Celebrar ajuda a enfrentar problemas

Imagine que você esteja pensando em deixar o trabalho estressante, a cidade grande, o trânsito caótico e a falta de tempo para trás. Algumas famílias se unem a você com o mesmo desejo e, juntos, vocês resolvem criar uma comunidade sustentável na zona rural de uma cidadezinha do interior. Imaginou? Agora pare um instante e pense em como seria essa comunidade. Que tipo de casas você gostaria de ver por lá? Como seria a convivência entre as famílias e a integração com a natureza? E as atividades coletivas? O que seria o ganha-pão das famílias? E mais: o que, de fato, poderia manter os moradores motivados, mesmo diante dos problemas do dia-a-dia?
Se você conseguiu fazer esse breve exercício de visualização, deve ter sentido que não se trata de uma tarefa simples. Todos terão MUITO trabalho pela frente até que o sonho comece a pousar na tal terra comunitária. Mesmo quando todos parecem caminhar na mesma direção, basta o grupo ter que começar a tomar decisões para que a diversidade de pessoas, opiniões, saberes e visões de mundo – tão importante para a saúde e sustentabilidade de uma comunidade – transforme-se em diferenças enormes e, num primeiro momento, intransponíveis.
Na Ecovila Clareando, toda família que compra um lote na área para construção de casas passa a ter acesso à lista de discussão via internet da associação de moradores. Muita coisa acontece nesse espaço virtual, especialmente durante a semana, quando a maioria dos integrantes, por enquanto, está fora da ecovila. Todos os avisos de atividades na Clareando passam por ali: mutirão no próximo sábado, piquenique no domingo, condições da estrada depois da chuva, a ata das reuniões mensais, os novos integrantes ou desistentes, doação de material de construção, prestação de contas da tesouraria etc. Sem falar nas mensagens interessantes, dicas de livros, filmes, palestras e eventos e, claro, nas picuinhas-inevitáveis-de-todo-santo-dia (que, na maioria das vezes, não passam de interpretações equivocadas de uma ou outra mensagem...)
Acho que as primeiras fichas que caem quando se começa a construção de uma comunidade são as seguintes: nem tudo será perfeito, ninguém vai morar no paraíso, somos todos passíveis de erros e precisamos aprender a conviver e cultivar a diversidade. É incrível observar as ondas de emoções que passam pela comunidade. No fim do ano, estávamos a mil, cheios de projetos, esperança, motivação. Ainda estava no ar um entusiasmo gostoso que vinha do fim de novembro, quando tivemos nosso II Encontro da Visão (imersão de um fim de semana que realizamos duas vezes ao ano para discutir estratégias de desenvolvimento da ecovila e aprofundar nossos laços afetivos). Depois, tivemos um reveillon delicioso e os primeiros dias de janeiro com muita prosa, planos e polenta no café da manhã.
Mas eis que começaram as chuvas torrenciais. A estrada para a ecovila ficou péssima e, em alguns dias, nem carros 4x4 conseguiam passar. As pessoas foram ficando descontentes, desestimuladas, apáticas. Poucas pessoas se aventuraram a visitar a ecovila. E foi preciso discutir o que fazer, como falar com a prefeitura e a prefeita, o que pedir, como nos organizaríamos, como conversaríamos com os vizinhos (também afetados), e daí por diante.
Choveram e-mails na lista do grupo. Cada um tinha um plano, uma opinião, uma queixa. Passamos mais de um mês trocando desabafos e confissões que foram, aos poucos, “minando” a saúde da comunidade. Ninguém mais tinha paciência e ânimo para falar do problema da estrada. (Ainda bem que as famílias que já estão morando lá mantiveram a serenidade para agir: falaram com os vizinhos, colheram um abaixo-assinado e levaram para a prefeita, que providenciou uma obra emergencial na estrada, ainda em andamento).
Com o problema da estrada, as reuniões mensais se esvaziaram em janeiro, fevereiro e março. Até que o clima ficou tão desgastado que foi preciso uma intervenção mais radical... Meu marido é ótimo para essas situações. Durante a última reunião, em março, ele sugeriu que déssemos um tempo nas reuniões formais e que privilegiássemos festas, celebrações, confraternizações. Imediatamente, convidou todo mundo para a “I Festa do Improviso da Tapera da Pirambêra” que, por acaso, aconteceu no último domingo na minha casa ainda em obras na ecovila...
Pois bem. Foi só falar em festa que muitos olhinhos brilharam. Durante a semana, ele reforçou o convite por e-mail, dizendo que não queria que ninguém confirmasse nem ficasse planejando os detalhes dos comes&bebes, o que cada família iria levar, nada disso. Nem o horário foi muito preciso. O convite indicava apenas “festa no sábado à noite”... Também reforcei o convite, acrescentando mil motivos para celebrar: a entrada do outono, a saudade dos amigos, o aniversário do Luis, um dos moradores, e a antevéspera do meu (que, aliás, foi ontem).
