Gaiatos e Gaianos
07/07/2009 às 11:35
Ah, esse excesso de e-mails...


Quantos e-mails você já jogou no lixo hoje? Vinte? Trinta? Muito mais do que isso? Pois é, acho que esse exagero de informação não é nada sustentável. Basta um dia sem abrir e-mails para que o tempo gasto com a limpeza da caixa de entrada (sim, porque no fim sobra pouca coisa importante de verdade) deixe qualquer um maluco. Sem falar nas respostas que devem ser sempre rápidas, na sensação de ter que estar 24 horas por dia conectado (ou seja, disponível para o mundo) e, pior, na ideia equivocada de que a internet é sempre o melhor jeito de se comunicar com alguém.

Pode parecer estranho, afinal sou jornalista e blogueira, mas confesso a você que não gosto dessa falsa deidade cibernética. Ela parte do pressuposto de que todo mundo tem acesso à rede mundial (ou deveria ter), todo mundo se relaciona bem com essa tecnologia (ou terá que aprender) e sabe expor ideias, sentimentos, resolver problemas de trabalho e até conflitos amorosos como se estivesse tête-à-tête com alguém. E mais: não dá a ninguém o direito de não querer lidar com informática, ao menos em alguns momentos. Ora, se ela caminha hoje em direção a ser a única via aceita pela sociedade, se todos têm que entrar na onda, onde estaria a liberdade individual nessa história? Essa tal inclusão digital, tão alardeada como ápice da democracia, algumas vezes soa mais com uma grande tirania disfarçada de bom moço...

Mas voltemos aos e-mails... Lá na Ecovila Clareando, todos os integrantes fazem parte de uma comunidade virtual, uma lista de discussão na internet. E aí, dependendo do ânimo e dos temas abordados, não raras vezes chegam tantas mensagens que ninguém dá conta de ler tudo. E tem de tudo: dicas ecológicas, textos inspiradores, poemas, momentos astrológicos especiais, discussões sobre nomeação de ruas, dúvidas de construção das casas, reclamações gerais, avisos de reunião, encontros e outros eventos na ecovila, e por aí vai.

Imagine: somos quase 100 pessoas. Todas com e-mails e cheias de vontade de conversar, compartilhar sonhos, desejos, botar o pé e o coração na terra. Resultado: muitos, muitos e muitos e-mails todos os dias.

Já teve até quem pedisse para retirar o nome da lista, para não receber tantas mensagens... Outras pessoas reclamam do tempo que investem para conseguir estar “por dentro de tudo que acontece na comunidade” – como se a lista fosse a única maneira de interagir com a Clareando. Eu não consigo ler tudo. De cara, apago aquelas mensagens em power point que vêm com musiquinha e palavras bonitas e, no final, quase sempre dizem que você só terá sorte se encaminhar a mensagem para um monte de gente (em outras palavras: se tumultuar a caixa postal de seus “amigos”).

Sabe, às vezes, sinto necessidade de conversas do tipo olho no olho, de ver a expressão no rosto de quem está à minha frente, mais ou menos como na foto escolhida para este post que, aliás, a-do-ro. Ela me lembra uma vida mais lenta, mais singela, e nem por isso menos intensa em relações e experiências. Remete a um tempo em que as pessoas paravam tudo o que estavam fazendo para ouvir o que o outro tinha a dizer, e tinham o toque do vento, o sol e as nuvens como testemunhas. Hoje em dia, quem diria, o abraço virou mera formalidade abreviada: abs.

Tristezas à parte, no dia-a-dia economizo ao máximo no envio de e-mails e procuro pensar se um telefonema ou até uma visita não seriam maneiras mais gentis de dizer feliz aniversário, dar boas-vindas a um amigo, expressar afeto e, por que não, de entregar em mãos aquele relatório enorme que o chefe pediu para ontem (ainda que em CD ou pen drive, para não gastar papel...).

Será que isso é saudosismo dos tempos em que o carteiro era o mensageiro dos apaixonados? Pode ser. Mas, já que estamos no século XXI, eu gostaria de, pelo menos, tentar combater a monocultura imposta pela informática e, assim, conquistar o direito de escolher, entre tantas possibilidades, a que melhor cabe para mim em cada momento. (Neste aqui, por exemplo, acabo de usar uma ferramenta eletrônica para reclamar do excesso de informações "virtuais" que recebemos todos os dias. Paradoxal, sim, confesso. Como quase tudo nesse país cibernético de brasileiros ora conectados, ora desdentados).

