Gaiatos e Gaianos
23/06/2009 às 15:44
Socorro, não aguento mais SP!


A casa na ecovila Clareando está em construção e, enquanto não fica pronta, minha morada durante a semana é a metrópole, com todos os seus problemas... Moro em São Paulo desde 1996, quando entrei na faculdade e me mudei para cá. Mas passei a infância e a adolescência em Itatiba, a 80 km da capital. A bicicleta era meu principal meio de transporte, eu conhecia os vizinhos, respirava ar puro, não enfrentava congestionamentos nem metrô lotado. Também quase não ia ao cinema (porque o único da cidade só passava filme do Didi, da Xuxa e do Schwarzenegger. Ninguém merece). Teatro não tinha. O lazer era a piscina do clube, os treinos no time de vôlei da cidade, as brincadeiras na rua e a pizzaria na praça do centro.

Quando me mudei para São Paulo, sofri horrores. O que já era natural ou “normal” para muita gente, para mim era um martírio. Eu não entendia como alguém podia entrar num elevador e não cumprimentar a pessoa ao lado, ou dividir o banco do ônibus como se o outro fosse uma estátua. Ingenuidade do interior? Talvez, diria algum urbanóide.

Com o tempo, fui descobrindo os lugares bacanas da cidade, os amigos, as rotas alternativas. Depois de morar em inúmeros locais (república de estudantes, pensionato de freiras, apê de amigas, casa do tio solteiro etc.), chegou a hora (tem hora para isso?) de casar. Primeiro, fomos morar numa casa alugada. Costumo brincar que foi uma espécie de test drive. Depois, compramos um sobradinho de vila, perto do parque da Aclimação. Lugar gostoso, cheio de pequenos comércios familiares, com área verde, vizinhos gentis e uma amoreira na porta de casa (que já rendeu potes e mais potes de geléia).

No pequeno quintal, plantamos ervas aromáticas e medicinais, temperos, maracujá, abóbora, chuchu. Criamos um pedacinho de verde e um clima de interior. Um sossego. Os amigos chegavam e sempre diziam: “aqui nem parece São Paulo”. Mas a tranquilidade esbarrou na falta de planejamento da cidade. No tão comemorado boom imobiliário, que fez brotar de antigos casarões do bairro prédios enormes e condomínios gigantes, quase que da noite para o dia. Infelizmente, não escapamos disso.

Bem ao lado da minha vila, uma construtora comprou umas oito casas (que também formavam uma vilinha) e começou a levantar um prédio de 25 andares. Acabou o nosso sossego. As maritacas foram embora, junto com o silêncio das manhãs. Minha horta foi destruída pelos resíduos de cimento e areia que caem aos montes (até hoje) no meu quintal. Meu muro sofreu rachaduras, várias telhas foram quebradas, os carros da vila vivem sujos de resíduos de construção e a minha paciência de praticante de yoga chegou ao fim. Era hora de exigir o mínimo de respeito.

Fui conversar com a engenheira responsável e sabe o que ouvi dela? Que eu precisava ser mais tolerante. Mais?!?! E sabe o que é mais irônico nisso tudo? O nome da construtora: Diálogo. Para minha surpresa, o prédio também não deixou recuos decentes. Entre o beiral do meu telhado e o muro do prédio não há mais do que 50 cm! Um absurdo! Mas o absurdo maior é que a obra chegou a ser embargada pela prefeitura, mas depois foi autorizada a seguir adiante. Eu e os demais vizinhos fizemos de tudo para saber se a obra estava mesmo dentro da lei, e se era possível alterar o projeto para não prejudicar tanto as nossas casas.

Que nada. Nessa hora, infelizmente, ganha quem tem mais poder econômico. Ganham os grandes, quase sempre. Foi um inferno conviver com a obra – e ainda é, porque a coisa não terminou. Meu quintal está parecendo uma gaiola, com um aramado “protegendo” contra os resíduos da obra. Toda semana retiro do quintal mais ou menos 2 kg de sujeira. Um total absurdo.

E sabe por quê? Porque a cidade que “não para de crescer” não tem qualquer planejamento ou estudo prévio para prever os reflexos que um empreendimento pode causar num bairro. O Plano Diretor não sai do papel. O direito de vizinhança, já tão bem resolvido fora do Brasil, aqui não vale nada. Não é sequer conhecido pela população e pelas “autoridades”.

Como é que pode?!?! Perdi o sol das manhãs, minha casa ficou mais escura e fria, meu horizonte da janela não existe mais. E eu simplesmente não posso fazer nada para mudar a situação. Aliás, posso sim: fugir, mudar de endereço, como já estava nos planos antes mesmo da obra começar. Mas e quem não pode? E quem não tem a perspectiva de mudar de casa, de bairro, de cidade? Como fica? Fica como aguentar, como puder suportar? Vamos seguindo a vida anestesiados, tentando digerir as adversidades e pensar que é assim mesmo que o mundo funciona? Esse é o grande problema das cidades que crescem além da escala humana, além de qualquer limite que possa garantir um lugar decente e um ambiente saudável para todos.

