Gaiatos e Gaianos
24/02/2009 às 17:38
Quanto vale o nosso trabalho?


Foi quase um retiro zen. Um lugar lindo, um amanhecer deslumbrante, acomodações simples (em barraca de camping), um pouco de meditação à noite e muito trabalho que exigia paciência, humildade e concentração. O que eu fiz no feriado? Fui ser pedreira na minha casa na ecovila Clareando, em Piracaia, próximo a Joanópolis.

Como assim pedreira? Explico. Desde o início do projeto, nosso “plano de casal” era construir o máximo possível com as próprias mãos, com técnicas de bioconstrução e permacultura. As etapas fundamentais para garantir a segurança da estrutura receberam ajuda profissional. Outras, acreditem, não são tão complicadas assim ou sequer são conhecidas pelo pessoal local que costuma ser contratado como mão-de-obra.

Em diferentes momentos, então, experimentamos levantar paredes de terra (cob e pau-a-pique), fizemos mutirão para cobrir o telhado verde com terra, testamos os tijolos de solo-cimento, plantamos árvores e alimentos no terreno, limpamos o canteiro de obra etc.

Nesse feriado foi a vez de dar acabamento em cinco paredes de solo-cimento. Com um saco plástico furado – que funcionava como aquele instrumento do confeiteiro decorando bolo com chantilly – passamos a massa do rejunte fieira por fieira de tijolo. A massa, misturada no carrinho-de-mão para evitar desperdícios, seguiu a composição dos tijolos e levou 95% de terra (com um pouquinho de areia) e 5% de cimento.

Depois de secas, usamos uma trincha para passar o impermeabilizante recomendado pelo fabricante para proteger as paredes externas da ação do sol e da chuva.

Em outras duas paredes quisemos dar uma corzinha. Para isso, preparamos uma tinta à base de terra (terra, areia, cal, um tiquinho de cimento para aderir melhor no tijolo e pó xadrez vermelho). Com uma luva, aplicamos a mistura e depois impermeabilizamos.

Pronto. A fachada da casa está praticamente pronta. Só falta finalizar o encontro entre as duas águas do telhado (local onde estão os garrafões de vinho que dão um efeito iluminado de vitral dentro de casa – tem post sobre a técnica).

Não podia deixar de mencionar a presença e ajuda inesperada do Jorge, um arquiteto que está pesquisando ecovilas para escrever a monografia de sua pós em gestão ambiental. Ele deixou um comentário aqui no blog semanas atrás e pediu que eu entrasse em contato com ele. Nos comunicamos por e-mail e ele foi até lá para conversarmos um pouco – e acabou, por livre iniciativa, é bom dizer, ajudando no trabalho com as paredes.

Essa experiência de botar a mão na massa me faz pensar uma série de coisas. A primeira delas: é impressionante como nos habituamos a acreditar que nós não sabemos fazer nada. Pudera. Há séculos trocamos trabalho por dinheiro, para depois trocarmos esse mesmo dinheiro por ...trabalho.

Não é esquisito? Veja só: muitos de nós passam o mês todo ralando no escritório para dar conta do pagamento da faxineira, da babá, do jardineiro, do pintor, do encanador, da comida pré-pronta do supermercado, do pão-nosso-de-cada-dia comprado na padaria etc. etc. etc.

Então, pensando de maneira lógica, se eu consigo dar conta dessas tarefas sem ter que pagar pela terceirização do trabalho, isso significa que eu preciso de menos dinheiro para viver e, consequentemente, que posso também trabalhar menos fora de casa, certo? Sim, certo!

Isso pode soar, num primeiro momento, um tanto arrogante. Mas, na verdade, é exatamente o oposto disso: uma tentativa de descer do salto-alto-classe-média e encarar tarefas ainda consideradas “menores” por muita gente que acha que o diploma universitário deveria, ao menos, “poupá-lo do trabalho pesado dos menos instruídos”. Nome disso, para mim: preconceito.

Cuidar da vida doméstica sem o apoio do staff de empregados é também um sinal de autonomia e libertação das regras do mainstream. Trabalhando menos em troca de um salário, é possível trabalhar mais para você e para sua família, aprender sempre uma habilidade nova, valorizar toda forma de trabalho, depender menos do mercado de trabalho e, acima de tudo, ter vida própria de verdade.

