A insustentável mão-de-obra

Hoje vou fazer um desabafo acerca de um problema que há tempos me incomoda – e muito. Não há nada mais chato, aborrecedor e desestimulante do que ter que lidar com profissionais da construção que não estão nem um pingo preocupados (ou sequer interessados) em aprender e seguir princípios básicos de uma obra mais ecológica. Eis aí um ponto-chave que tem causado muitos transtornos na ecovila Clareando e também na obra da minha casa: a falta de mão-de-obra qualificada e/ou disposta a se qualificar.
Parênteses: todas as pessoas que adquirem um lote na ecovila sabem que terão de construir respeitando o que diz o contrato de compra do terreno. O documento traz diretrizes mínimas e obrigatórias que devem ser seguidas por todos e, preferencialmente, extrapoladas sempre que possível. Está lá escrito que as construções devem fazer captação de água de chuva, ter tratamento ecológico do esgoto e aquecimento solar de água, além de buscar reduzir o uso de cimento e utilizar exclusivamente madeiras de origem certificada, de demolição ou reflorestamento. Há ainda a proibição do uso de tubos hidráulicos de PVC (esse assunto renderia um outro post), já que o material tem sido questionado e até banido em alguns países da Europa por ser potencialmente nocivo ao solo, aos cursos d’água e mesmo à saúde humana. Fecha parênteses.
Pois bem. Pode parecer pouco, mas não é. Construir assim já seria, por si só, um desafio e tanto. Basta lembrar que quando se entra numa loja de material de construção não se vê praticamente nada disso – e nenhum vendedor sabe ajudar muito também. É você que tem que pesquisar na internet, ir atrás de fornecedores, aprender como se usa o material e, acredite, chegar na obra e explicar para o pedreiro o que é que ele vai fazer com aquilo.
E isso não é tudo. Para piorar ainda mais, acrescente ao caldeirão pedreiros, marceneiros, arquitetos, engenheiros e mestres-de-obra pouco interessados nessas questões e você terá como resultado... uma grande enxaqueca, uma vontade louca de desistir e uma terrível certeza: não há nada mais insustentável do que a atual (i)lógica da construção civil.
O que fazer, então?!?!?! Respirar fundo, segurar a vontade de mandar explodir tudo e pedir aos céus, deuses e cientistas que nos deem paciência e sabedoria para lidar com as mais inacreditáveis situações. Ah, sim, eu incluiria também uma boa dose de fé e convicção de que não se trata de uma opção, mas da única maneira aceitável de se construir em tempos de aquecimento global, mudanças climáticas e crise financeira sem fronteiras.
Mudar a aparente ordem das coisas não tem nada de simples. É necessário encarar um batalhão inteiro de senões e poréns. Por isso, se você gosta do assunto e está pensando em construir, sugiro que estude muito, pesquise bastante, vá atrás de experiências que deram certo e, acima de tudo, deixe de lado os preconceitos. Você vai ouvir muitos pelo caminho: “material reciclado não presta”, “parede de terra dá barbeiro”, “banheiro compostável é nojento e anti-higiênico”, “não existe nada melhor do que PVC” e, o pior de todos, “assim não vai dar certo, moça”.
Esta última frase, direto da
top list dos pedreiros, é de chorar. Traduzindo em outras palavras, esse é o jeito que eles encontram para dizer “assim eu não sei fazer, moça, e também não estou afim de aprender”. Basta trocar o cimento CPII (o mais comum) pelo cimento CPIII - que antes de sumir do mapa (taí outro bom tema para este blog) era a melhor opção porque leva escória de siderúrgica e, assim, consome muito menos energia na produção - para o pessoal da obra entrar em colapso nervoso e reclamar até conseguir fazer a sua cabeça. Ou, como já aconteceu lá em casa, simplesmente abandonar a obra e ir atrás de outra em que ele possa usar a velha fórmula tijolo + ferro + cimento = muito entulho e uma obra meia-boca e insustentável.
