
Lembro-me como se fosse ontem: quando visitei a ecovila pela primeira vez, senti uma sensação gostosa de estar entre amigos. Imediatamente, fiz uma breve viagem no tempo, involuntária. Por alguns instantes, minha mente se viu preenchida por imagens de civilizações e povos que viviam em pequenos povoados e dividiam as tarefas mais fundamentais: caçar, plantar, colher alimentos, cuidar das crianças.
Também me lembrei de livros e aulas especiais que relatavam histórias das primeiras vilas e comunidades, com não mais do que cem habitantes. Esse número, aliás, é interessante, pois permite que cada um dos moradores de uma aldeia consiga identificar os demais pelo nome. Mais do que isso, uma boa memória certamente não teria problemas, mas o contato e a interação entre as famílias talvez ficassem comprometidos. Não por acaso, algumas ecovilas estabelecem limites para o crescimento populacional. Se a comunidade cresce demais, é hora de formar uma outra, e mais outra, e assim por diante.
Quando me decidi pela Ecovila Clareando, um dos aspectos que falaram mais alto no meu coração foi exatamente a possibilidade de conviver com amigos. Mas digo conviver de verdade, encontrar todo dia, dividir o trabalho, as caminhadas contemplativas, o cuidado com os filhos, a horta e os animais domésticos, os momentos de diversão e conhecimento e também as dores e conflitos.
Sinto muito isso lá na Clareando. Embora seja uma comunidade recém-nascida, já existem laços afetivos autênticos. E é muito bom sentir isso. Morando numa grande cidade, é comum que as pessoas sintam solidão, mesmo quando cercadas de milhares de vizinhos. Solidão é algo muito diferente de estar só... Numa ecovila, as possibilidades de encontro estão dadas. Estar só é uma opção – muito bem-vinda em alguns momentos, é claro.
Em São Paulo, tenho poucos (e bons) amigos e amigas. Mas a cidade nem sempre ajuda na convivência. Tanta coisa para fazer, trânsito, trabalho, que parece que todo o resto fica, erroneamente, em segundo plano. De uns tempos para cá, porém, venho me esforçando para cultivar as amizades mais preciosas e me dar de presente mais momentos ao lado de quem eu realmente gosto.
Redescobri, assim, a Sabrina, uma grande amiga do tempo da faculdade, estreitei ainda mais o carinho pela minha irmã Mariana e fortaleci o vínculo com a amiga Léia, da ecovila. Também percebi, mais e mais, o quanto uma boa amizade pode sobreviver à distância. Digo isso em relação à Camila, amiga-irmã que mora em Florianópolis e que na próxima quinta-feira estará na minha casa, com a família, para passar uns dias. Um verdadeiro presente.
E por que estou dizendo tudo isso? Talvez meu momento atual seja delicado. Problemas pessoais que não cabem neste post. Só o que sei, por ora, e que gostaria de registrar aqui, é que descobri que sustentabilidade é também ter por perto quem nos ajude a sustentar a alma. Nutrição que vale mais do que qualquer ímpeto consumista... Sabe aquela história de levar um fora do namorado e ir ao shopping fazer umas comprinhas? Pois é. Não é o meu caso mas, se fosse, tenho certeza de que minha primeira atitude seria recorrer ao ombro de uma amiga, com a gratidão infinita de quem aprende dia após dia a valorizar o que não tem preço.
Foto: amigos da ecovila Clareando...