Gaiatos e Gaianos
16/06/2009 às 13:05
Para tecer uma vida na ecovila


No último sábado, participei de um encontro um tanto inusitado. Um casal de amigos que já mora na Ecovila Clareando convidou uma amiga, a Liane, para dar um curso de tear na casa deles. Estávamos em dez ou doze pessoas, entre mulheres e homens. Sim, os homens também participaram e, aliás, saíram-se muito bem.

Passamos a tarde juntos, enredados em novelos de lã e barbante coloridos, agulhas de crochê, teares e outros apetrechos. Cada um tinha em mãos um tear, pequeno, de 20 x 20 cm, com preguinhos nas quatro laterais. A cada nova lição, lá íamos nós tecer um pouquinho mais. E sempre conversando, contando histórias, ouvindo os comentários de quem se deliciava com o novo aprendizado.

Ao final de cada quadradinho saído do tear, uma sensação gostosa de nascimento e realização parecia brotar em nossos corações. De repente, tínhamos vários deles, cada um de uma cor: azul, rosa, amarelo, verde, laranja, bege, cinza. Dispostos sobre a mesa, nossa imaginação ia longe com sugestões do que fazer com eles. Uma toalha de mesa, umas duas ou três capas de almofadas, um cachecol ou um começo de colcha de retalhos, quem sabe.

Quase todos que estavam ali, inclusive eu e meu companheiro, nunca tinham experimentado um tear. E a sensação de poder aprender uma habilidade nova foi contagiante. Nem vimos o tempo passar. Ficamos ali, apenas tecendo e tecendo, até anoitecer.

Trabalhos coletivos são realmente prazerosos. Tudo fica mais gostoso em grupo, mais vivo, mais cheio de sentido. Naquela tarde fria, aqueles fios não escapavam da metáfora mais evidente: viver numa ecovila é como tecer uma peça que nunca acaba, mas que a cada novo pedacinho vai ganhando mais corpo e mais história.

Lembro-me de quando comprei o lote na Clareando. Eu não conhecia muito as outras pessoas da comunidade. Tinha, no entanto, uma intuição muito boa de que estava no lugar certo. Aos poucos, entre festas, mutirões e conflitos (estes são inevitáveis e até saudáveis, de certo modo), fui descobrindo um pouco mais sobre cada um. E aprendendo a gostar de todos, cada um à sua maneira, com suas cores e fios próprios.

Nesse tempo de convivência, já dividimos muita coisa. Incontáveis vezes, fomos para a cozinha preparar refeições para a comunidade, plantamos um pomar inteiro de frutíferas, sentamos sob o luar para ouvir música e cantar, construímos com a terra local, amassando o barro com as mãos carregadas de vida. Cuidamos um do outro em momentos de dor, dividimos a casa, o sofá, o pão, os sonhos, a colheita de feijão. Até tivemos a bênção de receber novos integrantes, bebês que vieram ao mundo já como futuros moradores de uma ecovila – e com um olhar de esperança e gratidão que me emociona sempre.

Acho que tecer a vida é isso. É estar presente a cada instante e trama tecida, e ter com quem recordar (tornar a passar pelo coração) o passado e desenhar o futuro. Mas sempre no aqui e agora, fio por fio.






Comentários

16/06/2009 às 17:04
Roberto - diz:
Olá,Gostaria do e-mail para contato do dono do blog ou responsável da área comercial/marketing para a oferta de uma proposta comercial. Favor enviar e-mail de resposta a roberto@meumoveldemadeira.com.brAtenciosamente,www.meumoveldemadeira.com.br 047-3634-3202 / 0800-645-9009

21/06/2009 às 13:32
Cristiane - diz:
Giuliana, parabéns pelo blog! Sempre dou uma espiadinha aqui. A forma e os assuntos que escreves com certeza faz com que as pessoas se interessem mais e mais por essas coisas. Falando nisso, tive uma ideia de post, algo que imagino que seria bem legal ver escrito por ti, e tendo toda essa visibilidade que teu espaço proporciona. Se não for muito abuso, podes me mandar um email pra conversarmos?Um abraço.

22/06/2009 às 09:21
Giuliana - diz:
Oi, Cristiane, obrigada pela mensagem. Vou enviar um e-mail para você, sim, claro! Fiquei curiosa e gostaria de ouvir sua sugestão. Um abraço.

26/06/2009 às 12:44
Mara - diz:
Olá Giluliana sou uma admiradora do seu blog e admiro muiiito mesmo esse seu jeito de trazer sempre o verde e o respeito pelo verde onde quer que esteja(conscientização), li o post da abobora mágica e desde então tornei-me uma admiradora sua...enfim qto a ser do interior e se mudar para S.Paulo pra quem ñ está acostumado deve ser um martírio sim no começo(aconteceu comigo), no meu caso nasci no interior de S.Paulo próximo a Pres.Prudente e mudei-me para a Capital com 12 anos eu e meus pais por motivos financeiros...mas qto a entrar no elevador e as pessoas ñ se cumprimentarem muitas vezes nem é assim proposital, penso que elas esperam um sorriso tbém e hj em dia acho que isso mudou as pessoas estão mais receptivas.É que qdo mudamos para um lugar onde ñ estamos acostumados ficamos naquela fase de adaptação e sentimos assim uma certa frieza, mas no meu caso se vc entrasse no elevador e eu la estivesse com certeza nos cumprimentariamos, ao menos por um sorriso, tem muita gente que fica a espera de um "OI"...mas são todos ou a maioria do bem acredito nisso, quem ñ gosta de aconchego, e que seja pelo menos um sorriso...agora estou aqui no interior de S.Paulo novamente me adaptando com a natureza estou com 42 anos e PASME, sinto saudades de S.Paulo de amigos e tive muito aconchego por aí...Parabéns pelo blog e pelos posts...BJS!



Deixe aqui seu comentário:
Preencha os campos abaixo para deixar seu comentário no blog.

Seu nome:

Seu e-mail:




Gaiatos e
Gaianos


Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
Posts anteriores
21/07/2009
• Entre amigos



Mapa do Site | Quem Somos | Política de Privacidade | Fale Conosco | RSS | Faça do Planeta Sustentável sua home page | Adicionar aos Favoritos
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados