Gaiatos e Gaianos
28/04/2009 às 17:55
Frio na barriga...


Nem sei bem como começar este post. É que quero fazer um desabafo sobre minha mudança para a ecovila, prevista para o fim do ano, quando a casa deverá estar pronta. Para quem não acompanha a história aqui no blog, explico: estou construindo minha futura morada (minha e do meu companheiro-marido) na ecovila Clareando, que fica em Piracaia, a 100 km de São Paulo. A comunidade ainda está em formação e, por enquanto, apenas 5 famílias moram realmente na terra. Os demais integrantes frequentam o lugar nos fins de semana, algumas para acompanhar a obra de suas casas, e outras, ainda sem previsão de construir, simplesmente para namorar o terreno, participar de mutirões e partilhar bons momentos entre amigos.

Bom, o desabafo, na verdade, foi sugestão de uma amiga. Na semana passada, encontrei a Mônica, editora aqui do Planeta Sustentável, e ela me perguntou sobre a casa, como está a obra, quais são os meus planos, enfim. E, naquele momento, confessei a ela que a proximidade da coisa estava me dando um frio enorme na barriga. E ela me disse: “por que você não escreve sobre isso?” Socorro...

Sabe quando a gente tem um sonho que parece impossível, mas que, aos poucos, vai se assentando na realidade e, quando está a um passo de virar algo concreto a gente não acredita muito, não sente “a ficha cair”? Ou, então, quando uma criança passa meses pedindo um brinquedo e quando finalmente ganha não sabe o que fazer com ele? Acho que estou mais ou menos assim... De repente, mas não tão de repente assim, tudo o que eu planejei está prestes a acontecer de verdade! E agora?! O que eu faço?!?

Nos últimos dias, tenho feito uma volta ao passado, percorrendo mentalmente o caminho que trilhei até chegar aqui e agora. Lembrei-me de quando abandonei um bom emprego numa emissora de tv porque não estava satisfeita com o trabalho excessivo e a falta de tempo para mim. Isso foi em 2001, ano sabático em que descobri a meditação, a Chapada dos Veadeiros, fiz um curso técnico de Guarda-Parque (por essa você não esperava, hein!) e passei alguns meses trabalhando com educação ambiental nos parques da Serra do Mar e da Cantareira.

Não queria mais saber de jornalismo. Mas aí, adivinhe: o dinheiro acabou e tive que voltar a trabalhar... Só que desta vez eu queria escrever sobre meio ambiente. Mas como fazer isso? Bom, resumindo o resumo da história, de pouquinho em pouquinho acabei conseguindo espaço em algumas revistas (e aqui também).

Nesse período, estudei e li muito sobre o assunto. Não por obrigação, mas porque essas descobertas me davam um prazer imenso. Foi assim que caí na rede das ecovilas e da permacultura. E ainda tive a sorte de ter ao meu lado um companheiro que gostou da coisa e topou iniciar uma virada – e das grandes - em nossas vidas...

Em 2006, compramos o lote na ecovila Clareando e começamos a nos preparar para trocar São Paulo por uma vida rural, no meio do mato, plantando, cuidando da terra e dos vizinhos amigos. Bucólico demais? Talvez. Mas sempre tive o discurso de que a gente pode conseguir tudo nessa vida. Basta querer o suficiente para transformar o desejo em ação, nem que seja em passinhos pequenos, vagarosos, sem data para chegar ao destino, mas com paciência e persistência.

Pois agora estou a poucos meses de realizar isso tudo, que, na verdade, será o fim de um grande ciclo e início de outro ainda maior. Deve vir daí o frio na barriga: o início de algo que não sei bem como vai ser. Até evito ficar fantasiando o futuro, imaginando dias tranquilos e cheios de paz na ecovila. Sei que não será um mar de rosas ou um paraíso na Terra.
Estou decidida, porém, a fazer a mudança, a dar esse salto no escuro. Mas, como ninguém é de ferro, sinto, sim, um enorme frio na barriga, desses que a gente sente quando está a meio segundo da descida da montanha-russa.

O que me provoca esse medo não é exatamente o que eu vou deixar para trás. Nesse ponto, venho treinando o desapego, tentando administrar a saudade precoce que já sinto de algumas pessoas queridas que passarei a ver com menos freqüência, e da casa onde moro hoje, de que também gosto bastante. Não. Não é isso que me aflige. Na verdade é o imprevisível que me dá calafrios. O que ainda está por vir.

