Gaiatos e Gaianos
30/06/2009 às 17:09
Trabalho de formiguinha


Recentemente, conheci duas pessoas muito especiais. Em comum, elas têm o dom de semear árvores na cidade, num trabalho de formiguinha que, com a ajuda do tempo, vira um presente para todos. Um é o artista Rubens Matuck, morador da Vila Madalena, em São Paulo, onde já plantou mais de 2 mil árvores em ruas e praças do bairro.

Seu ateliê é um mix de aquarelas delicadas, cadernos de viagem, viveiro de mudas, biblioteca de árvores brasileiras e museu vivo de sementes de diferentes regiões do país e do mundo.

O outro é o Hélio da Silva, executivo da Native (fabricante de alimentos orgânicos), morador da Penha. Praticamente sozinho, ele transformou a área degradada à beira do córrego Tiquatira no primeiro parque linear da cidade, um lugar bem agradável para o lazer e as caminhadas. Lá ele plantou mais de dez mil árvores, de 152 espécies.

Para mim, o Rubens e o Hélio são heróis urbanos, que não usam roupa de super-herói, não têm poderes mágicos nem foto publicada na capa dos jornais. Eles são como as personagens que leio na seção Local Hero da revista inglesa Ecologist: gente comum que doa trabalho e tempo para melhorar o lugar em que vivem. Como eles, existem muitos outros por aí, que preferem ser formigas discretas, ativas, gandhianas. São estrelas que nos inspiram.

Em tempos tão agitados, difícil é ter tempo e sintonia para perceber a presença desses heróis singelos. Porque eles não fazem alarde e não têm assessor de imprensa. Apenas fazem o que acham que tem que ser feito. E de coração. Simples assim.

Acho que por trás disso mora a ideia de que um exemplo vale mais do que mil palavras ou um discurso articulado. Ah, sim, e também o fato de que uma formiga mais algumas tantas formigas formam um formigueiro poderoso. Em resumo, mesmo a ação mais singela, quando somada a outras semelhantes, torna-se grandiosa. Já ouvi muita gente dizer que não separa o lixo e não economiza no banho e na energia porque o vizinho também não faz e ele sozinho não vai mudar nada. Ai, ai. Enquanto pensarmos assim, nada vai mudar mesmo. É preciso ter paciência, pensar no longo prazo, fugir do imediatismo. Acreditar. Confiar. Agir sem esperar resultados.

A mídia não ajuda quase nada nesse sentido. Aliás, acho que ela mais atrapalha do que ajuda. Herói é aquele malandro que se dá bem na vida, é o cara malhado que salva a mocinha do perigo, o executivo que só anda de carrão, a mulher que chefia uma equipe de 50 homens ou se mantém com pique de 20 aos 45 anos. Esses são os heróis dos filmes modernos, das novelas e dos telejornais.

Mas eu queria aqui ressaltar o valor dos heróis anônimos, humanos, imperfeitos. Esses são os verdadeiros, os autênticos. É deles que precisamos para restabelecer o equilíbrio do planeta. Não de gente que tem status pelo que consome, mas de gente que tem voz porque tem atitude. São os agricultores familiares que migram a produção orgânica, os catadores de recicláveis que descobrem o valor de seu trabalho, os plantadores urbanos, os ciclistas, os voluntários de mutirões de casas populares, as mulheres artesãs que resgatam a cultura de seus ancestrais. Esses sim são heróis de verdade, na vida real, sem Orkut e sem plano de marketing.

Da próxima vez que tiver um tempinho para passear pela cidade, procure identificar alguns heróis-formiguinhas que estão perto de você. Observe-os, inspire-se e acredite nos pequenos passos. As grandes jornadas sempre começam com um primeiro passo. (Pelo menos foi o que li num livro sobre peregrinos em busca de lugares sagrados na Terra...)






Comentários

01/07/2009 às 19:46
Thiago Benucci - diz:
lindo, infelizmente ninguem da valor aos verdadeiros e simples heróis, sobre a ecovila, gostaria de ter mais informações de lá, se possivel me conta direitinho como tá funcionando lá, to morrendo de vontade de ir lá visitaremail: thiagobenucci@hotmai.com:)

09/07/2009 às 11:15
Giuliana - diz:
Oi, Thiago, fico contente que esteja interessado em saber mais sobre a ecovila. As comunidades sustentáveis (ou melhor, que estão no caminho da sustentabilidade) são inspiradoras e muito importantes nesse momento planetário. No site da Clareando (www.clareando.com.br) tem muita informação, fotos, relatos de eventos etc. Mas nada disso substitui uma visita em que se possa conhecer de perto as pessoas que já moram lá, as que estão construindo, as que ainda estão na fase de sonhar com a futura casa, e por aí vai. Todo mês tem piquenique aberto para os visitantes. Quem sabe vc não consegue se agendar para ir até lá? Sinta-se convidado, ok? Grande abraço.



Deixe aqui seu comentário:
Preencha os campos abaixo para deixar seu comentário no blog.

Seu nome:

Seu e-mail:




Gaiatos e
Gaianos


Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
Posts anteriores
21/07/2009
• Entre amigos



Mapa do Site | Quem Somos | Política de Privacidade | Fale Conosco | RSS | Faça do Planeta Sustentável sua home page | Adicionar aos Favoritos
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados