Gaiatos e Gaianos
15/02/2008 às 10:09
Impressões de uma ecochata (?) na Campus Party

Ecochata ou não, fui à Campus Party conhecer um pouquinho desse universo que - confesso a você - não me é muito familiar. Digamos que sou adepta do slow food e da low tech (se bem que “slow band” ninguém merece e, nesse caso, até abro uma exceção).

Mas, enfim, lá fui eu para “a Woodstock dos nerds”. Caderninho na mão (porque não tenho um palm), fui anotando algumas impressões a respeito desse grande encontro de pessoas, computadores, idéias e ondas eletromagnéticas. Aí vão algumas delas:

De volta à intranet
Fiquei um pouco intrigada quando me dei conta de que quase todos os campuseiros estavam sozinhos na frente de seus computadores. Em certos momentos, o evento ficava com cara de escritório de empresa ou sala de atendentes de telemarketing. Vi poucas pessoas conversando “ao vivo”, mas posso supor que muitas estavam usando suas máquinas para se comunicar com outras que estavam a poucos metros de distância. Esquisito, não? Não era para ser um encontro de pessoas? Ok, tem muita gente por lá, mas será que as conversas realmente precisam ser mediadas pela telinha o tempo todo?

Ovo frito ou omelete?
Sinceramente, pensei no quanto meu cérebro ficou fritando enquanto eu circulava por entre o emaranhado invisível de microondas eletromagnéticas que abastece a super-hiper-mega banda de 5 Gb e faz a alegria dos campuseiros 24h por dia. Uma reportagem da Ecologist de janeiro alerta para os perigos que a conexão wireless oferece ao nosso organismo. Pior que isso, denuncia o quanto não sabemos quase nada a respeito das conseqüências dessa exposição prolongada ao wi-fi. Estudos ingleses apontam que sintomas como falta de concentração, dores de cabeça, perda de memória e até câncer têm sido registrados, mais ou menos na linha das horrorosas antenas de celular que pipocam cada vez mais pelas cidades e também nos lugares mais distantes - próximos a áreas de proteção ambiental, por exemplo.
Como diz o texto, antes de um produto ser lançado ao mercado, vários testes são feitos para se constatar a segurança e a qualidade da novidade. Mas isso não aconteceu com o wireless. Pelo menos não o suficiente para se ter um aval científico. Como não?!?
É claro que os mais prudentes podem evitar ambientes com essa tecnologia. Será? Com o crescimento desse troço, isso está ficando cada vez mais difícil, já que as redes wi-fi não estão restritas às lan-houses. Os shopping centers têm rede wi-fi, as universidades, muitas empresas e, recentemente, até algumas cidades inteiras! Isso mesmo. O cidadão que não quiser fritar o cérebro ou vê-lo virar omelete é obrigado a mudar de cidade! Imagine só os refugiados tecnológicos que esse negócio pode gerar...

Alguém aceita alguns contêineres de lixo?
Sem palavras para comentar a não separação dos resíduos gerados no evento. Vale a pena ler o que escreveram alguns blogueiros verdes parceiros do Planeta Sustentável.

Meu xixi ainda não é virtual
Ponto de encontro dos campuseiros, o banheiro talvez seja o lugar mais real da Campus Party. Nele não tem jeito, o cara tem que voltar para a first life mesmo... Legal seria se todos percebessem que nem o xixi nem os copinhos plásticos são virtuais...

Planeta high tech
Quem acha que a tecnologia vai salvar o planeta está redondamente enganado ou anda gastando horas demais em games virtuais. Ainda que a humanidade consiga neutralizar todos os problemas ambientais gerados desde a Revolução Industrial, isso seria apenas um paliativo. Teríamos que passar o resto dos tempos tapando o sol com a peneira, gastando energia para recuperar o que destruímos. Será que não dá para desenvolver um “game” mais racional e efetivo?

Respiro
Ok, claro que nem tudo é negro na Campus Party. Como escrevi lá em cima, são só algumas impressões. Se sou ecochata ou não, já são outros quinhentos. Imagino que a galera que curte software livre, por exemplo, esteja aproveitando muito a CP para trocar informações, programas, idéias. Ou o pessoal de games, robótica, enfim. Isso é bacana, sem dúvida. E espero, sinceramente, que no final do evento eles tenham conversado mais “ao vivo” e menos “online” - só para variar um pouquinho e justificar o transporte (e o carbono, portanto) até a festa.







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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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