
A casa, de cerca de 80 m², tem o formato de um hexágono, dividido em dois quartos, sala e cozinha (integrados) e banheiro. Tem, por enquanto, estrutura e assoalho de madeira de reflorestamento da região e telhado de telha cerâmica. Desde o início, a Associação de Moradores da Ecovila definiu que o fechamento das paredes seria feito em mutirão, de preferência de pau-a-pique. Mas a obra atrasou, o tempo voou, as chuvas chegaram e tivemos que mudar de plano. A trama de bambu coberta com terra foi substituída pelo tijolo de solo-cimento, opção mais rápida, que garantiria proteção às madeiras e não impediria o trabalho comunitário.
Como já escrevi em outros momentos, os mutirões são oportunidades deliciosas de convívio e aprendizado em grupo. E numa ecovila, dão sentido e força a um espírito mais solidário. É quando todo mundo põe a mão na massa em nome de um sonho. E, tijolo por tijolo, deixa um pouquinho mais próximo o desejo de uma vida simples cheia de significados.
Muitas das técnicas construtivas ecológicas funcionam melhor em grupo. E com o tijolo de solo-cimento não é diferente. Esse tipo de tijolo leva 95% de terra e 5% de cimento. A mistura não vai ao forno (ela é apenas prensada numa máquina) e, por isso, não consome energia como o tijolo de barro convencional. Além disso, cada peça tem dois furos que garantem mais conforto térmico e acústico à construção, e pequenos encaixes facilitam a mão-de-obra. Resultado: é fácil e rápido de manusear. Prova disso é que até a pequena Luciana, filha do casal Meire e Kunio, participou do mutirão – entre um desenho e outro, uma brincadeira aqui e acolá...
Não cheguei a contar, mas acredito que estávamos em cerca de dez ou doze pessoas. Uns ajudavam a limpar os tijolos, outros iam subindo as paredes, outros ainda faziam a amarração e tinha ainda quem checava o nível e o prumo das fieiras. O Silvan, futuro morador da casa, estava empenhadíssimo. Era gostoso sentir a alegria dele!
Em grupo, o trabalho não fica pesado. Ao contrário, é muito divertido. Fora que tem sempre alguém que traz um cafezinho com bolo, uma água fresquinha ou um suco de uva (né, Luciene?), para relaxar e dar o pretexto perfeito para uma pausa revigorante.
Passamos o dia todo trabalhando. Levantamos algumas paredes, não por inteiro ainda, mas já deu para notar uma boa diferença. Mais um ou dois fins de semana e terminamos essa etapa.
Toda vez é a mesma coisa. Ao final, todos se sentem animados e felizes. Até porque ninguém ali é construtor ou tem experiência na coisa - e saber que mesmo assim é possível erguer uma casa bonita e segura aumenta a auto-estima e a confiança de qualquer um. É como se, de repente, cada um descobrisse uma habilidade nova, desconhecida, inexplorada.
Para ajudar, o dia estava lindo, com um céu azul maravilhoso. E era também dia de piquenique, ocasião em que recebemos visitantes interessados em conhecer a ecovila e, quem sabe, comprar um lote e entrar para a comunidade. Dia de piquenique é dia de dividir nossos planos com outras pessoas, falar de projetos, desejos, intenções, desafios. É dia, também, de responder perguntas (você vai morar aqui ou pretende vir só de fim de semana? E o trabalho, como vai ser? E as crianças, onde vão estudar? Vocês pensam em produzir alimentos aqui? Tem água o bastante para todos? Não é muito longe da cidade?).
Algumas dessas perguntas já têm respostas. Outras ainda dependem da nossa caminhada. Mas todas, sem distinção, têm o dom de nos fazer pensar sobre o que estamos construindo ali (especialmente nessa época de outono, que costuma ser mais introspectiva, de recolhimento e reflexão). E é muito bom sentir que essa construção é coletiva, feita a muitas mãos, de um jeito orgânico, sem pressa e com muito carinho. Quem já trabalhou em mutirão certamente sabe do que estou falando...