Ok, desabafei. Um pouco, pelo menos. Pois poderia estender linhas e mais linhas contando sobre a dificuldade de recrutar mão-de-obra para a ecovila (porque os pedreiros de Piracaia já sabem que na Clareado as regras são outras e, por isso, não têm vontade alguma de trabalhar lá). Eu poderia também falar sobre a dificuldade de encontrar gente que saiba fazer tijolo de adobe ou erguer paredes de pau-a-pique. Ou ainda relatar o parto que é arrumar amigos para fazer um mutirão – muitos ainda acham um total despropósito “trabalhar de graça numa propriedade privada”...
Enfim, sem falar na história de construir em outra cidade, de ter uma estrada de terra de 7 km no caminho, de estarmos no período de chuvas e em pleno surto de mudanças climáticas e, como se não bastasse, de ainda ter que ouvir críticas de visitantes que chegam à ecovila cheios de verdades teóricas, dizendo que se eu usasse uma outra técnica minha casa seria mais ecológica. (Não tenho problemas em receber críticas, mas acho que tudo pode ter um jeito mais simpático e menos presunçoso de ser dito...)
Ufa! Dá para dormir com um barulho desses?!? Ainda assim e com tudo isso, de vez em quando eu e meu companheiro conseguimos sentar no mezanino da casa, no meio da obra, e ficar imaginando nós dois morando naquele lugar, talvez com um bebê abençoando nossas vidas, os amigos vizinhos chegando sem avisar para jantar conosco, ao redor do fogão à lenha, olhando a paisagem maravilhosa que nos abraça por todos os lados. Nesses momentos, recarregamos nossas baterias e adquirimos garra e vontade para o que ainda está por vir, na esperança de que em breve poderemos dizer que valeu a pena cada tropeço, cada pedra no caminho, cada cara fechada de pedreiros. Aí, sim, acho até que conseguirei rir de tudo isso e dar uma força aos amigos que estiverem em meio ao caos de uma obra ecológica. Mas só quando esse dia chegar - não hoje, infelizmente.
Foto: Eu no telhado verde da casa, depois de pintar o cimento usado para estruturar as garrafas de vidro na parede (leia
post sobre a técnica, que mostra o efeito interessante que se cria na parte interna). Com a ajuda das amigas Aluá e Elioenai, aplicamos uma tinta natural, à base de terra e cal, para dar um acabamento mais agradável à fachada. A tinta que escorreu nas garrafas foi facilmente retirada com uma esponjinha de aço. Fizemos o trabalho em menos de uma manhã, sorrindo, cantando e (ufa!) sem pedreiros para botar barreira em tudo... Não somos
experts no assunto mas, ao menos, estamos afim de aprender um pouco...
Comentários
16/03/2009 às 00:00Doug - diz:Olá, Giuliana.
Sonho em fazer minha também... e já fiz outras obras na vida e os problemas são os mesmos...
Deu vontade de te abraçar e te falar "relax" tudo dá certo no final e vc daqui a pouco vai estar morando ai, com teu companheiro e quem sabe com teu filhotinho abençoando mesmo a tua vida... Não desiste não... Conte com a ajuda dos amigos! (amigo = gente que gosta de você de graça)
Que Deus te abençoe na tua empreitada.
Bjos, Doug.
20/03/2009 às 00:00Giuliana - diz:Oi, Doug, obrigada pela força. Adorei sua definição de amigo... Faço votos de que você possa em breve realizar seu sonho também. Sinceramente, e com um abraço fraterno.
19/08/2009 às 08:46cristiano - diz:Oi Giuliana,Legal a sua escolha e como a vida e complexa. Ninguem gosta de mudar e pensar fora da caixa, tenho uma pizzaria no interior de minas e luto para ela ser mais sustentável e foi dificil demais. Não quiseram reaproveitar madeira de demolição, telhas de uma antiga casa, enfim sei bem a sua luta contra as "cabeças pequenas". Não sei se foi seu caso, mas tenho 36anos e meu pai desde quando eu era criança me ensinou que devemos preservar a Natureza, isso antes de ter essa "onda" que é mais superficial que tudo. Pena que estou longe senão ia dar uma força para vcs ai.