Gaiatos e Gaianos
07/04/2009 às 08:00
Sua casa pode ser uma ecovila


Quem disse que você precisa mudar de casa para viver numa ecovila? Que tal transformar a sua casa num lugar cheio de boas práticas ecológicas e de vizinhos e amigos que vão enriquecer ainda mais essa experiência? Sabe, às vezes fico pensando nessa minha história de mudar de cidade, de casa, de trabalho. Sempre me preocupa um pouco saber que o caminho que estou trilhando não pode ser feito por muita gente que até gostaria de largar tudo e mudar radicalmente de vida. Para essas pessoas, uma série de senões aparece quando se pensa nisso: a carreira, a educação dos filhos, o dinheiro para a construção da casa nova, o marido ou esposa que nem sempre topa essa virada, os pais ou outra pessoa querida que anda precisando de cuidados, a preocupação com o sustento no novo lugar, enfim.

Então, resolvi escrever hoje para quem não quer ou não tem condições no momento de mudar completamente, mas deseja muito incorporar hábitos e práticas mais ecológicas em seu dia-a-dia. A primeira coisa bacana de perceber é que as mudanças ocorrem de dentro para fora. É você que muda primeiro e que, em seguida, começa a transformar o mundo à sua volta. Se sua casa ainda não é lá muito sustentável, talvez você ainda não tenha despertado para isso – ou não saiba muito bem por onde começar.

Tudo é um processo e cada passo, por menor que pareça, faz toda a diferença. Já dizia o escritor uruguaio Eduardo Galeano: "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Por isso, vamos à caminhada! Ah, sim, e se você tiver companhia na trajetória, vai ver como tudo ficará mais fácil e gostoso.

Aqui no blog, já li diversas vezes relatos de pessoas que estão adotando hábitos mais ecológicos, e por diferentes motivos. Uns querem cuidar mais do planeta, outros estão em busca de uma vida mais tranquila e saudável; há quem pense nos filhos e netos, sem falar dos jovens curiosos, dos voluntários em ONGs e do pessoal experiente que, depois de “grande” quer tornar o cotidiano mais cheio de sentido. Não importa a inspiração, e sim a vontade de transmutar desejos ou insatisfação em ação concreta.

Em linhas gerais, uma ecovila é um lugar onde as pessoas procuram viver respeitando e honrando os ciclos da natureza, interferindo apenas e muito criteriosamente quando julgam que seus impactos serão benéficos e não prejudiciais. Além disso, nesse tipo de comunidade, as pessoas se relacionam de forma solidária, sempre buscando o bem-estar próprio e também do outro. O cuidado com a terra, a água, o ar, os animais e as plantas é fundamental. As trocas de produtos caseiros e artesanais e também de saberes e habilidades é uma prática sempre muito bem-vinda. Notou como isso tudo pode – e, aliás, deveria – estar em qualquer lugar?

Eureca! É isso mesmo! Se você não pode ir morar numa ecovila, traga a ecovila até você! Comece pela sua casa. Coloque no papel algumas ideias. Avalie que tipo de mudança você pode fazer nela. Se você tem um pequeno jardim, que tal plantar algumas espécies comestíveis nele? Mesmo com pouco espaço é possível fazer uma horta vertical com maracujá, pepino, chuchu, abóbora, ou canteiros com ervas e temperos para usar na cozinha. Se estás disposta(o) a dar um passo mais largo, que tal transformar o telhado numa horta ou jardim? Outra possibilidade: se você mora em prédio, que tal convencer alguns moradores a cultivar uma horta comunitária?

Pense também no uso da água. Será que você teria como armazenar a água que escorre pelas calhas do seu telhado e usá-la para lavar o quintal, o carro ou até mesmo as roupas? Será que seu banho pode ser um pouco mais rápido? E que tal economizar na hora de lavar a louça?

Agora pare para avaliar seus hábitos de consumo. Adote as sacolas de pano para as compras, evite produtos superembalados e prefira alimentos naturais, não industrializados. Cuidar da saúde passa pela alimentação. Por isso, descubra a feira mais próxima da sua casa e compre produtos frescos, de preferência orgânicos. Outra coisa: será que você já não tem roupas demais? Que tal doar algumas peças encalhadas no armário há anos?

Repense também sua forma de se locomover na cidade. Se você usa muito o carro, talvez possa organizar um esquema de carona com os vizinhos. Sempre que possível, prefira o transporte público, a bicicleta e as caminhadas.

Ah, sim, não esqueça de fazer uma avaliação do seu lixo. Por que tantas garrafas de água de meio litro? Não seria melhor comprar embalagens maiores? E aquelas bandejas de isopor? Será que não dá para comprar frutas que não venham embaladas assim? E os restos de comida? Será possível evitar o desperdício e diminuir a quantidade de alimentos jogados no lixo? E mais: que tal fazer uma composteira em casa?

Agora sim, vamos falar de terceiros. Que tal organizar os vizinhos numa rede de troca de saberes? Quem sabe você não descobre que sua vizinha faz pães deliciosos, seu vizinho é ótimo marceneiro e a síndica do prédio é costureira de mão cheia? Peça a permissão deles para organizar as informações num mural e deixe num local bem visível, para que todos tenham acesso. Aí, é só esperar que a comunicação dê conta do resto. Se você se interessou pelos pães da vizinha, converse com ela para saber se você não poderia trocar por algo que você sabe fazer bem. No começo pode parecer esquisito, mas com o tempo as trocas ocorrem com mais facilidade e todos ficam satisfeitos e até com uma melhor auto-estima. Sem falar que isso reduz a sensação de estar sozinho no mundo...
 
