Dona-de-casa, eu?!?

"Mas você vai largar a carreira de jornalista para ser dona-de-casa no meio do mato?” Muitas amigas já me fizeram essa pergunta, indignadas com minha opção de viver numa ecovila e de não cultivar, digamos assim, muitas ambições profissionais (embora eu não esteja pensando em abandonar o jornalismo).
É inegável que as mudanças que tenho feito na minha vida, para ter um dia-a-dia mais coerente com meu discurso, levam-me a uma reflexão profunda sobre a ideia de feminismo, de ser mulher no século XXI, de ser ou não ser mãe, de ter um trabalho bem remunerado, de ser feminina sem ser vulgar, de ter voz entre os homens, e por aí vai. Até porque sei - e sinto - que estou na contramão da maioria e que meu caminho não é, nem de longe, sequer desejado por muitas mulheres.
Às vezes, fico pensando: será que estou cometendo alguma falta contra as mulheres que lutaram e ainda lutam por mais igualdade, respeito e espaço no mundo?!? Será que querer viver de um jeito mais simples, mais ligado à terra e aos amigos depõe contra a noção de libertação da mulher? Que mulher é essa que eu cultivo em mim que não acha demérito passar mais tempo no escritório montado em casa e cuidando de afazeres domésticos do que na empresa (e, por consequência, no trânsito, em restaurantes self-service e no shopping center comprando roupas para manter uma boa imagem entre os colegas)?
Vamos por partes. Não vou abandonar o trabalho remunerado. Apenas não é meu desejo passar os dias numa redação, sentada na frente do computador, sob o ar-condicionado e a tensão dos prazos curtíssimos. Tenho me esforçado para conseguir trabalhos que poderão ser levados para a ecovila - como este blog aqui, por exemplo, e as resenhas de livros que tenho feito para a seção Estante deste site. Ou seja, não estou abrindo mão da minha profissão; estou tão somente reestruturando o peso que esse aspecto tem e terá daqui para frente.
O trabalho fora de casa não precisa ser a razão de nossa existência. Isso não é libertação nem para mulheres nem para homens! Sinceramente, a mulher fez a revolução lá nos anos 60, quando queimou sutiãs, descobriu a pílula, usou roupas masculinas e saiu às ruas gritando “posso fazer tudo que um homem faz”. É claro que ainda existe discriminação de gênero no planeta. Mas sair de uma condição de subjugação para outra (a da dupla ou tripla jornada, a da ditadura da juventude ou da executiva estressada) não me parece ser exatamente um grande avanço.
Talvez as mulheres tenham radicalizado demais. Quiseram tanto ser igual aos homens que simplesmente execraram alguns saberes importantes pelo caminho. Cozinhar, bordar, cuidar dos filhos e do marido virou coisa de avó e de mulherzinha atrasada. Afinal, ter uma agenda cheia é que é sinônimo de mulher bem-sucedida. E olha que não vale aqui agenda cheia de compromissos ligados ao lar, hein! Nada de supermercado, padaria, sapateiro ou costureira. O negócio da mulher deste século é frequentar academia de ginástica e ter dinheiro para pagar pelos bisturis mágicos das clínicas de estética. Será?
Será mesmo que essa mulher foi libertada? Tenho minhas dúvidas. Penso que, passada a fase do feminismo original, está mais do que na hora de abrir uma temporada de balanço. Ser dona-de-casa não é palavrão nem castigo. Ainda mais se for algo voluntário. Tem muita mulher fazendo essa opção hoje em dia...
Lá na ecovila, acredito que isso poderá até ser um prazer. Acordar cedo, preparar o café da manhã, dividir as tarefas do dia com o companheiro (sim, os homens também mudaram muito!), encontrar outras mulheres da comunidade para fazer pão, costurar, pintar, plantar, dançar, praticar yoga, cuidar das crianças.
Confio muito na enorme capacidade que temos de aprender novas habilidades a cada dia e de sermos pessoas mais inteiras à medida que conseguimos dar vazão ao nosso lado criativo. Tenho fome de aprender coisas novas (que, na verdade, são bem antigas) e...inusitadas. Quer ver um exemplo? Minha avó está me ensinando a costurar. Quando eu era criança, a vó Sinhá dava aulas para um punhado de mulheres. E eu sempre achei o máximo essa história de pegar um pedaço de tecido e transformá-lo em roupa. Então, resolvi tentar (já falei sobre isso aqui no blog). E não é que estou conseguindo aprender?! Já fiz lençóis, uma cortina para banheiro, uma saia e uma blusa. Tenho certeza, esse saber terá um valor imenso quando eu estiver morando na ecovila.
