Gaiatos e Gaianos
10/03/2009 às 18:06
O segredo da abóbora mágica...


O que vou contar a você é algo muito íntimo, que só decidi revelar com a intenção de inspirar outras mulheres. Já faz uns dois anos e tanto que uso um absorvente ecológico durante meu ciclo menstrual. Ele é todo feito em algodão, costurado por um grupo de mulheres de Ubatuba e comercializado pelas meninas do Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica (Ipema). Reutilizável, essa opção evita a produção de lixo descartável e não reciclável. (Você sabia que durante a vida inteira uma única mulher joga no lixo cerca de 15 mil absorventes?)

Pois bem. Desde então, a cada ciclo menstrual, sigo o mesmo ritual: pela manhã, coloco o absorvente usado à noite num balde com água e deixo de molho até a manhã seguinte. Assim, o sangue se solta do tecido, mistura-se à água e essa diluição facilita a lavagem (sempre só com água e sabão de coco). A água com sangue, no entanto, não é jogada ralo abaixo. Nem pensar! Aprendi com a Jéssica, a amiga que me vendeu meus primeiros absorventes reutilizáveis, que o sangue menstrual é um poderoso fertilizante para as plantas.

Então, retiro os paninhos do balde e espalho a água enriquecida com o fluxo menstrual nos vasos e canteiros da minha casa. Para quem fez cara feia (tudo bem, acontece com certa frequência), vou logo avisando: não fica cheirando mal, não é nojento e, o mais importante, o contato mais próximo com o fluxo menstrual muda para melhor a relação que temos com a menstruação – que, no meu caso, passou de um incômodo mensal para uma fase de descobertas bem interessantes.

E a tal abóbora? Onde entra nessa história? Agora. Meu companheiro plantou tempos atrás umas sementes de abóbora num canteirinho pequeno, no quintal de casa. “Adubei” as sementes durante alguns meses, até que a planta cresceu, cresceu, atravessou o muro da minha casa e foi parar na laje da casa da vizinha, que estava em reforma. Um belo dia, um dos pedreiros que trabalhava no telhado dela gritou lá do alto para o Edílson, meu marido: “Ô, moço, tem uma abóbora gigante aqui em cima e acho que vem do seu quintal”. “É mesmo? E já tá madura?”, respondeu o Edílson, com uma naturalidade inabalável. “Hum, ainda não, vai mais uns 15 dias”, calculou. “Ah, então deixa aí mais um tempinho, depois você pega pra mim, pode ser?” “Tá bom, o senhor é que sabe”.

Veio um dia, depois outro, mudou a lua e lá foi o pedreiro subir no telhado para terminar o serviço na casa da Dalva. Eis que a abóbora estava lá, agora amarelinha, bonita que só sendo. “Ô, moço”, gritou o trabalhador para chamar o Edílson. “Sua abóbora já tá boa”, disse. “Então, por favor, jogue para cá que eu pego”, sugeriu o dono do fruto. “Eu jogo, mas cuidado que tá bem pesado”, preveniu.

E estava mesmo. Uns dez quilos ou mais. Linda, linda. Quando cheguei em casa e soube da história, foi uma gargalhada só. Fiquei surpresa com meu, digamos, “poder de fertilização”...

A abóbora foi repartida em vários pedaços e parecia não ter fim. Uma parte para o nosso almoço, outra para a minha avó, outra para minha mãe, mais uma para um almoço comunitário lá na ecovila. As sementes, é claro, foram guardadas. Plantamos no terreno da nossa casa em Piracaia. E não é que já deu uma meia dúzia de abóboras?!?

Agora estou testando o fertilizante em outros vasos de casa. E espero ter outras boas histórias para contar, em breve. E você? Que tal experimentar também? Bom, para começar, será preciso ter os tais absorventes ecológicos. Para quem sabe costurar, é bem simples de fazer. Mas, para facilitar o acesso, deixo duas dicas de onde adquiri-los: Ipema – http://www.ipemabrasil.com.br/ e Morada da Floresta – http://www.moradadafloresta.org/.

Ah, faltou dizer que eles duram bastante, são mais confortáveis do que aquelas coisas de plástico que se vende por aí, evitam alergias típicas do período, são hoje fonte de renda para grupos de costureiras, ajudam a cuidar do planeta e ainda permitem a produção de um ótimo fertilizante orgânico e natural. Quer mais motivos para aderir à ideia? 

p.s.: veja mais sobre o absorvente ecológico lendo um outro post publicado neste blog. É só clicar aqui.






Comentários

11/03/2009 às 00:00
Olivia - diz:
Adorei essa história, aqui em casa (ainda) não tem abóbora, mas já salvei muita planta com esse fertilizante natural. O meu alecrim fica até mais cheiroso.Pena q as pessoas (principalmente mulheres) ainda tenham certo nojo. Com nojo a gente fica qdo usa aqueles de plástico, já fiz o teste com os dois tipos e realmente, em termos de conforto ganham os reutilizáveis facilmente! Obrigada pelo relato Giuliana!

13/03/2009 às 00:00
Olivia - diz:
rs...a gente tem q falar sobre isso, afinal tb é sustentabilidade, não é mesmo?Aqui em casa alecrim sempre se dá bem. Tenta por num vaso grande e perto do sol. Pelo menos os daqui de casa adoram. Eles ficam num lugar que pega bem o sol da manhã. Ah, e uma coisa q aprendi: sempre tira as pontas na hora que for usar pra cozinhar. Beijos

13/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Oi, Olivia, obrigada por publicar seu comentário, digamos, corajoso. E gostei da história do alecrim. Vou fazer o mesmo porque, por alguma razão desconhecida, não tenho conseguido cultivar alecrim no meu quintal... Quem sabe com o fertilizante natural não dá certo? Obrigada, um abraço,

16/03/2009 às 00:00
Ana Lucia Dreyer - diz:
Parabéns Giuliana!Você dá voz ao que muitos pensam e não conseguem colocar em prática. Trabalho com arquitetura sustentável e compartilho de várias idéias e opinições suas.Tenho lido seu blog e coloquei um link no meu para divulgar: www.anadreyer.blogspot.comAbraços!!

