Gaiatos e Gaianos
12/05/2009 às 08:38
O que fazer com a madeira que sobrou?


Junho de 2007, um mês antes do início da obra. Foi nessa data que compramos toda a madeira para a estrutura da casa na ecovila - eucalipto de um reflorestamento da região. Diz a sabedoria popular (e todo bom bioconstrutor) que madeira boa é madeira cortada nos meses sem “r”, ou seja, de maio a agosto, período mais seco do ano. Ah, sim, e sempre na lua minguante. Crendice? Que nada. Até os cientistas já se curvaram diante da caboclada. Na lua minguante, boa parte da seiva das plantas fica concentrada na raiz. Por isso, a planta fica com menos amido e atrai menos insetos que podem comprometer a madeira.

Todo o esqueleto da casa (incluindo o telhado verde) foi erguido com essa madeira. Depois de tudo pronto, sobrou uma pequena parte de toras de espessura menor. E, claro, seguindo o princípio de reaproveitar tudo, inventar e usar a criatividade, descobrimos uma técnica bastante utilizada na Europa e nos EUA: o cord wood.

A foto acima (que é só um exemplo do que se pode fazer) fala por si, mas vou explicar como é que a coisa funciona. A primeira tarefa a fazer é cortar as toras de madeira como quem fatia uma cenoura em rodelas. Mas não são rodelas fininhas. Cada pedaço deve ter, no mínimo, 20 cm de comprimento. Se a parede for estrutural, o ideal é aumentar esse número para, pelo menos, 40 cm. Aqui no Brasil, alguns permacultores e bioconstrutores já experimentaram a técnica e até chegaram a batizá-la com um nome bem sugestivo: parede de toquinhos.

Porque, no fim, é isso mesmo. Uma parede feita de tocos de madeira, exatamente o material que temos de sobra na nossa obra. Bingo! Quer mais motivos para testarmos o tal cord wood? Tudo bem: é fácil de fazer, não precisaremos contratar mão-de-obra e a parede ainda fica muito bonita. Sem falar que a madeira é ótima para o clima frio da região...

Para montar uma parede assim é preciso preparar uma massa especial, que leva serragem (fermentada de um dia para outro em água), areia, cal e um pouquinho (pouco mesmo) de cimento. A gororoba fica com bastante plasticidade, gostosa de modelar. Preparada a massa, é hora de subir os tocos. Um pouco de massa, um toco, outro pouco de massa, mais um toco. A distância entre eles depende do gosto de cada um e da aparência final que se queira dar. E é isso. Simples, não?

As paredes de cord wood podem receber janelas, portas e elementos decorativos, como garrafas coloridas, pedrinhas, pequenas peças cerâmicas etc. E, como tudo na bioconstrução, duas paredes de cord wood, totalmente artesanais, jamais são iguais. O jeito, então, é assumir a exclusividade das estruturas, usar a criatividade e se divertir durante a montagem do “mosaico”. É isso que vou fazer daqui a algumas semanas.  Depois, volto aqui para contar a experiência...

(Essa é só mais uma das muitas técnicas que já utilizamos na minha casa. O cord wood vai dividir espaço com paredes de adobe, de pau-a-pique, de garrafas de vidro, de tijolo de solo-cimento, de COB, de pedra do pasto do vizinho, de ferro-cimento...)





Comentários

13/05/2009 às 10:07
pedro - diz:
A casa tá ficando linda. Parabéns.

13/05/2009 às 14:07
olivia - diz:
vai ficar muito bonito mesmo o resultado final. E o melhor, aproveitando-se o que se tem. Aqui em casa, mesmo não sendo bioconstrução, o que se aproveitou o que já tinha é impressionante. Isso sempre prova q o consumo excessivo é apenas isso: excessivo.depois deixe fotos pra gente ver como ficou.

15/05/2009 às 12:59
Giuliana - diz:
Obrigada, Pedro e Olivia. É isso aí, Olivia, concordo contigo sobre essa história do consumo excessivo! Quando a parede estiver pronta, publico fotos para vocês. Um abraço, até breve!

19/05/2009 às 17:58
Thiago - diz:
Nossa! to impressionado, muito bacana a casa, parabéns! dê uma ajudinha para o meu blog que chama MINAS AMBIENTE,www.malmg.blogspot.comObrigado!

05/06/2009 às 10:31
carla - diz:
Olá, gostaria de ter algumas informações sobre o que fazer com a serragem/maravalha, enfim restos de MDF de uma industria, que a principio são queimados, quase que diariamente. O que poderiamos fazer, estamos em uma cidade pequena, na regiao nao tem mobilização para reaproveitamentos e tal. Será que poderiam me ajudar.Ficarei grata



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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