 






Comentários

08/07/2009 às 12:25
Mara - diz:
Oi Giuliana...Ja li alguns posts seu e gostei muito e esse em especial me chamou a atenção mais do que o da abóbora q adorei...Como vc perguntou "Será que é saudosismo dos tempos do carteiro..." eu diria que sim respeito muito sua opinião e concordo também que é muito bom falar com a pessoa olhando nos olhos dela, que o abraço é muito especial, o toque é importantissimo...mas eu pessoalmente adoro receber emails reservo um certo tempo e alguns leio outros deleto...mas veja meu caso estou muito longe de amigos queridos, muito queridos e esse mundo virtual me aproxima deles de alguma forma e a resposta é muito rápida isso é bom principalmente qdo estou em um momento digamos "baixo astral" ou querendo compartilher algo legal e ñ só para mensagens, ñ passo meu dia na frente do computador e acho esse mundo virtual maravilhoso ja me ajudou muito... então é isso...Namastê!

09/07/2009 às 11:25
Giuliana - diz:
Oi, Mara, obrigada por escrever. Sabe, é por isso que gosto de ouvir outras versões da mesma história. É muito enriquecedor. Em vários encontros de ecovilas, costumamos dizer que cada pessoa carrega um pedacinho da verdade e que, juntas, elas formam uma verdade muito maior do que a soma de todas as partes. É isso. Você trouxe a sua verdade! E ela não deve ser colocada em contraposição à minha ou à de que qualquer outra pessoa, mas sim somada às outras, para formar uma verdade ainda maior e mais forte. Obrigada pela contribuição. E que os meios eletrônicos (como essa nossa troca aqui) possam sempre ser uma agradável ponte entre você e alguém que está longe. Um grande abraço.

09/07/2009 às 14:08
Val - diz:
Oi pessoal. Adorei o post e concordo, mas como tudo na vida tem um MAS...rs... Creio que temos que saber dosar o que fazemos, como fazemos e pra quem fazemos...tentar a medida certa das coisas é a grande sacada...Abs e abraços....rs

11/07/2009 às 01:30
Carlos - diz:
Sou um excelente mau exemplo de internauta. Dias destes recebi uma destas correntes que "já correram o mundo e fizeram estrago quando ñ seguidas à risca" e tive que enviar a 15 pessoas para tal estrago ñ se repetir e, surpresa, só haviam 09 contatos em minha caixa. 1º a Net ñ é um igreja (pelomenos convencional) 2º entendo que esta maravilhosa biblioteca está aki par ser consultada e com este movimento enriquecer a cultura de quem a ela recorre. Devemos notar que se o nosso bebê falou o primeiro monossílabo ñ é da conta de todos, menos ainda de pessoas que nem sabem de sua existência ou ainda, que só aos nossos olhos q este alguem acharia graça em tal acontecimento. Bjs, já falei demais...

20/07/2009 às 20:07
Mara - diz:
Bem Carlos concordo com vc qto a Net ñ ser uma Igreja, mas pode ser de fato um confessionário do qual muitas vezes eu recorri sem pensar duas vezes...qto a "...notar se o nosso bebê falou o primeiro monossílabo ñ ser da conta de todos..."bem eu pessoalmente sou adeopta do compartilhar aprendemos muito com isso, tbém tenho aprendido a ouvir, e qto a vc ja ter falado demais ñ achei até gostei e achei muito criativo o "a Net ñ é uma Igreja" tbém achei muito engraçado...ah! qto as correntes umas costumo passar outras ñ independente da qtde de cotatos...rsrsrsrsrsrsrs...Um abraço.

20/07/2009 às 20:07
Mara - diz:
Bem Carlos concordo com vc qto a Net ñ ser uma Igreja, mas pode ser de fato um confessionário do qual muitas vezes eu recorri sem pensar duas vezes...qto a "...notar se o nosso bebê falou o primeiro monossílabo ñ ser da conta de todos..."bem eu pessoalmente sou adeopta do compartilhar aprendemos muito com isso, tbém tenho aprendido a ouvir, e qto a vc ja ter falado demais ñ achei até gostei e achei muito criativo o "a Net ñ é uma Igreja" tbém achei muito engraçado...ah! qto as correntes umas costumo passar outras ñ independente da qtde de cotatos...rsrsrsrsrsrsrs...Um abraço.

27/10/2009 às 11:45
Espedita - diz:
Oi pessoal, é interessante o alerta. Mas concordo com a opinião da que diz: tudo na vida tem os "prols" e "contra", vantagens e desvantagens. Cabe a nós saber equilibrar e usar de forma correta os recursos à nossa disposição.



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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