No sábado bem cedinho, fomos para lá sem saber se teríamos mais que dois convidados. Mesmo assim, arrumamos o mezanino (única parte pronta da casa) para receber os amigos. Fiz uma limpeza geral, botei uns tapetes e umas almofadas no chão, espalhei umas velas para iluminar o ambiente, acendi alguns incensos, instalamos o som e uma luminária que ganhamos do ex-caseiro da ecovila, montamos uma mesa improvisada sobre cavaletes, com vinho, castanhas, pães, queijos e frutas.
À noite, os amigos começaram a chegar. Dezoito no total. Alguns chegaram com vinho, outros com pratos e talheres, outros até com cadeiras. A festa foi uma delícia. Ouvimos umas modas de viola, conversamos sob luz de velas, num clima aconchegante - apesar da falta de conforto. Depois, o Hiroshi pegou a viola e cantamos juntos por algumas horas, alegres, felizes, de alma lavada e espírito comunitário renovado.
Dessa experiência, o que ficou entre o grupo foi a sensação de que quando tudo parece estar mal, alguma coisa precisa ser feita. E nem sempre isso quer dizer tentar “resolver” o problema. Somos treinados durante anos para sermos pessoas práticas, objetivas, assertivas. Mas nem sempre agir assim realmente ajuda. Às vezes, o melhor a fazer é resgatar o motivo que une aquelas pessoas em torno de um objetivo comum. E se a cola da comunidade está baseada em afeto, solidariedade e amor - como é o nosso caso lá - é preciso botar tudo numa escala de tempo e acreditar que a maré de baixa vai passar, simplesmente porque tudo passa na vida.
Nesses momentos, então, nada melhor do que fazer uma festa! Nada melhor do que estar simplesmente junto daqueles com quem queremos dividir nossas vidas, nossos sonhos e utopias (sim, é preciso ter utopia para manter o passo sempre firme). Sair do olho do furacão e rir um pouco dos problemas pode ser o primeiro passo para a resolução deles, no tempo certo e sem apertos. Ter consciência da impermanência das coisas e confiança na força da comunidade é o que irá, no futuro e desde já, determinar o sucesso de uma comunidade que sabe o que quer ser, mas não tem (nem nunca terá) uma fórmula pronta para seguir.
Comentários
24/03/2009 às 00:00Lívia Corazza Nogueira - diz:Sabia que estava esquecendo alguma coisa... Parabéns pelo seu aniversário! Que sua vida continue rodeada por pessoas queridas por perto.. com muita música boa.. muitas risadas.. muita sabedoria.. muitos dias de céu estrelado.. sossego e amor! Que sua estrada por aqui seja longa...sem condições adversas.. rs
24/03/2009 às 00:00Flávia - diz:GiulianaQuando a intenção é boa, de alguma maneira o universo sempre conspira a nosso favor e muitas vezes o que vale a pena é deixar um pouco os problemas de lado e deixar-se ser acolhido e acolher o seu grupo.Tenho acompanhado seus posts e já estou louca para conhecer a Clareando, certamente vcs ainda vão passar por muitas coisas pois estão construindo algo do zero, mas isso só vai fortalecer cada vez mais vcs e no caso de alguém se perder no caminho, faz parte!Abraços e muita LUZ!!
24/03/2009 às 00:00Lívia Corazza Nogueira - diz:Olá, Giuliana! Fico honrada pelas dicas que me deu no post anterior, sobre disciplina. Muito obrigada pela atenção! Vou procurar saber sobre o prof.º Hermógenes e sobre a revista que me indicou. Em relação ao novo post, adorei a fotografia! O texto, então, nem se fala.. Injeção de positividade e perseverança em dose cavalar, rsGostaria de conhecer a Ecovila Clareando. Quando precisar de ajuda, é só me chamar.Boa sorte! Um grande abraço!
25/03/2009 às 00:00Luiza Samy - diz:Gil, tenho medo de uma coisa meio obvia quando leio os seus posts e os de outros blogueiros aqui do planeta, ou de qq ONG a serviço do em do planeta. A humanidade pode tudo menos retroceder, negar a importancia do avanço da ciencia. Ver mulher levantando a bandeira do lavar fralda, limpar banheiro,nao e um pouco demais pra vc?