Construir uma vida diferente, em comunidade, não tem receita pronta para seguir. Ninguém sabe se vai dar certo ou não. Aliás, o que é dar certo? Talvez ninguém saiba também. Eu, pelo menos, ainda não sei.
Não tenho respostas prontas para quase nada do que me perguntam. Mas, ao mesmo tempo, também não me sinto cometendo nenhuma insanidade. Intuitivamente, sei que estou no melhor caminho que eu poderia escolher para mim. Sim, eu disse ‘escolher’. Porque, no fim, é mais uma dessas escolhas que a vida nos pede para fazer a todo instante, uma após a outra.

E já que escolhi subir no trem da montanha-russa e estou quase no ponto mais alto dela, o melhor a fazer é erguer os braços, soltar a voz, confiar que vai dar tudo certo e aproveitar cada milésimo de segundo. Assim, ainda que lá na frente eu queira mudar o trajeto, terei guardado no peito uma experiência prazerosa e inesquecível.






Comentários

29/04/2009 às 09:28
Lívia Corazza Nogueira - diz:
Olá, Giuliana! Tudo bem? Enquanto eu lia este post, pensava em comentá-lo justamente com o que escreveu em seu último parágrafo. Deve ser difícil conseguir te dar algum conselho, rs. Você é muito, mas muito sábia. Você nos remete ao equilíbrio, de um modo geral e exatamente por ser uma pessoa que demonstra esses sentimentos, puramente humanos, de "frio na barriga" diante de um passo tão marcante como o que está dando em sua vida. Pelo o que parece, lendo os seus posts, tudo o que fez até agora na Ecovila foi com muito planejamento. Tente não pensar na imprevisibilidade, pois as coisas estão fluindo muito bem, a meu ver. Nem sempre estamos preparados para mudanças, mas acho que nesse sentido elas serão mais do que positivas e pode ter certeza que de algum jeito é "tudo" reversível (na melhor das hipóteses). Fique (ou melhor, permaneça) tranqüila. Você sabe melhor do que ninguém que a sua mudança reverterá numa série de outras mudanças boas, na mesma medida em que serão importantes, para o mundo. Um grande abraço!

29/04/2009 às 14:58
Vivi - diz:
Tenho acompanho seus post e assim, um pouco da sua história. Há algum tempo, um homem sábio me disse umas coisas que mudaram minha forma de ver a vida e espero que te ajudem a gora:1: " Não existe certo ou errado, existe o que é o melhor para vc. E esse melhor varia de acordo com o momento."2: "O Universo não desperdiça energia. Tudo o que acontece atende a um própósito maior. "Diante disso, perceba-se fazendo parte de algo que é maior que vc. Confie e deixe fluir. Muita luz no seu caminho,Vivi (vivibcm@gmail.com)

30/04/2009 às 11:06
Giuliana - diz:
Oi, Vivi, oi, Lívia, vocês não imaginam o quanto foi gostoso ler as palavras que deixaram aqui. Obrigada pela atenção tão gentil! Sinto que algumas vezes reluto em escrever sobre dificuldades aqui no blog, até porque, sempre que consigo, procuro vê-las como chances de crescer e compreender mais e mais as coisas da vida. Mas, agora, percebo que foi bom dividir o tal frio na barriga com leitoras como vocês, que sabem ouvir e sentir o outro. Muito grata, um abraço grande.

01/05/2009 às 01:16
Mariah - diz:
Giuliana, como está? Sempre leio seus posts e sabe por que? Porque há neles verdade e simplicidade que podem ser sentidas em cada palavra. Há pessoas que têm uma história pra contar e outra no coração, definitivamente, essa não é você. Por isso, pode escrever depois de tanto tempo que se prepara e "nos prepara" para a mudança pra ecovila (porque todo leitor do gaiatos e gaianos vai mudar pra ecovila com vc) que pensar nessa mudança como algo próximo e real traz "friozinho na barriga". Acredito, na minha pequena sabedoria, que no "mundo novo" vai viver dias de saudades da velha vida, da velha casa,dos velhos hábitos... Noites de dificuldades que cada amanhecer ajudará a "clarear". Abraços, querida!

05/05/2009 às 14:12
Ana Dreyer - diz:
Giuliana,Costumo pensar que para irmos para frente, se você está vivendo o seu sonho, é hora de criar um melhor ainda.E você é capaz disso e muito mais.Parabéns!!

05/05/2009 às 15:57
Giuliana - diz:
Oi, Ana, oi, Mariah, muito obrigada pelo "ombro" amigo. Engraçado, mas mesmo não conhecendo vocês pessoalmente, sinto uma ligação gostosa e muito saudável, que me anima a seguir adiante e a compartilhar com vocês momentos bons e outros nem tão bons assim. Obrigada, de coração. Um abraço dos grandes.