Hoje em dia, quando um paulistano ou paulistana me questiona por que vou sair de São Paulo, imediatamente me vem à cabeça: e você ainda me pergunta?!? Sei que a ecovila não será um paraíso na terra, mas, como lá nós temos um planejamento de lotes e zoneamento da terra, também sei que posso dormir tranquila, sabendo que ninguém nunca poderá tirar de mim o sol e o horizonte (tal como aparece na foto que fiz recentemente).

Se você mora numa cidade grande, não deixe de buscar seus direitos. Só assim, um dia, quem sabe, o ambiente urbano poderá se tornar um lugar melhor para se viver - e não apenas sobreviver.






Comentários

25/06/2009 às 17:05
Raphael Rodrigues - diz:
olá giuliana. realmente, nos dias de hoje, somos reféns do dito "progresso" de nossas cidades, cada vez mais populosas mas com cada vez menos "contato" entre seus habitantes. também sou interior mas atualmente faço faculdade em Niterói e sei bem como é tomar o elevador do próprio prédio e não ouvir resposta a um entusiasmado "bom dia". é a primeira vez que vejo seu blog mas já havia visitado o site da Clareando e me interesso muito pela proposta da Ecovila. só me diga como eu faço pra me mudar pra lá! hehehe abraços e tudo de bom!

25/06/2009 às 17:06
Raphael Rodrigues - diz:
olá giuliana. realmente, nos dias de hoje, somos reféns do dito "progresso" de nossas cidades, cada vez mais populosas mas com cada vez menos "contato" entre seus habitantes. também sou interior mas atualmente faço faculdade em Niterói e sei bem como é tomar o elevador do próprio prédio e não ouvir resposta a um entusiasmado "bom dia". é a primeira vez que vejo seu blog mas já havia visitado o site da Clareando e me interesso muito pela proposta da Ecovila. só me diga como eu faço pra me mudar pra lá! hehehe abraços e tudo de bom!

26/06/2009 às 12:47
mara - diz:
Olá Giluliana sou uma admiradora do seu blog e admiro muiiito mesmo esse seu jeito de trazer sempre o verde e o respeito pelo verde onde quer que esteja(conscientização), li o post da abobora mágica e desde então tornei-me uma admiradora sua...enfim qto a ser do interior e se mudar para S.Paulo pra quem ñ está acostumado deve ser um martírio sim no começo(aconteceu comigo), no meu caso nasci no interior de S.Paulo próximo a Pres.Prudente e mudei-me para a Capital com 12 anos eu e meus pais por motivos financeiros...mas qto a entrar no elevador e as pessoas ñ se cumprimentarem muitas vezes nem é assim proposital, penso que elas esperam um sorriso tbém e hj em dia acho que isso mudou as pessoas estão mais receptivas.É que qdo mudamos para um lugar onde ñ estamos acostumados ficamos naquela fase de adaptação e sentimos assim uma certa frieza, mas no meu caso se vc entrasse no elevador e eu la estivesse com certeza nos cumprimentariamos, ao menos por um sorriso, tem muita gente que fica a espera de um "OI"...mas são todos ou a maioria do bem acredito nisso, quem ñ gosta de aconchego, e que seja pelo menos um sorriso...agora estou aqui no interior de S.Paulo novamente me adaptando com a natureza estou com 42 anos e PASME, sinto saudades de S.Paulo de amigos e tive muito aconchego por aí...Parabéns pelo blog e pelos posts...BJS!

27/06/2009 às 11:30
Giuliana - diz:
Oi, Mara, oi, Raphael, obrigada por registrarem comentários aqui. Acho que também vou sentir falta de São Paulo, como você, Mara. Criamos laços afetivos com a cidade, por mais maluca e agressiva que ela seja, às vezes. Sem falar que interagimos com as pessoas que, com o tempo, viram amigos e geram saudade quando estão longe... Vou continuar ligada a São Paulo, mesmo morando na ecovila. Tenho família aqui, amigos, lugares que gosto de visitar etc. E, por outro lado, Raphael, as relações na ecovila também exigem cuidados, afeto, atenção. Ninguém vira "gente boa" só porque se mudou para uma ecovila. E como não temos elevadores por lá, as pessoas descontentes simplesmente se isolam, evitam contato quando estão "de bode" de alguém ou de alguma coisa que aconteceu e que a desagradou. Afinal, lá também temos conflitos, interesses diferentes, mau humor e outros poréns. A maioria dos moradores vem de cidades grandes e carrega na bagagem as carcaças das metrópoles. Por isso, acredito que será um processo longo de ajustes mas também de muito aprendizado, certamente. Vamos ver no que vai dar. Raphael e Mara, quando tiverem oportunidade, venham conhecer a ecovila. Será um prazer recebê-los. Um abraço grande.