16/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Boas dicas, Olivia. Obrigada. Vou tentar achar um lugarzinho ao sol para ele... É que minha casa perdeu bastante luz por conta de um prédio enorme que está sendo construído bem ao lado da minha vila aqui em SP. E ainda é isso que chamam por aí de desenvolvimento... Beijos pra vc,

17/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Oi, Ana, acabei de entrar no seu blog. Tem muita coisa bacana por lá. Aliás, adorei saber que você é LEED AP. Parabéns e boa sorte nessa empreitada! Um abraço,

18/03/2009 às 00:00
Ana Lucia - diz:
Oi Giuliana! Obrigada pela força! Estou a disposição para trocar idéias.ps: quanto a este post, estou divulgando a idéia e vi que a Olívia que escreveu acima tem razão... Os homens tendem a achar mais natural que as mulheres... Vai entender... HeheheAbraços,Ana

23/03/2009 às 00:00
Paulo - diz:
Giu não uso absorvente é claro,a idéia é boa,tenho também essa tendência de agir ecológicamente correto, pois se não cuidarmos de nossa terra quem vai cuidar. Mas como fazer quando se fica muito tempo fora de casa?

23/03/2009 às 00:00
Mariel - diz:
Giu, tô adorando seu blog, e "quando eu crescer" quero ter uma casa como a sua (inclusive com banheiro compostável)!Por enquanto, vou fazendo o que está ao meu alcance, como consumir menos e com responsabilidade. E estou querendo montar uma hortinha no meu apê. Ando em busca de dicas bem pragmáticas: o que plantar, onde (caixa de leite, pneu velho, pvc - é "maus", mas tá por aí, vale reutilizar ou melhor esquecer?), como plantar (camadas de terra, pedra, furos no recipiente, sol, regas, etc).Eu quero montar uma hortinha horizontal, na parede da varanda. Conhece algum passo-a-passo pra indicar, do tipo "tiny gardens for dummies"?Beijo!

24/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Oi, Mariel, oi, Paulo, obrigada por registrarem sua passagem por aqui. Mariel, fazer uma hortinha no apê é uma excelente ideia e você já deu boas opções de onde plantar. Caixas de leite e pneus, por exemplo, são ótimos para isso. O PVC eu descartaria, por conta das inúmeras controvérsias que envolvem o material, especialmente em relação à contaminação da água e interferência nas nossas taxas hormonais. Como plantar: todo recipiente utilizado deve ter furinhos para o escoamento da água. A quantidade de sol e rega depende de cada espécie. Para facilitar, você pode escolher hortaliças e temperos que pedem o mesmo tipo de cuidado. Se você costuma cozinhar em casa, é muito útil ter uma hortinha com manjericão, salsinha, cebolinha, alecrim, tomilho, orégano e sálvia. Uma dúvida: você quis dizer horta horizontal ou vertical? Na internet, uma rápida pesquisa te leva a inúmeros sites com o passo-a-passo de como montar uma horta vertical, que costuma ser interessante para quem tem pouco espaço disponível. Se você tiver uma composteira, seu adubo para as plantas estará garantido e você terá um ciclo natural interessante dentro de casa: da horta para a mesa, da mesa para a composteira, da composteira para a horta e novamente para a sua mesa. Para isso, separe o lixo orgânico num balde furado nas laterais e no fundo, com tampa; cubra os restos de comida e poda de jardim com terra ou pó de café "usado" (claro), para evitar mau cheiro e moscas. Deixe o material se decompor por 50 ou 60 dias e use o composto nos vasos e canteiros. Será que ajudei? Vamos conversar mais sobre isso, ok? Paulo, sua pergunta é super pertinente. Muitas mulheres não usam o absorvente ecológico por conta da falta de praticidade. Quando fora de casa, é necessário guardar o absorvente num saquinho plástico, por exemplo, e levá-lo para casa para lavar. Se for muito incômodo, o jeito é restringir o uso para os momentos caseiros e as noites de sono, o que já poupa bastante o planeta... Um abraço para vocês!

26/03/2009 às 00:00
Luana - diz:
Giulianna, eu tenho uma só dúvida sobre esse abio: não vaza?

26/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Oi, Luana, o abio vem com dois tipos de toalhinha, para colocar dentro do suporte de tecido (também feito em algodão): uma mais fina e outra mais felpuda, para diferentes intensidades de fluxo. Assim, você adapta o modelo ao seu fluxo e evita o risco de vazamentos...Te ajudei? Um abraço!

02/04/2009 às 16:56
Mariel - diz:
Genial, adorei as dicas! Era horta vertical, sim, hehe. A confusão deve ter sido induzida pela sonoridade, horta, horizontal...Ajudou muito! Vou começar a implantação. Eu pensei em mais um recipiente, acho que para temperos que não precisem de muita profundidade devem servir: potes de sorvete!Você escreveu praticamente um novo post! Obrigada. :)

28/04/2009 às 16:50
Cris - diz:
Dêem uma olhada neste, feito de silicone...http://colunas.epocanegocios.globo.com/empresaverde/2009/04/24/absorv ente-ecologico-era-so-o-que-faltava/comment-page-12/



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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