Gaiatos e Gaianos
08/01/2008 ÀS 13:11
Consumo verde: tarefa difícil mas necessária


Tempo e paciência são alguns dos atributos que todo consumidor verde deve ter. Não importa o alvo da compra, será preciso investigar informações (na loja, na internet, na fábrica e onde mais você puder) que possam balizar sua opção por um ou outro produto. O tempo ajuda a combater as compras por impulso e é fundamental para as pesquisas que devem preceder suas compras. A paciência, por sua vez, segura a onda quando as informações que você busca não existem e o impulso de comprar "no escuro" parece mais forte que sua consciência ecológica.

No Brasil, essa tarefa não é fácil. Muitos produtos apenas se proclamam ecológicos, mas sequer imprimem algumas linhas na embalagem para explicar o porquê desse título. Um consumidor desatento pode acreditar na tarja verde e achar que fez a melhor escolha. Mas não é bem assim que funciona. Muitas empresas sabem que ser mais ecológico ou sustentável faz diferença na hora da compra e tiram proveito desse marketing verde tentando "encaixar" seu produto nessa categoria.

Outro ponto importante é que um produto é sempre mais ou menos sustentável em relação a outro. E isso traz mais uma dificuldade para o consumidor: avaliar vários produtos antes de escolher um – ou desistir da compra, simplesmente, por falta de opções razoáveis.

Nas minhas tentativas de buscar o produto mais adequado, procuro seguir uma espécie de check list. Em primeiro lugar, pergunto-me se eu realmente preciso daquele produto ou apenas quero levá-lo para casa. Muitas vezes desisto da compra quando percebo que era só um impulso bobo de comprar algo inútil e desnecessário.

Depois, procuro pensar se eu posso substituir aquele produto por outro que eu já tenho em casa. Por exemplo, quando montei uma pequena central de triagem de materiais recicláveis em casa, o primeiro impulso foi o de comprar aqueles cestos plásticos coloridos, para deixar o canto da casa mais bonitinho. Mas aí vi que eu já tinha alguns cestos disponíveis, prontos para serem usados. Mesmo sem as cores da reciclagem, eles funcionam perfeitamente e, futuramente, podem ser pintados para seguir o padrão, embora isso não seja o mais importante na tarefa de cuidar do lixo gerado em casa...

Quando a compra é inevitável, procuro botar na balança:

1- Quais as matérias-primas do produto e que tipo de impacto a extração desses materiais provoca no meio ambiente. Nesse sentido, o legal é priorizar os materiais reciclados e os produtos que têm certificados de boa procedência e manejo sustentável (como é o caso das madeiras com selo do Conselho de Manejo Florestal, o FSC);

2- Onde o produto é fabricado e quanto ele viajou até chegar à loja. Quanto mais regional for o produto, melhor, porque você fortalece a economia local e reduz a queima de combustível no transporte da mercadoria.

3- Como o produto é produzido. Esse tópico é fundamental para que você não corra o risco de "patrocinar" uma empresa que mantém trabalho infantil, precário ou mesmo escravo. De nada adianta vender um produto de qualidade se, por trás da marca, houver centenas de pessoas sendo exploradas.

4- Qual a embalagem do produto. Já viu aqueles pacotes de biscoito que vêm em saquinhos com dez unidades, com papel, alumínio e plástico, dentro de outro saco plástico? Pra que tanta embalagem?! É melhor comprar um que gere apenas um resíduo, não? Ah, e tem outra coisa: normalmente, muita embalagem significa que o produto foi protegido para viajar longas distâncias sem se deteriorar ou permanecer em condições de consumo até o fim do prazo de validade (cada vez mais longo, graças aos conservantes que vêm de brinde...). É aqui também que entram as sacolas de pano para levar ao supermercado e à feira... Ser um consumidor verde também implica reduzir a compra quase compulsória de embalagens!

5- Como é o descarte do produto. Se o produto gera um lixo não reciclável ou que contamina o solo, a água ou o ar, mau sinal. Prefira aqueles que possam voltar ao ciclo produtivo ou se decompor sem prejuízo ao meio ambiente. Também vale aqui avaliar o tempo de vida da mercadoria. Produtos descartáveis (como os terríveis copos e talheres plásticos) devem ser evitados sempre. Já parou para pensar na quantidade de lixo que se produz numa única festa infantil ou pedido de comida entregue em casa por motoboy?

Bom, vou parar em cinco tópicos para não assustar muito. Daria para estender muuuuuito mais essa listinha. No começo, pode parecer inviável pensar em tudo isso, mas com o tempo fica bem mais fácil. O treino constante ajuda e muito. Aos poucos, você vai formando um rol de produtos e fornecedores mais ecológicos e deixa de consumir tempo na escolha de boa parte da sua lista de compras. A lição que eu tiro dessa história é que não basta ter boas intenções; é preciso se informar para rejeitar falsas promessas e apoiar opções verdadeiramente mais interessantes para você e o planeta. É uma boa promessa de começo de ano, hein? Especialmente em 2008, o ano do Planeta Terra.

Foto: do site da Associação Európéia de Comércio Justo.




Gaiatos e
Gaianos


Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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