Eu poderia ficar aqui ad infinitum escrevendo mil e uma ideias. Mas o post já se estendeu bastante...E tenho certeza de que você também tem outras mil sugestões e histórias para compartilhar. Então, que tal começar por uma delas?






Comentários

07/04/2009 às 11:12
Danila - diz:
Caros Colegas,Somos o Cine-clube Socioambiental Crisantempo.Um espaço cultural multimídia na Vila Madalena, em São Paulo, que agora incorpora em seu programa atividades socioambientais, com a finalidade de contribuir para a tomada de consciência sobre os problemas ambientais no Brasil e no mundo. Promovemos exibições semanais gratuitas de filmes ligados a questões socioambientais e correlatas, assim como palestras e campanhas.Gostaríamos de enviar nosso flyer de divulgação, assim como, a programação que tem ínicio nesta quarta-feira, dia 8 de abril, para que vocês e os leitores participem, assistindo aos filmes com a temática! Qual o e-mail que posso enviar?obrigada,DanilaProdução CineClube Socioambiental Crisantempowww.cineclubesocioambiental.com.br

08/04/2009 às 21:10
Jorge - diz:
Oi, Giuliana, tudo bem!Que texto maravilhoso, dá vontade de reler e reler... Com certeza ñ basta ser "ecovileiro" tem que participar. Você, mais uma vez, deu uma aula e tanto. E falando em aula, no texto anterior vc comentou sobre a parede de solo-cimento, gostaria de saber o resultado da resina que foi aplicada (qdo. tive o prazer de estar c/vocês), o acabamento ficou fosco ou brilhante? E a argamassa à base de terra, a cor aplicada clareou muito? Bonito sei que ficou!!! Parabéns mais uma vez. Ecoabraço.

13/04/2009 às 19:23
Geraldo Cavalcanti - diz:
Giuliana, sou tradutor / intérprete e produtor de eventos. Tenho 46 anos e moro no Rio. Tenho um sítio na região serrana e durante seis anos morei nele e tentei interessar meus vizinhos e moradores da região em adotarem soluções como biodigestores, aquecimento solar e hortas orgânicas. Hoje sei que minha abordagem foi toda errada. Eu quis "forçar" as pessoas a adotarem projetos "de fora".Isso foi há cinco anos e agora quero me dedicar novamente a projetos que envolvam eco-construção e geração de energia renovável. Venho lhe pedir uma orientação, se possível, pois gostaria de entrar em contato com pessoas, organizações e outros agentes para me informar, educar e preparar e para quem possa oferecer meu trabalho também.Ficarei imensamente grato por qualquer orientação que puder me dar e por qualquer contato.Atenciosamente,Geraldo Cavalcanti

14/04/2009 às 11:36
Maartje Backx - diz:
Muito oportuno o texto, especialmente para mim, pois tenho um sítio e quero reformá-lo, adaptando-o para uma casa viva. Gostaria de receber idéias, projetos, sugestões, pois sei que se pode aproveitar até a água da lavagem de louça e da descarga dos banheiros.Agradeço antecipadamente, espero notícias! Saudações ecológicas, Maik.

21/04/2009 às 02:31
Mariel - diz:
Lindo post, emocionante! :)

23/04/2009 às 11:30
Giuliana - diz:
Olá, pessoal, obrigada pelos comentários. Demorei para responder porque o tempo anda correndo muito ultimamente... Mas cá estou para tentar dar umas dicas ao Geraldo e Maik. Tem muito material bacana que vocês podem consultar. Mas acho que a Rede Permear (www.permear.org.br), de permacultura, é uma boa fonte incial, porque reúne pessoas e técnicas muito abrangentes, que envolvem toda a casa e a propriedade. O IPEC (www.ecocentro.org) é outra boa fonte de pesquisa, assim como os demais institutos de permacultura do Brasil. Sugiro que comecem por aí e, com o tempo, vamos trocando outras ideias e sugestões. Mais importante do que a quantidade de informação é saber filtrar e adaptar a informação para a sua necessidade, certo? Contem-me se as dicas foram boas. Se precisarem de algo mais, estarei sempre por aqui. Jorge, grata pelo carinho de sempre. A resina ficou um pouco brilhante e a parece vermelha não clareou muito, não (ficou linda mesmo). Grande abraço a todos. Mariel, beijão pra vc.

17/05/2009 às 22:49
Paulo Messias - diz:
Olá Giuliana, tudo bem !!!Parabéns pelo texto, super 10.Poxa, sou morador de uma Ecovila e nem sabia !!!Trabalho com reciclagem orgânica e industrial, sou Artista e desenvolvo produtos a partir destes materiais. Para maior conhecimento do meu trabalho acessem www.arumafibras.comSem contar que tenho minha composteira, reutilizo a água da maquina de lavar, horta com ervas medicinais, confeccionei minhas sacolas para ir ao supermercado, levo e busco minha filha na escola de bicicleta. Enfim diversas atitudes ecopráticas, que fazem a diferença no dia-a-dia em minha vida. Fiquei super contente em achar este post na Net. Grande abraço a todos. Té



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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