Gaiatos e Gaianos
26/05/2009 às 16:14
Mata atlântica: mais que uma efeméride


Anos atrás, trabalhei como monitora ambiental no Parque Estadual da Serra da Cantareira – Núcleo Engordador. Duas vezes por semana, eu e a amiga Camila recebíamos um ônibus cheio de crianças ansiosas, inquietas e barulhentas. Assim que elas chegavam, dividíamos a turma em duas, uma para cada monitora e para cada trilha que tínhamos à disposição.

Lembro-me de como era difícil conquistar a atenção das crianças e fazê-las entender, por exemplo, que se ficassem em silêncio teriam mais chances de encontrar os macacos bugios e, com sorte, quem sabe até o bicho-preguiça. Mas o que isso importava para aqueles pequenos que tinham medo de serem picados por algum bicho e diziam que não podiam sujar a roupa porque levariam bronca da mãe em casa? Sem falar que alguns chegavam a dizer: “ah, tia, já vi esses bichos na TV”.

Eu e a Camila percorríamos as trilhas contando histórias de uma São Paulo distante, que já era abastecida com a água que estava diante de nossos olhos. Enormes tubulações no meio da mata – hoje desativadas – estavam lá como vestígios de uma época em que o parque era distante da cidade e não havia especulação imobiliária.

Para as crianças, no entanto, a parte chata do passeio era ouvir aquelas palavras que, naquela ocasião, precisavam, de alguma forma, seguir um roteiro pré-estabelecido pelos  coordenadores do Programa de Educação Ambiental. Gostoso mesmo para elas - eu sentia - eram as brincadeiras nas áreas de piquenique e a grande bagunça que elas faziam entre elas, independentemente do lugar onde estavam.

Como, então, despertar a atenção e o interesse delas pelas belezas e pelo valor de toda aquela vida que se apresentava radiante para elas, na forma de flores, árvores enormes, pequenos arbustos, liquens e animais? Como deixar para elas uma mensagem de integração e não de exploração da mata?

Com o tempo, fomos percebendo que o discurso não podia ser (eco)chato. Não adiantava nada dizer que não se deve caçar, extrair palmito ou retirar animais silvestres para vender clandestinamente em feiras livres. São palavras inócuas, que não reverberam no coração de ninguém. Talvez seja esse o grande erro de muitos programas de educação ambiental, que tentam convencer pelo discurso, mudar hábitos através de palavras de ordem.

E, assim, durante os meses que se seguiram, sempre íamos embora do parque carregando conosco a pergunta: como tornar aquelas crianças sensíveis à Mata Atlântica? Todos sabem que só restam 7% desse precioso ecossistema. Mas, de novo, esse dado é apenas mais um número em meio a tantos outros que muitos tentam usar para nos fisgar pelo medo e não pelo coração. Pode parecer piegas, mas acredito mesmo nisso: a vontade de cuidar e preservar precisa passar pelo coração.

Não tenho uma fórmula mágica para transformar pessoas em ambientalistas de carteirinha. Mas sinto que falta algo de importante nos projetos socioambientais que tentam minimizar os efeitos do turismo predatório ou reverter os estragos causados pelo “progresso” em áreas de Mata Atlântica.  Do que estou falando? De afeto e de vínculo com o lugar. Se as pessoas moram em apartamentos distantes de áreas verdes, sem contato algum com a mata, como fazê-las sentir afeto pela natureza? Como, se quase tudo de que precisamos no dia-a-dia está (aparentemente) ao alcance das nossas mãos com um simples apertar de botões em casa? Não nos relacionamos mais com a mata. Ela está distante, e cada vez mais distante de nós. Não é mais o nosso lugar. Nosso lugar é o asfalto, o shopping center, o banco do carro, a cadeira na frente do computador. A industrialização transformou madeira em bens, plantas em fonte de riqueza para as farmacêuticas. Ninguém senta numa cadeira e pensa: “puxa, estou sentando num pedaço da Mata Atlântica”. Tudo está tão transformado e beneficiado que mesmo aquilo que contém pedacinhos da mata passa despercebido.

Sinto que o discurso ambiental é, na maioria das vezes, muito restritivo: não pode isso, não pode aquilo, faça assim, faça assado. Uma chatice sem tamanho e sem qualquer prazer. Ou, por outro lado, torna-se tema banal, como é o caso do aquecimento global, que já virou piada de apresentador da previsão do tempo. Por mais que os números e as pesquisas científicas indiquem que é preciso mudar a postura, rápida e radicalmente, pouca coisa salta do discurso para a realidade.

A Mata Atlântica é musa inspiradora de muitos de nós, que namoram sob suas árvores, fotografam estação após estação, tomam banho em suas águas e se divertem em trilhas de aventura. Mas enquanto for apenas isso (entretenimento e visão utilitária), sem um valor em si mesma, ela estará condenada a desaparecer no tempo, no espaço e na nossa identidade –  tal qual a efeméride reservada para ela nesta quarta-feira, dia 27, Dia Nacional da Mata Atlântica...

Foto: Eu e a pequena Julia, filhote de jaguatirica (que estava num centro de reabilitação de animais silvestres), num desses momentos que tocam nosso coração para sempre...






Comentários

28/05/2009 às 22:17
Thiago Benucci - diz:
Seu blog é muito bom mesmo, está de parabéns! Sou um apaixonado pelas ecovilas e cada vez que vejo voce falar algo sobre a ecovila clareando, me da mais vontade de ir lá conhecer, na verdade de ir lá pra morar mesmo :)



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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