início, o sorriso daquela mulher de 63 anos, firme-forte-e-cheia-de-esperança, me encantou à primeira vista.
Seguimos para a Associação Minha Rua, Minha Casa, na baixada do Glicério. Dona Tereza conhece de longa data os coordenadores da entidade que oferece assistência a pessoas em situação de rua. Ali, sob o viaduto que liga o centro da cidade à zona Leste, Dona Tereza está organizando o grupo Catadores de Materiais Recicláveis Glicério (CAMARE). “Depois de muitos anos trabalhando na coleta de materiais, hoje eu luto para formar grupos de novos catadores, para tirar o povo da rua e transformá-lo em trabalhadores dignos”, contou-me.
Isso mesmo. Ela sai à noite pelas ruas do centro para conversar com pessoas que não têm casa, família, comida e, muito menos, trabalho. Com a certeza de que o catador é um trabalhador que merece respeito e condições dignas de trabalho, Dona Tereza procura trazer essas pessoas para o grupo de catadores, na expectativa de oferecer-lhes uma luz no fim do túnel.
Conversa vai, conversa vem, caminhamos por todo o espaço da entidade, enquanto Dona Tereza me contava seus planos de líder comunitária. “Vamos precisar de um espaço bem grande para separar e armazenar os materiais, com baias, esteiras, prensas e balanças. Mas, antes de tudo, vamos ter que fazer uma boa limpeza por aqui”, dizia ela, meio sem graça cada vez que um rato passava por perto da gente.
O que me impressionou em Dona Tereza foi sua determinação e consciência ambiental. Quando perguntei a ela o que era preciso acontecer para aumentar a renda dos catadores, por exemplo, ela me respondeu: “Olha, tem muito catador que ainda pensa que é melhor ter mais lixo para separar. Eu penso que não, melhor é sempre menos. Melhor para a cidade e também para o catador, que teria condições mais dignas de trabalhar”.
Décadas atrás, segundo ela, havia menos lixo pela cidade. “O que tinha mais era ferro e restos de tecido. Não tinha tanto plástico, latinha e papel como se tem hoje. A população, hoje em dia, está produzindo lixo além do limite”.
Pior do que isso só o fato de produzir e não fazer nada para minimizar os impactos dessas 15 mil toneladas que a prefeitura recolhe diariamente em São Paulo. “Falta participação da população na coleta seletiva. Hoje ninguém separa o lixo em casa para o catador. Fica tudo misturado como se fosse para um lixão qualquer. Isso prejudica o nosso trabalho. Tem caco de vidro, muita sujeira e até agulha de injeção. É muito perigoso abrir o lixo das pessoas”.
Perigoso também é continuar achando que o problema do nosso lixo termina quando jogamos os sacos na porta de casa, à espera do lixeiro. É realmente uma vergonha ainda sermos tão ineficientes quando o assunto é lixo - e tão desumanos a ponto de não valorizar o trabalho do catador. Dona Tereza, sim, pode ficar com a consciência tranqüila. É uma heroína da cidade, com muito orgulho.
Para mais informações:
CAMARE Glicério - tel. (11) 3441-1306
Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) - tel. (11) 3399-3475