Gaiatos e Gaianos
17/03/2009 às 18:59
Yoga e sustentabilidade


Gosto de pensar que a noção de sustentabilidade começa dentro de cada um de nós. Afinal, é preciso “estudar a casa” para praticar ecologia e agir de maneira mais sustentável. E qual é a nossa primeira morada senão o corpo, a mente e o espírito? Talvez isso explique por que as pessoas que despertam para o pedido de socorro do planeta costumam, aos poucos, mudar hábitos alimentares, trocar a correria por uma agenda menos tumultuada e até se arriscar em empreitadas profissionais mais coerentes com seus verdes anseios.

Gandhi costumava dizer que precisamos SER a mudança que queremos VER no mundo. E esse SER, é bom dizer, é bem diferente das seduções trazidas pelo TER. Ser sustentável ou mais ecológico não é sinônimo de comprar produtos com selo verde. O mérito, na verdade, está em reduzir o consumo, ter e querer menos, exercitar a simplicidade e a solidariedade; e não em abarrotar o armário com mimos ambientalmente corretos que parecem redimir nossa consciência consumista.

Ser o que queremos ver começa por encarar um processo mais profundo de autoconhecimento. Estou falando de valores e princípios que, mesmo quando não são claros ou explícitos para nós mesmos, regem nossos atos dia após dia.

Como praticante de yoga, sou fã dos chamados yamas e niyamas, que são, numa livre tradução, os componentes do código de ética do yoga, escritos por Patãnjali cerca de cinco mil anos atrás, num documento que ficou conhecido como Yoga Sutra.

Os cinco yamas do Yoga Sutra falam de contenções: ahimsa (não-violência), satya (verdade), asteya (não-roubar), brahmacharya (uso correto da energia vital) e aparigraha (não-possessividade ou desapego). Os niyamas, por sua vez, remetem às observâncias que um yogin deve cultivar em sua prática cotidiana (que vai muito além das posturas e contorcionismos que vemos por aí sob o nome de yoga). São eles: saucha (pureza), santosha (contentamento), tapas (autossuperação), svadyaya (autoestudo) e ishwara pranidhana (autoentrega).

Fora o fato de serem palavras estranhas até em português (por conta da reforma ortográfica), esses valores não são desconhecidos, mas requerem prática consciente e constante. É aí que mora a grande dificuldade. Yoga sem prática é discurso vazio. (E estou aprendendo isso, aos poucos, com paciência e humildade.)

Falar em ahimsa (não-violência), por exemplo, é falar em respeito pelo próprio corpo, pelos outros e, por consequência, respeito pelo planeta. É por isso que faço essa ligação entre Yoga e sustentabilidade. Tal como a sustentabilidade, cheia de conceitos e até de entendimentos equivocados, o Yoga só faz sentido quando praticado. Não bastam palavras bonitas nem filosofias milenares. É preciso SER. Simples assim...

Quando incorporamos esses valores em nossas vidas, adquirimos condições de expandi-los para além de nossas fronteiras. Mudamos nossa casa, nossos relacionamentos familiares, nossas relações no trabalho, no bairro, nossa conduta dentro do ônibus ou de outro espaço público. Mudamos, por fim, nossa visão de mundo. E você? Já parou para pensar se seus valores e atitudes combinam com o mundo em que você quer viver e com o planeta que você quer deixar para seus filhos?

 






Comentários

17/03/2009 às 00:00
Lívia - diz:
Olá, Giuliana! Tenho acompanhado semanalmente seus textos, sempre muito bem redigidos e sempre com temas que me interessam e me estimulam muito.. Obrigada por me proporcionar boas leituras! Agora, gostaria de uma espécie de ajuda no que diz respeito à disciplina.. Este ano, finalmente, comecei a praticar yoga.. mas tive que parar por conta da grana investida e tentei praticar em casa por conta própria.. Mas me falta muita disciplina e concentração pra dar continuidade e não sei o que eu poderia fazer nesse sentido.. É uma enorme vontade minha praticar yoga, mas não sei como manter essa prática.. Você tem alguma dica? Um grande abraço!

