Gaiatos e Gaianos
10/02/2009 às 13:32
Meus vizinhos, minha família


Já morei em prédios enormes, cheios de estranhos que dividiam o elevador comigo e não eram meus vizinhos. O Aurélio (sempre tão consultado) que me perdoe mas, para mim, vizinho significa mais do que “aquele que mora perto de nós”. Vizinho de verdade está perto de nós, tem aquele olhar discreto de quem cuida sem ninguém precisar pedir. Ele olha a sua casa quando você está viajando, rega as plantas da sua calçada e guarda as correspondências nos dias de chuva ou de férias.

Posso dizer que tenho sorte com vizinhos. Em São Paulo, moro numa vila de oito casas. As crianças brincam no pátio interno à vontade e correm de uma casa a outra, sem fronteiras. As duas irmãs bem-prá-lá-dos-oitenta moram sozinhas, mas recebem os cuidados diários de uma vizinha, que ajuda na cozinha e nas compras no mercadinho da esquina. (Eu também já levei uma delas ao médico algumas vezes. E ganhei presentinhos dias depois, em sinal de agradecimento.) Tem ainda o casal mais novo na vila, que convida todo mundo até para a ceia de ano novo. Ah, sim, e tem também os empréstimos engraçados: a xícara de açúcar para o bolo que já está na batedeira, a furadeira para o reparo da prateleira no domingão, o secador de cabelo que quebrou justo hoje e outras peripécias que só acontecem porque a relação se sustenta na reciprocidade.

Agora imagine isso tudo aumentado exponencialmente. É mais ou menos o que acontece lá na ecovila. No último fim de semana, fizemos um mutirão para levantar algumas paredes da casa do caseiro com tijolo de solo-cimento. Éramos umas vinte pessoas, aproximadamente. E como a casa comunitária está em reforma, quase todos chegaram sem saber ao certo onde iriam dormir, preparar as refeições, tomar banho etc. Mas isso não era um problema, porque sabíamos que poderíamos contar com os vizinhos.

Aliás, tudo começa com as caronas. Dificilmente alguém chega sozinho. Tem sempre uma combinação de quem vai com quem, em que carro etc. e tal. Eu mesma fui com os amigos Laura e José Carlos - que bancou o motorista no carro dela, porque ela não gosta muito de  dirigir.

Chegando lá, as pessoas foram naturalmente se ajeitando aqui e acolá. Fui acolhida na casa do Luiz e da Sônia, pioneiros na ecovila e pais das primeiras crianças a morar na Clareando: Santiago e Raíssa.

No sábado, almocei com eles (e mais umas dez ou quinze pessoas) e jantei na casa do Hiroshi, também em grupo. Para as refeições, cada um levou um prato feito em casa, colheu verduras da horta, colaborou no preparo dos alimentos ou na lavagem da louça. À noite, teve roda de conversa na casa da Marília e do Sérgio, que voltaram dias atrás de um retiro em um ashram na Índia e queriam contar um pouco da experiência.

O domingão repetiu a dose. Tinha almoço na casa da Sônia, da Suzy, do Hiroshi e da Marília. Dava até para escolher o cardápio... Lá é sempre assim. E cada vez mais. Esqueceu toalha de banho? Não tem problema. Gostou do livro na prateleira? Pode levar emprestado. Quer a receita da torta de legumes? Arruma um papel que eu te passo. Quer praticar um pouco de do-in antes do café da manhã? Junte-se a mim. Faltaram pregos na sua obra? Pega lá na minha casa. São tantas as trocas, tantos os conhecimentos ofertados que a vida simples ganha uma fartura incrível.

É por essas e outras que sou extremamente grata a todos os meus vizinhos. E acho que quando conseguirmos “amar a humanidade” começando pelos nossos vizinhos, esse mundo (porque não existe outro) será mais pacífico, gostoso e divertido.






Comentários

11/02/2009 às 12:05
lucineide - diz:
lucineide - diz:
Ao encontrar teus artigos,aprendi um pouco mais. Tenho 60 anos, sou advogada militante. Já estou fazendo o depósito p/compostura. Adorei o presente assunto e os outros que já os li todos. Estou passando para meus amigos a mensagem. Meu jardim esta ficando lindo. Minha vida esta tomando mmais sentido pela mãe terra. Agradeço.

11/02/2009 às 15:14
Nina - diz:
Oi Giuliana, estou fazendo uma reportagem sobre mercados sociais e gostaria de conversar com vc para saber se as ecovilas também fazem feiras de troca. Por favor, entre em contato comigo.Uma abraço,Nina

17/02/2009 às 08:59
MARLENE GOMES DE ABREU - diz:
nina ou lucineide sei que voce tem sitio ou fazenda gostaria que vc arumasse um emprego para meu filho como caseiro,ele tem 29 anos sabe cozinhar muito bem o nome dele e THIAGO agradeco .mande mail abraco marlene Rio de Janeiro.

26/02/2009 às 09:59
Giuliana Capello - diz:
Lucineide, Nina e Marlene, obrigada pelos comentários. Lucineide, fico muito feliz por compartilhar um pouco da sua história de aproximação com a mãe Terra. Nina, já nos comunicamos por e-mail e espero tê-la ajudado com as indicações para a sua reportagem. Avise-me quando for publicada, ok? Marlene, desejo muita sorte ao seu filho. Que ele consiga logo um trabalho que o faça crescer, aprender sempre mais e viver um pouquinho melhor a cada dia. Um abraço a todas vocês.

02/03/2009 às 12:47
Gabriela - diz:
Olá, Giuliana! Parabéns pelos artigos, sempre tãos inspiradores! Estou cada vez mais interessada em ecovilas! Queria aproveitar para pedir, se possível, indicações de bibliografia a respeito. Um abraço, Gabriela

03/03/2009 às 15:47
Giuliana - diz:
Oi, Gabriela, bem-vinda por aqui. Obrigada pelo retorno afetuoso. Para você que está interessada em ecovilas, um belo começo pode ser uma consulta ao site da Rede Mundial de Ecovilas, ou GEN, na sigla em inglês: http://gen.ecovillage.org. Lá tem uma bibliografia bastante ampla sobre o tema. E você também vai encontrar textos bem interessantes na biblioteca da Rede Brasileira de Ecovilas: http://ecovilas.nexcess.net/. Boa sorte! Um abraço a todos,



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Gaiatos e
Gaianos


Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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