A ética da permacultura fala muito sobre essa autonomia, que nesse caso implica também uma maior sustentabilidade familiar, já que estar mais presente em casa cria as condições para o plantio de parte dos alimentos consumidos no dia-a-dia, além do desenvolvimento de sistemas mais ecológicos para o uso da água e da energia, por exemplo.

Quem vive na cidade ou não é muito do trato com a terra também pode se beneficiar com a redução da labuta remunerada. Aliás, na Europa é cada vez maior o número de jovens e adultos que estão reduzindo a jornada de trabalho porque querem mais tempo para outras coisas que lhes são importantes, como acompanhar o crescimento dos filhos, ter mais momentos de lazer, cozinhar em casa e dedicar-se a uma atividade artística ou artesanal.

Penso muito nisso quando planejo minha saída de São Paulo para a ecovila. Já sei que precisarei de muito menos dinheiro para viver bem por lá – o que significa que poderei trabalhar menos em troca de dinheiro. E estou, aos poucos, soltando os laços que me mantêm dependente da metrópole. E você? O que pensa de tudo isso?






Comentários

24/02/2009 às 00:00
Jorge - diz:
Oi, Giuliana, tudo bem? Muuuitíssimo obrigado pela acolhida, vocês foram maravilhosos, o Edilson se mostrou um ecovileiro bastante atuante e decidido, até a Sofia (a cachorra fiel e protetora da Giuliana) me recebeu na bôa. Tive uma oportunidade ímpar de presenciar o que é uma ecovila, as famílias se reunindo, um vizinho chamando p/o almoço, o carro sendo oferecido a outro vizinho p/o transporte, ou seja, atitudes que não se vêm por aqui. A conversa c/vocês foi pra lá de produtiva, é claro que teríamos ainda muito por falar – e eu pra perguntar, mas o que eu menos queria era atrapalhar. Falando nisso, ajudar com o trabalho nas paredes foi uma satisfação, podem contar comigo p/futuras empreitadas. Quanto aos possíveis erros + acertos que vocês comentaram, acho que o resultado que eu encontrei foi, Felicidade! Parabéns!!! Ecoabraço.

25/02/2009 às 00:00
Olivia - diz:
Giuliana, sempre adoro os seus relatos. Passei o carnaval em casa num movimento contrário ao seu: o de desconstruir. Explico: passei limpando aquelas partes da casa q sempre ficam bagunçadas, cheias de coisas que não nos servem mais. Foi um trabalho solitário e cansativo, mas tb foi muito bom pra perceber o quanto nós nos apegamos a coisas q já nem têm tanto valor. E que se quiser, tenho tudo que necessito pra arrumar a minha casa sem precisar pagar outras pessoas. A gente dá muita importância ao ter, sem contar q o que conta realmente é o ser e o estar junto de outras pessoas. E é sempre gratificante perceber q não estamos sozinhos nesse mundo, que há outros que pensam como a gente, ainda que estejam do outro lado da net. Eu queria pedir um favor. Vc por um caso conhece algum manual dessas técnicas de contrução? Beijos

26/02/2009 às 00:00
Giuliana Capello - diz:
Oi, Jorge, oi, Olivia, mais uma vez obrigada pela visita, Jorge. Espero que seu trabalho seja um sucesso. Sempre que quiser, venha nos visitar. Abraço pra vc. Olivia, agradeço pelo seu relato. Sabe, essa história de arrumação valeria um post aqui no blog. Você sabia que nos EUA 99% de tudo o que entra numa casa é descartado em menos de 6 meses? Não é um absurdo?!? Pois é, arrumar a bagunça é um passo importante para a tomada de consciência de que é possível viver bem com menos e, ainda, que aquilo que não nos serve mais pode ser útil a outras pessoas. Sobre ter uma dica de manual de técnicas de construção, indico a leitura do "Manual do Arquiteto Descalço", do Johan van Lengen. Tem detalhes no site www.tibarose.com. Aproveite a internet também para dar uma busca em institutos de permacultura no Brasil: www.ecocentro.org; www.ipemabrasil.org.br. E vamos trocando figurinhas, ok? Será um prazer ajudá-la. Um abraço, Giuliana

27/02/2009 às 00:00
Fabiano - diz:
Excelente artigo, Giuliana! É incrivel pensar que isso une a diminuição do consumismo(e da sobra dele, q é o preocupante) com a reduçao do trabalho. É nesta direção que devem ser nossas atitudes