26/03/2009 às 00:00Giuliana - diz:Oi, Lívia, obrigada pelo carinho. Você está convidada a conhecer a Clareando. Quando quiser ir, me avise, para que eu possa estar lá e apresentar a ecovila a você. Dê uma olhadinha no site (www.clareando.com.br). Lá tem um mapa com os detalhes de como chegar. Flávia, o mesmo vale para você, viu! Será um prazer recebê-las! Luiza, agradeço pela sua ponderação. Entendo seu ponto de vista e o respeito, mas não me sinto retrocedendo. Não vejo nada de menor em lavar absorvente. É algo que faço com prazer, pois sei que estou deixando de sujar o planeta com produtos que levam dezenas de anos para se decompor e são um grande problema ambiental. Não sou contra o avanço da ciência, de forma alguma, mas não quero que o preço do meu (suposto) conforto seja pago pela Terra - e por nós mesmos, aliás, num futuro que já chegou. Demais para mim é sentir que ainda seguimos o evangelho da ecoeficiência, sem entender que o planeta precisa de transformações mais profundas; e não apenas de descobertas científicas que prometem milagres e não fazem mais do que seguir com o barco na mesma direção, apenas remendando os defeitos a cada novo naufrágio. Mas, vamos falar mais sobre isso? Não gostaria que sentisse que dei a última palavra... Um abraço a todas, com carinho.
29/03/2009 às 00:00Luiza Samy - diz:Oi Gil. Gostei que respondeu e o fez com extrema delicadeza, firmeza. A mesma que usa pra escrever e por isso, mesmo discordando de algumas posturas, gosto de ler vc. Eu não lavo absorventes, nem fraldas, até mesmo porque não teria tempo pra isso. Trabalho muitas horas por dia, preciso de praticidade. Não, não sou troglodita e nem desejo matar o planeta que é a minha casa como é sua casa.Minha forma de lutar é diferente, eu acho que a mulher deve lutar para que a praticidade da vida moderna sejaó biodegradável. Na época da minha avó, ela tinha um quarador pra por seus paninhos no sol e só vivia pra cuidar da casa. Eu não tenho cmo fazer isso. Mas, repito, quero muito que a minha vida não seja o fim da vida. Acredite.
30/03/2009 às 00:00Giuliana - diz:Oi, Luiza, acredito em você e compreendo o que diz. Sempre preferi os diálogos aos debates e acho muito saudável essa nossa troca de ideias. É o tipo de situação que nos faz refletir e crescer, ou porque concordamos e sentimos empatia por aquela pessoa/situação, ou porque o que ela diz não ressoa em nossos corações e mentes e, exatamente por isso, coloca-nos em contato com nossa identidade, revelando-a com mais intensidade, fortalecendo nossas posições ou até abrindo espaço para uma eventual revisão de conceitos. Obrigada pela oportunidade. E espero que sinta sempre que este espaço está aberto para as suas opiniões. Um abraço,
10/04/2009 às 12:38Airton Parizotto/carpinteiro - Telefone 019-3875.6977 - diz:Bom dia! trabalho no ramo de carpintaria, tenho especialização em construção de estruturas e quiosques em eucalipto tratado. Caso haja interesse por parte de V.Sas., favor entrar em contato pelo telefone acima, moro na cidade de Indaiatuba/SP região metropolitana de Campinas.Abraços!!!Se houver interesse, tenho algumas fotos postadas no meu orkut, o endereço é airtonparizotto@hotmail.com
10/04/2009 às 12:39Airton Parizotto/carpinteiro - Telefone 019-3875.6977 - diz:Bom dia! trabalho no ramo de carpintaria, tenho especialização em construção de estruturas e quiosques em eucalipto tratado. Caso haja interesse por parte de V.Sas., favor entrar em contato pelo telefone acima, moro na cidade de Indaiatuba/SP região metropolitana de Campinas.Abraços!!!Se houver interesse, tenho algumas fotos postadas no meu orkut, o endereço é airtonparizotto@hotmail.com
13/04/2009 às 17:06Tiago Portella Fialho - diz:Vcs são de mais.
13/04/2009 às 17:07Tiago Portella Fialho - diz:Vcs são de mais.
13/04/2009 às 19:20Geraldo Cavalcanti - diz:Giuliana, sou tradutor / intérprete e produtor de eventos. Tenho 46 anos e moro no Rio. Tenho um sítio na região serrana e durante seis anos morei nele e tentei interessar meus vizinhos e moradores da região em adotarem soluções como biodigestores, aquecimento solar e hortas orgânicas. Hoje sei que minha abordagem foi toda errada. Eu quis "forçar" as pessoas a adotarem projetos "de fora".Isso foi há cinco anos e agora quero me dedicar novamente a projetos que envolvam eco-construção e geração de energia renovável. Venho lhe pedir uma orientação, se possível, pois gostaria de entrar em contato com pessoas, organizações e outros agentes para me informar, educar e preparar e para quem possa oferecer meu trabalho também.Ficarei imensamente grato por qualquer orientação que puder me dar e por qualquer contato.Atenciosamente,Geraldo Cavalcanti