15/05/2009 às 16:50
Flávia - diz:
Oi GiuLendo seu post voltei no tempo uns 5 anos e me lembrei da grande mudança que fiz na minha vida, dos meus medos e expectativas. Não dá para fugir desses sentimentos né? . Mudanças são sempre profundas, mexem com nossa zona de conforto e muitas vezes achamos que não vamos dar conta de tanta bagunça em nossas vidas certinhas, mas quando passa o impacto inicial, a sensação de saber que podemos mudar quantas vezes quisermos é maravilhosa.O que posso te dizer é que não fico mais pensando em como vai ser daqui 3 anos, faço planos é claro, mas vou vivendo e conquistando cada umNão precisa se pressionar com prazos, se achar que não ta pronta, muda aos poucos, nada é definitivo lembra? Faça ser bom para vc, assim continuará valendo a pena esse sonho tão corajoso! Abraços!!

01/06/2009 às 12:43
Isadora - diz:
Oi Giuliana, não sei se vc se lembra, mas ontem estive com vcs lá na Clareando, na sua casa (eu, minha mãe, meu namorado, e nosso amigo Celso) ...e hoje olhando os e-mais da Nazaré Uniluz encontrei o seu blog! Fiquei muito feliz e admirada com tudo que eu li. Então primeiramente parabéns pelos seus textos, pela beleza e luz que eles transmitem, compartilho com vc este friozinho na barriga e desejo a vcs muita luz nesta nova etapa, e com certeza tudo vai dar certo, acredito sim, que este é um caminho verdadeiro, conectado, e que trará a vcs mta felicidade! Adorei..."Dona-de-casa,eu?", "O segredo da abóbora-mágica","Guarda-roupa comunitário", etc. Você é ótima, parabéns!!! Bem, eu disse que compartilho com vc o friozinho na barriga, pq me formei em Eng. Ambiental na UNESP no ano passado, e diferente da maioria estou buscando um caminho diferente, no qual eu busco viver aquilo que eu acredito, tb estou aprendendo a costurar, a cozinhar pratos naturais, estou fazendo um curso de agricultura orgânica,fiz um de construção ecológica no Tibá, faço yoga a 2 anos, toco violão, virei vegetariana a 1 ano mais ou menos, aderi aos absorventes ecológicos, faço compostagem, troquei o carro por andar a pé ou de bicicleta, e tb vislumbro meu futuro no meio do mato! Por esses motivos tb me preocupo em como vou me sustentar financeiramente morando afastada do centro urbano, meu namorado tb está conectado com essas idéias, e isso ajuda muito, me alegro muito ao ver o seu blog com essa força e essa luz, me anima, fortalece, vamos compartilhar experiências, ... tenha em mim uma amiga! Parabéns! Tudo de bom!Abraço! Isa

07/06/2009 às 15:52
Franciely Tsuchiya - diz:
Oi Giu (deixa a intimidade por minha parte, hehe).Olha, eu preciso muito falar contigo, entrar em contato contigo, pois veja bem, eu moro no Japão (ainda) mas em agosto estarei indo para o Brasil, morar na serra de Piraquara que fica 40 minutos da cidade de Curitiba (foi a melhor maneira que encontrei de viver até realizar meu sonho). Mas meu sonho é fazer como vc, e a Clareando me conquistou tbm, e de diversas formas. Inclusive o Hiroshi é descendente de japa, né?! heheE é por isso que eu gostaria de falar contigo, saber muitos detalhes (pq infelizmente ainda nw tive tempo de ler tudo aqui, devido meus trabalhos corridos) e tbm pq me identifico com suas escritas. Quem sabe poder visitar aí, ver como vc começou... seria possível? rsss Enfim... há muito pra te falar...Se puder e qndo puder, por favor me escreva, ok?!BeijokasFran

10/07/2009 às 15:03
Giuliana - diz:
Oi, Franciely, Isa e Flávia, bom ler os comentários de vocês. Isadora, adorei saber que temos muitas coisas em comum. É claro que eu me lembro de você! E fiquei feliz em poder recebê-la na minha casa, mesmo sem ter condições de oferecer um chazinho ou cafezinho, ao menos por enquanto...Mas em breve você será minha convidada especial. Quero, sim, trocar experiências e histórias com você. Assim, crescemos juntas, uma inspirando a outra. Muito grata pelas gentilezas, e um abraço de amiga.Flávia, agradeço pela força e dicas importantes. Abraço para você também. Franciely, fiquei curiosa para saber sobre sua sua história. Entrarei em contato contigo e ficarei feliz se puder ajudá-la nesse processo de retorno ao Brasil. Grande abraço!



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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