Gaiatos e Gaianos
09/06/2009 às 16:53
Entre na onda das roupas usadas


Na Inglaterra e na França, a moda pegou. Fashion é comprar roupas em brechós ou fazer reuniões com os amigos para trocar itens que estavam encalhados no guarda-roupa, apesar de impecáveis. Aqui no Brasil, muita gente acharia esquisito usar uma peça que já fez história em outro corpo. Acontece que toda roupa traz embutida em suas tramas uma longa história, ainda que seja novinha em folha. Desde a produção da matéria-prima (o algodão, por exemplo, que é uma das culturas que mais utilizam pesticidas no mundo) até chegar às lojas, uma camiseta carrega uma mochila considerável de impactos sociais e ambientais – que, muitas vezes, incluem exploração de mão-de-obra, contaminação do solo e da água (com insumos agrícolas nas lavouras e resíduos poluentes nas indústrias) e toda uma máquina da moda criada para impulsionar o consumo de itens, não raras vezes, absolutamente dispensáveis.

Esse ciclo de vida das roupas até pode ser mais “verde”. É o caso das marcas que apostam em tecidos orgânicos, roupas artesanais, cooperativas de costureiras, comércio justo e por aí vai. Mas existem problemas. Primeiro: como essas roupas competem com fábricas que produzem em grandíssima escala (pense nas peças que vêm da China...), o preço da roupa ecológica é sempre muito maior, pelo menos por enquanto. E segundo: não se deixe levar pela mesma lógica da moda, apenas substituindo roupas convencionais por um imenso guarda-roupa ecológico. Entendeu? Claro, porque saber dosar as compras também deve fazer parte dos critérios de um consumidor consciente.

Li numa reportagem do jornal Los Angeles Times que uma mulher americana veste apenas 20% de suas roupas em 80% do tempo. Isso quer dizer que na maior parte do tempo muitas e muitas peças ficam de bobeira no guarda-roupa. E estão em bom estado, na maioria das vezes. Selecionar peças esquecidas no armário e chamar as amigas para uma pequena feirinha de trocas pode ser uma maneira de se desfazer ecologicamente de peças que, provavelmente, foram compradas por impulso ou “porque estavam em liquidação”, por exemplo. Além disso, é um jeito bacana de adquirir novas roupas sem precisar botar a mão no bolso e, claro, sem causar mais impactos ambientais.

Essas trocas me transportam para a minha infância, quando eu e minha irmã (apenas dois anos mais nova do que eu) xeretávamos o armário da outra em busca de uma roupa bacana para a festa do sábado à noite. Depois, com o tempo, nem o guarda-roupa da mãe escapou...

A onda da troca de roupas pode até estar ‘na moda’, mas o ideal seria que se tornasse um hábito mais cotidiano, menos efêmero. Assim, estaríamos de fato poupando o ambiente. Quer ver só? Só no ano passado, o brasileiro consumiu mais de 7 bilhões de m³ de tecido, sendo que grande parte era de produtos importados, principalmente da Ásia. O dado, da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, dá uma mostra do volume inimaginável de roupas que circulam por aí, entre os armários, as lojas e...o lixo.

Uma pesquisa realizada pela ONG britânica Creative Economy revelou que todos os anos mais de um milhão de toneladas de roupas e têxteis são descartados em aterros e locais inadequados em todo o mundo. Só em Santo André, SP, são cerca de 4 toneladas de resíduos de confecções destinados a aterros todos os meses, segundo o Departamento de Geração de Trabalho e Renda da prefeitura.

Mais do que nunca, chegou a hora de reavaliarmos nossos desejos por mais e mais roupas. Conheci recentemente um pouco do trabalho de um pessoal bem bacana que faz parte da ONG Ecotece. Uma frase do Gandhi que está lá no site das meninas resume bem toda a história e o trabalho da organização: "Não existe beleza na roupa mais fina se gera morte e tristeza". Vamos pensar nisso?

Que tal convidar as amigas e amigos para uma faxina geral no armário? O lance é separar roupas encalhadas (em geral, aquelas que não são usadas há um ano, pelo menos), além de sapatos, bolsas e outros acessórios. Depois, é só marcar o encontro, abrir espaço para a exposição das peças e cair de cabeça nesse brechó ecológico e econômico. Ah, sim, e com esse tempo friozinho, um chá quente com broinha de milho também cai muito bem para acompanhar as negociações. Porque, como dizemos nas ecovilas, “se não é divertido, não é sustentável”.

 Foto: Bambuzeria Cruzeiro do Sul






Comentários

01/08/2009 às 18:29
Adriana - diz:
Gostaria de encontrar pessoas para trocar minhas roupas e sapatos.O que devo fazer???

11/08/2009 às 10:57
karla - diz:
Gostaria de vender minhas roupas usadas.Como faço?

08/11/2009 às 16:52
Alternativa Moda Atacado de Roupas Usadas - diz:
Quer comprar ou quer vender é conosco!!!Empresa estrutura e com sede própria em SBC entre em contato conosco via fone 11 4341 5224 ou site: www.alternativamoda.com.br ou email bazarsbc@gmail.com



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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