Gaiatos e Gaianos
19/05/2009 às 12:49
Como construir uma ecovila?


É claro que eu não tenho todas as respostas para tal pergunta. Mas gostaria de compartilhar com você algumas ideias, informações e possíveis caminhos que fizeram e ainda fazem sentido para várias comunidades intencionais mundo afora. Para quem não conhece essa expressão, comunidade intencional é o nome que se costuma dar para os grupos que se formam em torno de alguma intenção específica, que pode ser uma liderança espiritual, uma atividade comum (cultivar alimentos, praticar yoga, desenvolver as artes ou ser um centro educacional ou de saúde alternativa, por exemplo), enfim, algo que de fato consiga manter as pessoas unidas e inspiradas para viver em comunidade.

Tempos atrás, a Rede Mundial de Ecovilas realizou um estudo para tentar levantar pontos comuns entre as comunidades que estavam prosperando, tomando por base o dado de que apenas 10% das ecovilas que são criadas conseguem, de fato, se sustentar ao longo do tempo, sem se desagregar a ponto de não existir mais.

Duas descobertas chamaram a atenção dos pesquisadores. A primeira diz respeito à posse da terra. Todas as ecovilas que conseguiram prosperar mostraram ter clareza sobre esse ponto: souberam resolver legalmente essa questão, garantindo transparência ao processo. Por quê? Ora, muitas ecovilas surgem quando um grupo de pessoas resolve “juntar os trapos”, certo? E isso, muitas vezes, ocorre numa terra que pertence a uma única pessoa ou a um grupo restrito de integrantes dessa ecovila. Resultado: não raras vezes, os donos da terra desistem do projeto, ou porque não se adaptaram ou porque sofreram algum trauma na família (separação, morte, falência etc.). Se a terra não é de todos ou não tem uma garantia legal de uso para aqueles que vivem nela, as chances de dar algo errado no meio do caminho são enormes.

Outro dado interessante da pesquisa refere-se aos acordos internos que precisam ser estabelecidos entre os integrantes da ecovila. De novo, as comunidades que conseguiram transpor obstáculos e permanecer firmes no propósito têm acordos claros e transparentes, uma espécie de regulamento interno. E não adianta ter só o documento. Ele precisa ser resultado de um processo árduo de discussões e reflexões acerca do que se quer para a ecovila. Precisa ser algo com o qual todos possam se identificar, se inspirar e se fortalecer nos momentos de crise.

É nesse documento que estão, por exemplo, regras para ingressar na comunidade e sair dela, regras para a tomada de decisões (por consenso, maioria, comissões autônomas etc.), regras para a construção de casas, e por aí vai. Quando se tem clareza sobre como as coisas funcionam na comunidade, tudo mais fácil – ou menos difícil.

Na Ecovila Clareando, estamos justamente nesse processo. Ainda no início, temos discutido questões que andam aparecendo no dia-a-dia, tentando definir maneiras de evitar conflitos e de resolvê-los da melhor forma possível, com amorosidade e confiança no grupo.

Lá, a terra é dividida em 3 grandes áreas: lotes privados, áreas comunitárias e áreas de reflorestamento. Nas áreas privadas, que são os lotes, as famílias têm autonomia, é claro, mas devem respeitar um conjunto de regras na hora de construir, que compõem o contrato de compra do lote. É uma forma de garantir parâmetros mínimos e de evitar que se tenha na ecovila casas pouco alinhadas com princípios que nos são caros e essenciais, como o tratamento do esgoto, a captação da água de chuva, o aquecimento solar de água e a inexistência de muros.

Muita gente imagina que uma ecovila é um lugar cheio de tecnologias alternativas e ponto. De fato, elas estão presentes. Mas o grande desafio não é técnico. Já existem tecnologias ecológicas o suficiente para construir um laboratório de vida sustentável em qualquer canto do mundo. Acontece que quem vai morar lá não são máquinas. E aí, é aquela velha história: bastam duas pessoas para que a convivência entre elas seja desafiante.

Em outras palavras, construir uma ecovila física, com casas ecológicas, hortas belíssimas e centros comunitários é o menor dos desafios. A aventura é botar gente nessa história e ter habilidade, paciência e respeito às diversidades (e adversidades). Aí, sim, mora o desafio enriquecedor. Não há fórmulas prontas nem receitas milagrosas. Talvez por isso mesmo seja algo tão inspirador, construído devagarinho, tijolo por tijolo, dia após dia...

Foto: detalhe da maquete da ecovila, que aos poucos começa a 'pousar' na realidade...






Comentários

26/05/2009 às 15:04
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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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