
Posso dizer que tenho sorte com vizinhos. Em São Paulo, moro numa vila de oito casas. As crianças brincam no pátio interno à vontade e correm de uma casa a outra, sem fronteiras. As duas irmãs bem-prá-lá-dos-oitenta moram sozinhas, mas recebem os cuidados diários de uma vizinha, que ajuda na cozinha e nas compras no mercadinho da esquina. (Eu também já levei uma delas ao médico algumas vezes. E ganhei presentinhos dias depois, em sinal de agradecimento.) Tem ainda o casal mais novo na vila, que convida todo mundo até para a ceia de ano novo. Ah, sim, e tem também os empréstimos engraçados: a xícara de açúcar para o bolo que já está na batedeira, a furadeira para o reparo da prateleira no domingão, o secador de cabelo que quebrou justo hoje e outras peripécias que só acontecem porque a relação se sustenta na reciprocidade.
Agora imagine isso tudo aumentado exponencialmente. É mais ou menos o que acontece lá na ecovila. No último fim de semana, fizemos um mutirão para levantar algumas paredes da casa do caseiro com tijolo de solo-cimento. Éramos umas vinte pessoas, aproximadamente. E como a casa comunitária está em reforma, quase todos chegaram sem saber ao certo onde iriam dormir, preparar as refeições, tomar banho etc. Mas isso não era um problema, porque sabíamos que poderíamos contar com os vizinhos.
Aliás, tudo começa com as caronas. Dificilmente alguém chega sozinho. Tem sempre uma combinação de quem vai com quem, em que carro etc. e tal. Eu mesma fui com os amigos Laura e José Carlos - que bancou o motorista no carro dela, porque ela não gosta muito de dirigir.
Chegando lá, as pessoas foram naturalmente se ajeitando aqui e acolá. Fui acolhida na casa do Luiz e da Sônia, pioneiros na ecovila e pais das primeiras crianças a morar na Clareando: Santiago e Raíssa.
No sábado, almocei com eles (e mais umas dez ou quinze pessoas) e jantei na casa do Hiroshi, também em grupo. Para as refeições, cada um levou um prato feito em casa, colheu verduras da horta, colaborou no preparo dos alimentos ou na lavagem da louça. À noite, teve roda de conversa na casa da Marília e do Sérgio, que voltaram dias atrás de um retiro em um ashram na Índia e queriam contar um pouco da experiência.
O domingão repetiu a dose. Tinha almoço na casa da Sônia, da Suzy, do Hiroshi e da Marília. Dava até para escolher o cardápio... Lá é sempre assim. E cada vez mais. Esqueceu toalha de banho? Não tem problema. Gostou do livro na prateleira? Pode levar emprestado. Quer a receita da torta de legumes? Arruma um papel que eu te passo. Quer praticar um pouco de do-in antes do café da manhã? Junte-se a mim. Faltaram pregos na sua obra? Pega lá na minha casa. São tantas as trocas, tantos os conhecimentos ofertados que a vida simples ganha uma fartura incrível.
É por essas e outras que sou extremamente grata a todos os meus vizinhos. E acho que quando conseguirmos “amar a humanidade” começando pelos nossos vizinhos, esse mundo (porque não existe outro) será mais pacífico, gostoso e divertido.