Na mesma toada, tenho me dedicado a aprender a cozinhar mais e melhor. Já faço vários pratos vegetarianos e me viro bem. Mas com a horta e o pomar comunitários da ecovila, vou querer aprender a desidratar frutas, fazer doces, compotas, conservas etc.
Também ando estudando violão, por conta própria. Estudei piano dos seis aos quinze anos de idade, mas sempre soube que eu não conseguiria alegrar uma festa tocando Bach, Mozart ou Liszt. Então, seguindo a trilha do meu pai, que é músico, e do meu avô, que morreu como um excelente bandolinista, escolhi o instrumento de cordas como aliado para futuros encontros entre amigos.
Por último, ingressei num curso de formação em yoga. Já pratico há uns três ou quatro anos, mas sentia falta de aprofundar o conhecimento sobre essa filosofia milenar. Ainda não sei dizer se vou me tornar professora de yoga. Mas, ao menos, sei que poderei oferecer práticas diárias para a comunidade da ecovila.
Em resumo, meu caminho tem sido encontrar maneiras de me conhecer e me realizar mais plenamente. Não tenho receio de parecer antiquada ou mesmo maluca. Sei que estou tentando trilhar um caminho diferente, em que cada passo é dado lentamente, dia após dia. Mas sei também que poderei contar com meu companheiro e com minhas amigas da ecovila. Posso não ser fã ardorosa de uma vassoura, mas se ela for o passaporte para um cotidiano mais pacífico e cheio de sentido, sei que posso encará-la sem problemas...
Comentários
04/03/2009 às 00:00lucineide - diz:Sempre acompanho seus artigos e gosto muito. Já tenho local para compostura, plantei várias árvores e tenho limpado a casa para ter apenas o principa. Agora, ao invés de ir todos os dias p/ escritório(advogada) fico mais em casa e só vou por lá se necessário. Meu jardim está ficando lindo. Vc. tem uma parcela nisso. Grata.
04/03/2009 às 00:00Giuliana - diz:Oi, Lucineide, enquanto lia seu comentário fiquei imaginando sua casa, seu jardim, sua composteira... e me senti muito feliz por saber que além de serem posturas de respeito pelo planeta, essas mudanças têm tudo para tornar sua vida mais gostosa e cheia de sentido. Cuidar da terra faz um bem danado! Sem falar que ter um belo jardim para apreciar nos intervalos do trabalho aumenta o nosso bem-estar em casa e também a certeza de que precisamos de muito pouco para viver bem. Desejo que você aproveite muito essa oportunidade. Um abraço, Giuliana
06/03/2009 às 00:00Cristina - diz:...Acho que o que voce falou tem a ver com o sentido e o significado da vida, das pessoas e das coisas. Por mais que um emprego seja bom o bastante, ter uma empresa seja lucrativo o bastante, ser a referencia em tal assunto, uma phd em alguma coisa tudo isso não combina com perda de saúde, de qualidade de vida ou não ter tempo para fazer coisas simples e tão necessárias à plenitude humana como cultivar ervas, andar descalça, tomar banho de chuva. Acredito que o crescimento verdadeiro é interno. Aquele que carregamos independente do carro ou bicicleta que usamos. Aquele que transborda através de nosso olhar e nossas palavras. Isso sim. Felizes as mulheres que conseguriram encontrar o caminho de sentido e significado para si mesmas. Felizes as que disseram não a todas as formas de ditadura. Encontrar o próprio caminho é encontrar a si mesmo. Parabés pela matéria e muita felicidade mesmo.
06/03/2009 às 00:00Michel Quintanilha - diz:Procuro alguém assim.Ainda não desisti de encontrar.Um dia, quem sabe...Tava na net e, de repente, me deparei com esta pág.Tbém adoro a vida simples; e boa.Pretendo construir uma ksa dentro da mata atlântica,em Teresópolis (um lugar...,simplesmente lindo),e tentar viver de uma forma mais sustentável.E nem por isso vou deixar a vida de lado,mto pelo contrário.Como estou chegando agora, certamente vou precisar de ajuda.Numa outra hora vou esmiúçar mais o teu blog.Quem sabe não encontro o queu procuro.Acho o máximo uma mulher...q seja mulher.Tbém acredito que o crescimento verdadeiro é interno. Ah, e tbém sei cozinhar,aprendi a tocar violão e comecei a me interessar mais pelas coisas simples.Parabéns.
