
Pois é, foi meio esquisito, para falar a verdade. Uma equipe de tv na ecovila. Senti uma certa invasão de privacidade. Ou receio de virar mais um entre tantos estereótipos criados pela imprensa: os neo-hippies de Piracaia, o pessoal da comunidade alternativa, os ecologistas radicais, sei lá.
Eu e meu companheiro estávamos hospedados na casa dos amigos Sonia e Luiz, que moram na ecovila. Acordei no domingo cedinho e, ainda com cara de quem tinha acabado de sair da cama, encontrei a repórter, o cinegrafista e o auxiliar de câmera na cozinha. Toda a trupe registrando “o café da manhã da família que optou por morar numa ecovila”. Sim, porque eles já estão lá há mais de um ano. Nós é que estávamos de “agregados”, enquanto a nossa casa não fica pronta.
Bom, a equipe de tv gravou algumas cenas na casa deles, fez entrevistas, coisa e tal. Depois, passou pela casa do Hiroshi, idealizador da ecovila, que estava na varanda tocando viola e, assim mesmo, sem botar o instrumento de lado, abriu sua casa e contou um pouco sobre a história da comunidade, do lugar, da proposta da Clareando.
Até que pintou a pergunta: “podemos gravar também na sua casa, Giuliana”? Logo no início, eu e meu companheiro havíamos decidido não mostrar nossa casa, por questões pessoais. Depois, mudamos de ideia. O cinegrafista já havia trabalhado comigo, na mesma emissora, quase dez anos atrás. Nos reconhecemos. A repórter foi bem cuidadosa, chegou de mansinho, sem assustar ninguém. A reportagem seria exibida num programa de nome sugestivo: “Good News”... Resolvemos participar também.
Aqui no blog eu exponho muita coisa pessoal, opções de vida, de consumo, de valores. Até dou a cara para bater em temas mais polêmicos, de vez em quando. Em geral, mostro detalhes da minha casa, publico fotos de amigos, conto as novidades da ecovila, da comunidade que está em formação etc.. Mas quase nunca me sinto exposta demais. Até porque quando compartilho algo mais íntimo estou, no fundo, tentando inspirar outras pessoas a pensar sobre o assunto, a refletir, a experimentar. Mas com a tv não seria bem assim. Eu não teria o controle da situação.
Ainda pela manhã, levamos a equipe até a casa. Pedi ao supermarido que desse a entrevista. Eu sou tímida para essas coisas (prefiro o lugar de quem faz as perguntas). E lá foi ele mostrar os diferenciais ecológicos da construção: as paredes de terra, os tijolos de solo-cimento, o banheiro compostável, os vidros usados, as portas e janelas de demolição, o telhado verde, a captação de água de chuva, e por aí vai.
Depois de tudo explicadinho, tudo visitado, a equipe foi embora e deixou uma dúvida no ar: como será que vai ficar essa reportagem? Três semanas depois, no último sábado, a reportagem foi exibida na RedeTV. Não assisti. Mas alguns amigos logo vieram comentar. O Edílson foi até reconhecido na padaria perto de casa: “Pô, cara, gostei do seu banheiro!”
É, agora percebo com mais clareza: gosto de compartilhar esse momento da minha vida com você porque sei que tem muita gente querendo adotar hábitos mais saudáveis e sustentáveis no dia-a-dia. E nada melhor do que ouvir histórias de quem já passou por essa estrada ou ainda está nela para inspirar nossa coragem e força de vontade. Por outro lado, tem o lance da privacidade. Afinal, é uma ecovila, não um reality show. É preciso dosar. Não exagerar. Saber impor limites.
O primeiro espaço que ficou "pronto" no meu terreno (que, aliás, o capim tomou conta) foi o círculo para a fogueira entre amigos, à luz da lua (foto). Por enquanto, a casa mesmo ainda está em obra, não tem móveis nem porta-retratos. É “só” uma casa. Mas, em breve, muito breve, será o meu lar. Aí, com certeza, a história será outra.
P.S.: Já que a reportagem ficou simpática, dou o caminho das pedras: se você quiser assisti-la, clique nos links que separei: Primeira Parte e Segunda Parte.