29/06/2009 às 13:00
Lívia Corazza Nogueira - diz:
Olá, Giuliana! Desculpe-me se eu escrever demais neste "desabafo", por favor. Eu estava conversando neste sábado exatamente sobre o assunto que você abordou hj. Fico inconformada com o número de propagandas (especialmente em SP), geralmente veiculadas na televisão, sobre novos condomínios, sempre de "alto padrão" e sempre com aquela garantia absurda do ocupante ter a tranqüilidade do campo ou um clima praiano ou uma espécie de árvore com o nome da família a residir no local do empreendimento. Aqui perto de casa (Zona Sul) há um (uns) desses em construção. A propaganda chega a dar raiva. Nas áreas de lazer do condomínio foram colocados nomes como: Torre Barra do Saí, onde haverá uma Lan house e um "Lounge adolescente". Contraditório? Acho que não preciso nem dar mais exemplos. O local desta construção é uma das poucas áreas com vegetação aqui no bairro. (Procure no Google Earth: Domínio Marajoara (SP)).

29/06/2009 às 13:02
Lívia Corazza Nogueira - diz:
(Continuando..) E lógico, cada morador terá seu carro e a Av. Interlagos que já não comporta mais o trânsito ficará pior ainda. Aposto que a verdadeira Barra do Saí não tem nada de semelhante a isso. Eu digo que essa garantia da natureza ao ocupante é absurda, pq todos têm esse direito! Este local deveria ser um Parque ou algo menos agressivo do que um condomínio de luxo. Moro nesta casa desde que nasci e muita coisa mudou, estou cercada por edifícios, também tenho horas a menos de Sol, poeira por todo canto e poucos pássaros à vista. O problema é que diante de tanto $$ vinculado a estes empreendimentos, eu não sei como interferir nisso. Mas fico feliz ao ver que existem pessoas com esta mesma preocupação. Parabéns pelo tema! Valeu pela leitura! Beijos!

30/06/2009 às 15:31
Rebeca Bremgartner da Frota - diz:
Olá Giuliana, meus pais estiveram em clareando e falaram com vc eles sao de Manaus/Am e estiveram no domingo dia 21/06, meu pai e minha mae visitaram sua casa que esta em construçao, junto com Edson Hiroshi,eu fiquei com muita vontade de estar ai e conhecer a Ecovila Clareando, acho que faremos isso ainda este ano.Acompanho todas as noticias de gaiatos e gaianos e sou sua fã!Vou te mandar todas as coisas que tenho sobre ecologia, meio ambiente e ideias sustentáveis.Abraços e beijosRebeca.

02/07/2009 às 17:06
Erian - diz:
Oi Giuliana, eu gosto muito de ler seu blog como te falei lá em Nazaré Paulista naquele encontro com Ecovilas e iniciativas pela sustentabilidade. Eu sou da Ecovila Terra UNA, mas moro no bairro de Santa Tereza no Rio de Janeiro. Logo logo também estarei rumando para as terras altas da Mantiqueira.Que bom que você está com este bastão da verdade para expressar nossos desejos e ao mesmo tempo dizer o quanto temos de afetividade pelas cidades em transição. Estamos este ano trazendo para o Rio de Janeiro o Gaia Education que de alguma forma nos conforta saber que temos a possibilidade de transformar as cidades com ações como esta. Estamos lá, mas estamos cá também. O Gaia vai ser no Jardim Botânico do RJ, importante parceiro na caminhada por aqui. Beijo e até a próxima

09/07/2009 às 11:08
Giuliana - diz:
Oi, Lívia, Rebeca e Erian, muito grata pelos comentários! Lívia, entendo bem seu desabafo. A sensação é mesmo de impotência, mas nem por isso podemos desistir. Temos que continuar buscando informações, checar sempre se a obra está dentro da lei, se há algum questionamento que possa ser feito, enfim, ficar no pé das autoridades para combater essa cultura do dinheiro-pode-tudo. Obrigada por compartilhar suas ideias e experiências. Rebeca! Conheci seus pais, mas infelizmente não tive muito tempo para conversar com eles. Eu já estava indo embora da ecovila quando eles chegaram. Uma pena. Eles têm um astral muito bom! Meu companheiro viu depois com o Hiroshi a ideia do galinheiro ecológico e adorou! Seu pai também comentou de você. Espero que possamos nos conhecer em breve. Até o fim do ano minha casa estará pronta e você é minha convidada especial para uma conversa na varanda, sem pressa e na companhia de uma bela paisagem. Fico feliz de saber que vc acompanha o blog aí no coração da Amazônia. Erian! Bom te "rever" por aqui! Legal a iniciativa do Gaia no Rio. Toda sorte para vocês. Estamos em conexão! Um abraço a todos e todas!

12/07/2009 às 22:30
luciano - diz:
Este seu depoimento está me deixando preocupado, alguns imóveis ao lado da minha casa foram comprados por uma construtora que está apenas esperando o mercado imobiliário se reaquecer pra começar a construir um prédio, aliás fizeram uma oferta (infima é claro) por minha casa.

13/09/2009 às 18:28
Élide - diz:
Olá, Juliana, tenho lido muito sobre ecovilas e partilho das ideias e principios desta iniciativa, tenho grande interesse em conseguir morar em uma, por isso gostaria de pedir ajuda a você. Gostaria de saber se você sabe informar se ha algum site no qual sejam cadastradas as ecovilas...sei la..algum lugar no qual eu possa encontrar um monte delas e escolher e contata-las para decidir em qual quero viver?Agradeço.Beijosss Élide



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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