Nós e a natureza, conectados

Certa vez, um amigo me disse que sentia falta de olhar a linha do horizonte em São Paulo. Achei curiosa a observação porque, naquela época, eu morava num apartamento no 23º. andar e tinha uma vista privilegiada dos contornos da cidade. Da janela do meu quarto eu via os prédios da avenida Paulista, o Pico do Jaraguá e as curvas da Serra da Cantareira.
Ele, porém, morava numa casa no Brooklin e, por isso, só alcançava a linha do horizonte vez ou outra. Era preciso sair pelas ruas à caça de um horizonte.
Lembrei-me dessa história no último fim de semana, quando acampei na obra da minha casa na Ecovila Clareando, pela primeira vez. De manhãzinha, o nascer do sol foi um espetáculo à parte, desses de deixar qualquer um em puro estado de graça. Taí uma foto que não me deixa mentir, embora ela traduza somente em parte a beleza que vivenciei. Isso mesmo. A gente vive o belo e ele nos alimenta.
Quer ver um exemplo? Anos atrás fiz uma pós-graduação em Ecoturismo e apresentei uma monografia (junto com as amigas Vânia e Simone) sobre a relação entre a fotografia e a educação ambiental em viagens à natureza. Nossa proposta era criar ferramentas de educação ambiental que possibilitassem um contato mais estreito com a natureza, uma experiência que fosse muito além daquela que o turista estabelece ficando atrás de sua câmera, ou seja, mantendo uma máquina entre ele e o mundo natural, entre seus sentidos e a parafernália tecnológica que ele precisa administrar para tirar as melhores imagens.
Nossa inspiração veio do naturalista americano
Joseph Cornell, que costumava levar grupos de crianças para ver o Grand Canyon sobre o rio Colorado. O trabalho dele, conhecido hoje como aprendizado seqüencial (que usamos em nosso trabalho, orientado pela querida Rita Mendonça, do
Instituto Romã), tinha o objetivo de reconectar as crianças com o mundo natural. “Eu ficava perplexo toda vez que uma delas chegava a um dos mirantes do Grand Canyon, sacava a máquina fotográfica, tirava uma ou duas fotos e me pedia para ir embora”, dizia Cornell.
Ele achava um absurdo a relação de “consumo da paisagem” que se estabelecia ali e que também é reproduzida ainda hoje por muitos ecoturistas mundo afora. Infelizmente, é comum que turistas deixem de vivenciar uma experiência que poderia ser transformadora e mantenham a natureza apenas entre as lentes de sua câmera. Sobre isso, Cornell costuma dizer que é preciso deixar a natureza entrar em nossos corações.
Se esse papo ficou muito abstrato, você tem um motivo a mais para experimentar a natureza mais de perto, com todos os seus sentidos: a visão apazigua a alma; os sons deixam a natureza invadir nosso corpo; os cheiros nos conectam com o lugar e nos ajudam a fortalecer nossas lembranças; o tato nos surpreende e intensifica a comunicação com o cosmo, com o todo do qual tantas vezes nos esquecemos.
Não há nada melhor para se sentir parte desse mundão do que deitar no chão úmido de uma floresta, experimentar o sabor exótico de algumas folhas e frutos da Mata Atlântica, sentar à beira do rio e ficar ouvindo o barulhinho da água e dos bichos. Admirar. Respirar mais profundamente. Meditar. Só quem já fez isso sabe o quanto é prazeroso e não tem nada de bicho-grilo ou maluco-beleza.
Especialmente quem mora nas cidades – e já somos mais da metade da população mundial - precisa ir para o mato de vez em quando para aprofundar essa relação com o meio ambiente. Todo educador ambiental sabe que só é possível conscientizar alguém sobre a necessidade de conservar a natureza quando esse alguém passa a amar a natureza, e isso acontece quando se vivencia uma experiência marcante com o mundo natural - em outras palavras, quando uma pessoa sente as bênçãos da natureza com o coração e percebe que é preciso cuidar do planeta não apenas por questões éticas, mas também porque, na verdade, somos Um com a natureza, a alvorada, as estrelas, a água, a terra e os bichinhos da noite.
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