06/03/2009 às 00:00Bianca - diz:Giu! Que feminista poderia falar mal de você? Isso é emancipação, e muita! Estava lendo uma crítica esses dias de feministas que falam que a primeira geração delas comprou o discurso capitalista de produzir industrialmente. E a não-dominação passa também por sair dessa lógica tão perversa. Sejamos mulheres emancipadas, femininas e felizes com a maneira como escolhemos pra viver. Seja na ecovila ou numa academia boba ;)
06/03/2009 às 00:00Cristina - diz:...Acho que o que voce falou tem a ver com o sentido e o significado da vida, das pessoas e das coisas. Por mais que um emprego seja bom o bastante, ter uma empresa seja lucrativo o bastante, ser a referencia em tal assunto, uma phd em alguma coisa tudo isso não combina com perda de saúde, de qualidade de vida ou não ter tempo para fazer coisas simples e tão necessárias à plenitude humana como cultivar ervas, andar descalça, tomar banho de chuva. Acredito que o crescimento verdadeiro é interno. Aquele que carregamos independente do carro ou bicicleta que usamos. Aquele que transborda através de nosso olhar e nossas palavras. Isso sim. Felizes as mulheres que conseguriram encontrar o caminho de sentido e significado para si mesmas. Felizes as que disseram não a todas as formas de ditadura. Encontrar o próprio caminho é encontrar a si mesmo. Parabés pela matéria e muita felicidade mesmo.
06/03/2009 às 00:00eliana severo da costa - diz:Sou arquiteta e já trabalhei muito nesta vida... para os outros. Tenho 56 anos e acho que demorei para assumir o que você está se propondo... com a maior calma faço as minhas cortinas , cozinho para as minhas filhas com o maior carinho e tudo que for possível eu tento fazer... marcenaria , construir ..... acho que me deparei com a minha " galera" . Que o seu propósito se concretize cada vez mais .... será tudo de bom !
06/03/2009 às 00:00Magda - diz:Giuliana,há muito venho pesquisando sobre técnicas alternativas de construir, pois de certa forma o nosso viver sempre foi nos moldes de aproveitar, transformar e acrescentar. Através dessa jornada encontrei seu blog muito inspirador e assim gostaria de saber com você o que é mais importante levar em consideração na hora de procurar um lugar para construir e viver baseado nos princípios da permacultura.Obrigado e tudo de bom.
06/03/2009 às 00:00clarissa rodrigues de medeiros - diz:Oi Giuliana, adorei seu artigo e super me indentifiquei. Eu e mi nha irmã - Juliana,que também, é jornalista, deixamos o mundo da consultoria de comunicação corporativa, motivadas por valores muito semelhantes aos seus.Hj ela mora num lindo sitio e empreende um comércio de queijos de cabra (criaçao e produção prórpios), e eu, que também já estou no caminho da Yoga há uns bons anos, voltei a dar aulas, e comecei a trabalhar numa ONG de desenvolvimento humano. Nunca antes somos tão felizes! Obrigada. Vou seguir o seu blog, e compartilho o meu: http://sustentabilidadedoser.blogspot.com
06/03/2009 às 00:00Lala - diz:Giuliana,Simplesmente amei o que você escreveu. Na verdade, gostaria de jogar uma bomba naquelas feministas que queimaram o sutiã na praça - se elas ainda estivessem vivas. Sinto que elas me privaram dos trabalhos agradáveis junto com a família, da participação e grata alegria ao ver os filhos crescerem, do chá das 5 com as amigas, da comidinha caseira na hora do almoço e de tantas outras coisas que nós, mulheres modernas não temos tempo de fazer. Quem defende tanto a igualdade feminina deve ter esquecido que temos uma tripla jornada e que no final do dia estamos exaustas!Realmente, quando falo isto para as pessoas, vejo a expressão de desapontamento.... como se fosse um crime querer trabalhar menos ou optar em não trabalhar para cuidar dos filhos. Infelizmente ainda não tive como me libertar (como você), mas assim que puder me sustentar de outra forma com certeza farei esta opção.Um grande beijo e parabéns!
