Tapioca: regional, gostosa e sustentável
A galera mais natureba adora um pão integral de cereais, castanhas, gergelim e sementes de girassol. Eu também. E digo o mesmo de algumas amigas lá da ecovila Clareando, que está em processo de formação e desenvolvimento. Ninguém mora lá, por enquanto, mas há várias casas em construção, muitos encontros de desconhecidos que viraram grandes amigos e, mais ainda, muitos planos para o futuro. Um deles é justamente o de montarmos uma padaria artesanal para a comunidade. Já pensou que delícia acordar cedinho e receber em casa um pão artesanal que acabou de sair do forno?
Pois é, o problema é que a tal farinha de trigo não é exatamente um produto nacional produzido em quantidade suficiente para dar conta da demanda do país. Ao contrário, mais de 60% do trigo consumido no país viaja da Argentina e de outros países até chegar aqui e viajar outro tanto até desembarcar (embalado em sacos plásticos) nas prateleiras dos supermercados, com muito petróleo embutido no custo ambiental do produto.
Nada contra nossos
hermanos latinos, que abastecem boa parte do mercado nacional. O xis da questão é a dependência de um produto importado. Meses atrás, a Argentina suspendeu a exportação de trigo para o Brasil para garantir o fornecimento no mercado interno. Resultado: em terras tupiniquins, a farinha ficou mais cara e o pãozinho-nosso-de-cada-dia, com o preço inflacionado, desapareceu da mesa de muitos brasileiros.
Mas voltando aos planos da padaria, o que fazer? Minha avó piauiense, sem saber, deu uma boa idéia para essa história. Toda visita à casa dela dá direito a um cafezinho com “bijú” na manteiga (aquela tapioca que ganhou fama nacional por causa do escândalo dos cartões corporativos, lembra?). Pois é, a tapioca é uma espécie de pão feito com polvilho, um subproduto da mandioca. Preciso dizer que a mandioca cresce bem em terras brasileiras?
Tempos atrás, meu companheiro Edilson resolveu tentar substituir o pão integral do nosso café da manhã por tapioca. Era tapioca com queijo, tapioca com mel, tapioca com geléia de amora (colhida da árvore em frente à nossa casa). Uma delícia. Pena que, por conta do tempo apertado para o desjejum, o pão comprado pronto acabou vencendo a batalha, ao menos por enquanto.
O que importa, por ora, é saber que a gente tem, sim, como reformular nosso cardápio para dar prioridade a produtos mais regionais, que possam ser cultivados em menor escala, fora do pecado da monocultura que empobrece o planeta e que, ao contrário do que muitos pensam, não garante segurança alimentar a ninguém. Sem falar que as farinhas da mandioca, do milho e do arroz, por exemplo, são muito nutritivas. E, quer saber, uma padaria artesanal com receitas regionais pode lá ter seu charme.
Na ecovila, alguns vizinhos são veganos (não se alimentam de absolutamente nenhum produto animal, seja ele carne, leite ou mel). Outros, não podem comer glúten, presente no trigo. Pelo bem ou pelo mal, por causa dessas restrições, circulam por lá receitas interessantes de pães, bolos e outras guloseimas nada convencionais. Estou pensando em compilar algumas delas para testar em casa... Aliás, você tem alguma para me sugerir?