
No último sábado, participei de um encontro um tanto inusitado. Um casal de amigos que já mora na Ecovila Clareando convidou uma amiga, a Liane, para dar um curso de tear na casa deles. Estávamos em dez ou doze pessoas, entre mulheres e homens. Sim, os homens também participaram e, aliás, saíram-se muito bem.
Passamos a tarde juntos, enredados em novelos de lã e barbante coloridos, agulhas de crochê, teares e outros apetrechos. Cada um tinha em mãos um tear, pequeno, de 20 x 20 cm, com preguinhos nas quatro laterais. A cada nova lição, lá íamos nós tecer um pouquinho mais. E sempre conversando, contando histórias, ouvindo os comentários de quem se deliciava com o novo aprendizado.
Ao final de cada quadradinho saído do tear, uma sensação gostosa de nascimento e realização parecia brotar em nossos corações. De repente, tínhamos vários deles, cada um de uma cor: azul, rosa, amarelo, verde, laranja, bege, cinza. Dispostos sobre a mesa, nossa imaginação ia longe com sugestões do que fazer com eles. Uma toalha de mesa, umas duas ou três capas de almofadas, um cachecol ou um começo de colcha de retalhos, quem sabe.
Quase todos que estavam ali, inclusive eu e meu companheiro, nunca tinham experimentado um tear. E a sensação de poder aprender uma habilidade nova foi contagiante. Nem vimos o tempo passar. Ficamos ali, apenas tecendo e tecendo, até anoitecer.
Trabalhos coletivos são realmente prazerosos. Tudo fica mais gostoso em grupo, mais vivo, mais cheio de sentido. Naquela tarde fria, aqueles fios não escapavam da metáfora mais evidente: viver numa ecovila é como tecer uma peça que nunca acaba, mas que a cada novo pedacinho vai ganhando mais corpo e mais história.
Lembro-me de quando comprei o lote na Clareando. Eu não conhecia muito as outras pessoas da comunidade. Tinha, no entanto, uma intuição muito boa de que estava no lugar certo. Aos poucos, entre festas, mutirões e conflitos (estes são inevitáveis e até saudáveis, de certo modo), fui descobrindo um pouco mais sobre cada um. E aprendendo a gostar de todos, cada um à sua maneira, com suas cores e fios próprios.
Nesse tempo de convivência, já dividimos muita coisa. Incontáveis vezes, fomos para a cozinha preparar refeições para a comunidade, plantamos um pomar inteiro de frutíferas, sentamos sob o luar para ouvir música e cantar, construímos com a terra local, amassando o barro com as mãos carregadas de vida. Cuidamos um do outro em momentos de dor, dividimos a casa, o sofá, o pão, os sonhos, a colheita de feijão. Até tivemos a bênção de receber novos integrantes, bebês que vieram ao mundo já como futuros moradores de uma ecovila – e com um olhar de esperança e gratidão que me emociona sempre.
Acho que tecer a vida é isso. É estar presente a cada instante e trama tecida, e ter com quem recordar (tornar a passar pelo coração) o passado e desenhar o futuro. Mas sempre no aqui e agora, fio por fio.