Quantos e-mails você já jogou no lixo hoje? Vinte? Trinta? Muito mais do que isso? Pois é, acho que esse exagero de informação não é nada sustentável. Basta um dia sem abrir e-mails para que o tempo gasto com a limpeza da caixa de entrada (sim, porque no fim sobra pouca coisa importante de verdade) deixe qualquer um maluco. Sem falar nas respostas que devem ser sempre rápidas, na sensação de ter que estar 24 horas por dia conectado (ou seja, disponível para o mundo) e, pior, na ideia equivocada de que a internet é sempre o melhor jeito de se comunicar com alguém.
Pode parecer estranho, afinal sou jornalista e blogueira, mas confesso a você que não gosto dessa falsa deidade cibernética. Ela parte do pressuposto de que todo mundo tem acesso à rede mundial (ou deveria ter), todo mundo se relaciona bem com essa tecnologia (ou terá que aprender) e sabe expor ideias, sentimentos, resolver problemas de trabalho e até conflitos amorosos como se estivesse tête-à-tête com alguém. E mais: não dá a ninguém o direito de não querer lidar com informática, ao menos em alguns momentos. Ora, se ela caminha hoje em direção a ser a única via aceita pela sociedade, se todos têm que entrar na onda, onde estaria a liberdade individual nessa história? Essa tal inclusão digital, tão alardeada como ápice da democracia, algumas vezes soa mais com uma grande tirania disfarçada de bom moço...
Mas voltemos aos e-mails... Lá na Ecovila Clareando, todos os integrantes fazem parte de uma comunidade virtual, uma lista de discussão na internet. E aí, dependendo do ânimo e dos temas abordados, não raras vezes chegam tantas mensagens que ninguém dá conta de ler tudo. E tem de tudo: dicas ecológicas, textos inspiradores, poemas, momentos astrológicos especiais, discussões sobre nomeação de ruas, dúvidas de construção das casas, reclamações gerais, avisos de reunião, encontros e outros eventos na ecovila, e por aí vai.
Imagine: somos quase 100 pessoas. Todas com e-mails e cheias de vontade de conversar, compartilhar sonhos, desejos, botar o pé e o coração na terra. Resultado: muitos, muitos e muitos e-mails todos os dias.
Já teve até quem pedisse para retirar o nome da lista, para não receber tantas mensagens... Outras pessoas reclamam do tempo que investem para conseguir estar “por dentro de tudo que acontece na comunidade” – como se a lista fosse a única maneira de interagir com a Clareando. Eu não consigo ler tudo. De cara, apago aquelas mensagens em power point que vêm com musiquinha e palavras bonitas e, no final, quase sempre dizem que você só terá sorte se encaminhar a mensagem para um monte de gente (em outras palavras: se tumultuar a caixa postal de seus “amigos”).
Sabe, às vezes, sinto necessidade de conversas do tipo olho no olho, de ver a expressão no rosto de quem está à minha frente, mais ou menos como na foto escolhida para este post que, aliás, a-do-ro. Ela me lembra uma vida mais lenta, mais singela, e nem por isso menos intensa em relações e experiências. Remete a um tempo em que as pessoas paravam tudo o que estavam fazendo para ouvir o que o outro tinha a dizer, e tinham o toque do vento, o sol e as nuvens como testemunhas. Hoje em dia, quem diria, o abraço virou mera formalidade abreviada: abs.
Tristezas à parte, no dia-a-dia economizo ao máximo no envio de e-mails e procuro pensar se um telefonema ou até uma visita não seriam maneiras mais gentis de dizer feliz aniversário, dar boas-vindas a um amigo, expressar afeto e, por que não, de entregar em mãos aquele relatório enorme que o chefe pediu para ontem (ainda que em CD ou pen drive, para não gastar papel...).
Será que isso é saudosismo dos tempos em que o carteiro era o mensageiro dos apaixonados? Pode ser. Mas, já que estamos no século XXI, eu gostaria de, pelo menos, tentar combater a monocultura imposta pela informática e, assim, conquistar o direito de escolher, entre tantas possibilidades, a que melhor cabe para mim em cada momento. (Neste aqui, por exemplo, acabo de usar uma ferramenta eletrônica para reclamar do excesso de informações "virtuais" que recebemos todos os dias. Paradoxal, sim, confesso. Como quase tudo nesse país cibernético de brasileiros ora conectados, ora desdentados).