19/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Oi, Lívia, tudo bem? Conquistar disciplina talvez seja a parte mais desafiante...inclusive para mim. Mas com o tempo, os benefícios da prática aparecerão e você se sentirá mais estimulada. Por enquanto, tente reservar um tempinho (não importa se dez ou cinquenta minutos) para praticar em casa. Escolha um lugar tranquilo, sente-se confortavelmente, faça uns minutinhos de aquietamento, respirando mais profundamente e buscando eliminar os pensamentos da mente. Depois, dependendo do seu tempo, faça algumas sequências de saudação ao Sol (surya namaskar). Se você não conhece essa prática, é possível encontrar desenhos, fotos e até vídeos na internet que detalham tudo direitinho. A saudação ajuda a energizar e equilibrar o corpo, e deve ser feita sempre com calma, seguindo a sua respiração. Se houver tempo, você pode incluir um exercício respiratório (pranayama) e uma prática de meditação. Nâo precisa fazer tudo. Vá acrescentando diversidade aos poucos, de acordo com o seu ritmo e tempo disponível. Uma revista bacana para iniciantes é a Prana Yoga Journal (tem site), que traz sempre dicas interessantes, textos que falam da filosofia e, claro, uma sequência de asanas (posturas) para fazer em casa... Outra dica: os livros do prof. Hermógenes são excelentes para dar ânimo e conquistar mais disciplina... É isso, espero tê-la ajudado. Um grande abraço, namastê!

24/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Oi, Rejane, eu sabia que encontraria praticantes de yoga por aqui...rs. Quem aprende a cuidar de verdade de si mesmo acaba expandindo esse zelo para outras esferas também. Que sua prática possa ser cada vez mais inspiradora para você. Um abraço, namastê!

24/03/2009 às 00:00
Rejane Helena Carvalho Lage Neves - diz:
adorei ler esse artigo. Pratigo Yoga há 5 anos e realmente mudei os hábitos diários. Tenho certeza que quem cuida de si cuida do mundo. Sou educadora e o discurso é bem esse. Preciso conhecer o meio ambiente interno e amá-lo. Os outros atos serão consequencia. Entender que estamos inseridos em um mesmo cosmo e o que tem em nós tem no planeta.Parabéns.

25/03/2009 às 00:00
Flávia - diz:
Oi GiuPuxa, que texto bom, tenho trabalhado esse tema com um grupo de alunos, Yoga e sustentabilidade e concordo com vc, tudo começa dentro de nós, é muito importante procurarmos a coerência entre o que sabemos que é o correto e o que fazemos, muitas vezes isso se perde pelo caminho e precisamos resgatar...Nada como começar pelo mais simples né?Não precisa se preocupar com o que fazer na ecovila, certamente vai pensar em muitas coisas e mudar de vida com consciência trará muitas vantagens.Lívia, tem muitas Ongs que têm prática de Yoga gratuita, eu dou aula em uma Ong de 3ª idade e conheço o Clube cidade escola que tbém tem Yoga, procura no seu bairro...Namastê!

26/03/2009 às 00:00
Flávia - diz:
GiuAssim que possível vou conhecer a Clareando. Em abril inicio o Gaia que veio em ótima hora, estou mesmo precisando de idéias e formas diferentes de abordar sustentabilidade de forma rápida e de fácil entendimento pois vc sabe muito bem que em alguns momentos falamos grego, e aí fica fácil ter vontade de recomeçar a humanidade do jeito certo, rs. Hora a vizinha lava a calçada olhando o horizonte, a faxineira consome quase 1 litro de detergente, o prédio não quer registros de água individuais, Ufa, é realmente uma batalha que começa dentro de cada um de nós.

26/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Flávia, obrigada por compartilhar um pouco da sua experiência. E parabéns pelo seu trabalho. Unir yoga e sustentabilidade é muito importante nos dias de hoje. Yoga é prática. Sustentabilidade também precisa ser. Ah, muito bem lembrado essa história das aulas grátis! (Lívia, mais uma oportunidade para você! Boa sorte!) Namastê!

02/04/2009 às 11:50
Mara - diz:
Maravilhoso seu post...e assim como eu acho que todos param pra pensar pra onde estamos caminhando...enfim tenho tentado ser coerente com meus valores e atitudes espero estar caminhando bem afinal sempre estamos aprendendo.Lindo post adorei.Namastê!

22/08/2009 às 12:16
jayadvaita dasa - diz:
que pena que suas datas estão erradas, patanjali não viveu há cinco mil anos, ele pertenceu ao período clássico, circa 300a.C., há cinco mil anos tínhamos o período védico do yoga, que na verdade foi o apogeu do conhecimento e aplicação prática real do conhecimento do yoga. atualmente só encontramos farsantes.



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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