27/02/2009 às 00:00
Olivia - diz:
Valeu Giuliana, vou me informar. beijos

02/03/2009 às 00:00
Karen - diz:
Oi! Cheguei aqui através da newsletter Planeta Sustentável, e essa 'onda' de consumo responsável e construção consciente já faz parte do meu interesse há muito tempo. Gostei do blog e vou assinar via RSS. :) Uma dica para a Olivia e quem mais estiver a fim: o site flylady.net é uma mão na roda para aprender a 'desapegar' daquilo que não nos serve mais, em tudo aquilo que se refere à administração de uma casa: limpeza, organização, compras, refeições, etc. É em inglês, mas nada que o real interesse (e a ajuda de um site de traduções tipo Google) não possa resolver. ;) Boa sorte a todos!

02/03/2009 às 00:00
Marcelo - diz:
Giuliana, já algum tempo venho acompanhando seu blog e as aventuras que envolvem a construção de sua casa. Decidi escrever pela primeira vez, pois para mim a maior riqueza do blog é proporcionar a interação entre pessoas que pensam da mesma forma. De que outra maneira o Jorge a teria achado? Sem falar nos comentário de sempre acrescentam algo novo. Fico entusiasmado com os ideais da Ecovila, o modelo egoísta, perdulário e irresponsável dos EUA não pode ser exemplo para um país tão carente como o Brasil. Tenho uma sobrinha que está com 10 meses e fico pensando como será o planeta que ela irá herdar de nós? Se cada um tiver em mente o poder transformador de seus atos e que com um pouco de força de vontade poderemos fazer grandes mudanças, ainda haverá esperança. Seu blog é um luz na escuridão que o consumo desenfreado nos colocou.

03/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Oi, Fabiano, oi Karen, oi Marcelo, obrigada pelos comentários. É muito bacana quando vocês me ajudam a divulgar boas ideias e práticas por aqui. Karen, vamos trocar informações sobre construção consciente? Marcelo, seja bem-vindo. É muito bom receber o retorno de quem acompanha o blog. Se tiver sugestões, mande pra mim, ok? Um abraço a todos, e vamos nessa que o planeta não pode esperar!

04/03/2009 às 00:00
eliana severo da costa - diz:
Através de um email li a respeito da sua jornada não consumista... parabéns compartilho com vocês a idéia e a postura .Gostaria de saber mais sobre as Ecovilas , onde posso obter informações ? Abraço , Li

07/03/2009 às 00:00
SAM - diz:
Olá Giuliana, tenho lido seu blog para pegar algumas de suas dicas e indicado para conhecidos. Já estive aí falando com o Hiroshi e senti o ótimo relacionamento entre as pessoas e a interação com a natureza. Ainda não conseguiria me desprender de alguns confortos, mas tento conciliar e equilibrar algumas atitudes diárias no sentido de buscar uma vida mais saudável. Pretendo morar na região (em Atibaia), em um condomínio, segundo o Hiroshi, lugar onde as pessoas se isolam. Ele tem razão. Ocorre que minha etapa de romper algumas amarras ainda é anterior ao de vocês, mas já consegui alguns avanços como sair de uma empresa grande após 23 anos. Fiquei um ano cuidando e acompanhando a evolução de minha filhinha que irá completar 2 no fim do mês. No carnaval comecei em um novo trabalho ganhando menos, mas negociei minha ida ao escritório apenas de terça a quinta-feira. O próximo passo é fazer uma reforma na casinha de madeira. Quero que seja a mais sustentável que eu consiga realizar. Por isso, agradeço as dicas que você deixa no blog. Abraços e vamos em frente seguindo com nossas convicções. SAM

09/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:
Oi, Eliana, oi SAM, obrigada por postarem comentários. Eles sempre me ajudam a dosar os temas por aqui. Eliana, há muitas fontes sobre ecovilas para você pesquisar. Mas recomendo que visite o site da Rede Mundial de Ecovilas (gen.ecovillage.org) e o da Rede Brasileira de Ecovilas (www.ecovilasbrasil.org). Estes endereços têm vários links para outras fontes interessantes de consulta, ok? E se quiser, também vale muito a pena entrar em sites que trazem as estações de permacultura no Brasil (www.permear.org.br). Vá fundo nessa que você vai gostar muito, tenho certeza. E se precisar de alguma dica específica sobre o tema, pode contar comigo, ok? SAM, será que já nos cruzamos lá na ecovila ou na casa do Hiroshi? Queria lhe dizer que você está certíssimo, dando um passo de cada vez. É assim mesmo. Pelo seu relato, acho que estás no caminho certo. Toda sorte do mundo para você. Um abraço grande para os dois.