10/03/2009 às 00:00Alda - diz:Parabéns vc conseguiu sintetizar o sufoco que as mulheres que tentam ter uma vida mais calma,mas perto dos filhos sentem hoje em dia.Não é fácil!Pressão da sociedade e até dos amigos que não entendem uma pessoa sair do "sucesso" para ficar em casa como se hoje em dia a gente morasse ilhado longe de tudo.Parabéns denovo!E muita sorte e felicidade em sua empreitada são muitas coisas(a propósito vc e gemeniana?)mas tenho certeza que boa parte delas dará certo!Abraços!!!!!
13/03/2009 às 00:00Vivi - diz:Giuliana, estou conhecendo o seu blog agora e adorei. Senti que não estou sozinha no mundo!!! Fico feliz em perceber que posso compartilhar minha forma "diferente" de ver a vida. Parabéns pela sua coragem e ficarei acompanhando seus próximos passos a fim de aprender também! Felicidades!
21/03/2009 às 00:00stella marcia carneiro arthuso - diz:Oi Giuliana,Mais uma vez não poderia deixar de comentar sobre o que acabei de ler. Sabe, acho que você me livrou de um problema que peturbava a muito tempo. Penso exatamente isso a respeito de se buscar uma melhor qualidade de vida, mesmo se isso significar ser dona de casa - se for o que me faz feliz. Acho mesmo que muitas mulheres tem vergonha de assumir isto; preferem viver uma frustrada carreira "bem sucedida" fora de casa, do que admitir que o que queriam mesmo era uma feliz e simples vida caseira...Vim parar aqui no seu blog por causa do que falou sobre costura e ganhei muito mais do que procurava, porque me identifiquei com tudo o mais que li até agora. Acredito que nada é por acaso e que os anjos de Deus nos conduzem pelos caminhos que nossa alma necessita trilhar. Ler as tuas palavras foi uma benção para mim.Ahh! Sabe que me deu vontade de morar nesta ecovila!! Eu também começei a tocar piano e troquei pelo violão e também faço yoga
23/03/2009 às 00:00SILVIA GRILLI - diz:Olá Giuliana! Acabei de ler sua mensagem e concordo plenamente com suas idéias. O que mais lamento é o fato da mulher moderna ignorar o "sentido feminino" das coisas e do mundo, que é antes de tudo agir como a Mãe Natureza, respeitando os limites de cada coisa ou pessoa. Meu "sentido feminino" não despreza a profissional nem a cidadã que sou - ao contrário, me prepara para fazer escolhas conscientes e comprometidas com o futuro. Hoje trabalho em casa (sou designer) e concilio as tarefas domésticas com muito prazer! Aliás, só uma verdadeira e "dona-de-casa" e "dona-do-seu-nariz" pode se dar o luxo de viver como a mais legítima fêmea: que recebe alimento, abrigo e proteção do seu macho e retribui com carinho, cuidados, afeto e filhos saudáveis. Beijos!!
26/03/2009 às 00:00Giuliana - diz:Olá, Silvia, Stella e Vivi! Obrigada pelos comentários e pelas mensagens de paz, solidariedade e esperança. É muito gostoso sentir a reverberação das ideias que são colocadas aqui. Vivi, seja sempre bem-vinda por aqui. Mande-me sugestões de temas sempre que quiser, ok? Stella, é um prazer ler suas mensagens (ainda não consegui responder todas, mas chego lá). Sinta-se convidada a conhecer a ecovila Clareando. Escreva-me quando tiver um fim de semana livre. Estou sempre por lá e será uma alegria recebê-la. Namastê! Silvia, estamos no mesmo time, e com muito orgulho, resgatando o real sentido de ser mulher. Um abraço sincero a todas, com gratidão.
14/04/2009 às 21:21Ana Paula Maciel Vilela - diz:Oi, GiulianaSou fisioterapeuta, trabalho com óleos essenciais e fiz especialização em plantas medicinais.Vivi muito tempo esse dilema de trabalhar menos e me dedicar ao que gosto e sentia uma culpa enorme por querer ficar em casa. Depois de fazer 40 e algumas sessões de terapia, consegui estruturar melhor meu dia a dia, trabalho só com as áreas que mais gosto, fico em casa, bordo, mexo com minhas plantas e, por incrível que pareça, também estou aprendendo a tocar violão! Que bom que não estou sozinha nesta!!Abraço