14/03/2009 às 00:00
SAM - diz:Oi Giuliana, Estive 2 vezes na ecovila, a segunda foi muito rápida. Creio que não tivemos a oportunidade de nos encontrar. Mas qualquer dia destes apareço para aprender um pouco mais. Você sente que seu exemplo é capaz de causar um movimento transformador nas pessoas a ponto de fazê-las mudar a forma de pensar e agir a favor de um estilo de vida mais sustentável? Abs, SAM

16/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:Oi, SAM, será um prazer poder conhecê-lo pessoalmente. Os relatos que faço neste blog não têm a pretensão de transformar as pessoas, mas talvez de semear certa inspiração para uma mudança, mostrando que é possível, aos poucos, criar condições para tal. Hoje, é muito comum encontrar gente reclamando da falta de tempo, da correria desmedida, da ansiedade. Por isso, acredito que aqui muitas têm a chance de se encontrar e trocar experiências que podem, sim, ajudá-las a dar mais um passo, e depois outro, e mais outro. Quando estamos juntos, apoiando uns aos outros, a transformação ocorre mais naturalmente, com a suavidade das coisas que chegam para ficar... Um abraço,

22/03/2009 às 00:00
SAM - diz:Ficarei muito feliz em conhecê-la pessoalmente. Concordo que o exemplo é uma ótima forma de inspiração e a união de esforços tem capacidade de promover e realizar as transformações necessárias para melhorar nosso planeta. Pretendo ir ao evento deste dia 25 do Programa Diálogos com as Ecovilas com a palestra A Federação de Damanhur, com Victor e Rosana Ades. Se estiver por lá, podemos trocar algumas palavras. Abs, SAM

24/03/2009 às 00:00
Giuliana - diz:SAM, oi, tudo bem? Estarei no evento também. Quem sabe não nos encontramos por lá? O Victor e a Rosana são da Ecovila Clareando, sabia? Um abraço,

02/04/2009 às 19:17
Vânia - diz:Interessante seu artigo e sua idéias, concordo plenamente com elas. Porém mais que isso, elas me lembraram minha mãe e tudo que aprendi com ela: cozinhar, bordar, costurar, crochet, pintar, consertar eletrodomesticos...Princípio número um: reformar e aproveitar tudo, tudo vira outra coisa, a roupa manchou - faça um bordado em cima, sobrou legume do almoço faça bolinho de legume no jantar, rsrs e assim por diante. O que penso é que depois de dar muitas voltas e experimentar muitas novidades a gente começa a recuperar alguns valores do passado. Gostei do sue blog, voltarei mais vezes. Um abraço de Minas Gerais... :)

06/04/2009 às 10:13
Giuliana - diz:Vânia, adorei seu comentário e as dicas tiradas da memória. São coisas simples, muitas delas perdidas no tempo, mas cujo resgate faz bem para a alma. Além disso, é também uma forma de ficar em paz com nossa mãe, nossa avó, nossos ancestrais. Obrigada pelo abraço mineiro. Aí vai um paulista para você!

15/04/2009 às 16:33
SAM - diz:Olá Giuliana, tudo bem e você? Estive no evento, mas cheguei quando estava para começar e tive que sair um pouco antes do final. Achei interessante a apresentação. Deu para se ter uma noção sobre como funciona uma ecovila fora do país. Achei interessante o post sobre a casa ter conceitos de ecovila, acho que é isto que estou tentando fazer. Tenho trabalhado muito estes dias, mas sempre que possível passarei pelo blog. Acho que ele traz inspiração. Abraços, SAM.

18/10/2009 às 18:42
Eloi - diz:Olá Giuliana. Realmente, esso é uma coisa muito visivel,as pessoas vivem para trabalhar, comprar, se endividar, trabalhar mais para pagar as dívidas , comprar e trabalhar mais ainda. Cadê a sua vida e aonde isso vai chegar? Conheço muito bem o que é dar um tempo no trabalho, e pincipalmente qd é jovem, seus colegas não conseguem entendercomopode deixar de ganhar aquela merreca do estágio, mas que já virou vital para o vício do consumo que osdetem Até mais



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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