De que é feita a minha casa?

A humanidade é mesmo dada a monoculturas. Sinto isso cada vez que me perguntam com que material estou construindo minha casa na ecovila. Como se a resposta correta tivesse sempre que se referir a um único elemento: tijolo, bambu, madeira, pedra, barro. Quem foi que disse que uma casa tem de ser feita com apenas um tipo de material? Quem foi que inventou que não dá para fazer de outro jeito? E quem foi que determinou que as janelas têm de ser todas iguais, que tudo precisa ser simetricamente instalado e que ninguém conhece melhor uma obra do que um arquiteto ou engenheiro? Afinal, quem foi que enfiou isso tudo na nossa cabeça?
Olha, de uma coisa eu tenho certeza: essa história de tentar construir de um jeito diferente – quero dizer, mais ecológico - faz a gente, na verdade, desconstruir muitas certezas e verdades. Tudo é muito artesanal e, por isso, cada novo passo requer soluções criativas, inventivas, desafiadoras.
Vou contar alguns detalhes para você entender do que estou falando. Até o momento, minha casa tem paredes de pedra, de tijolo de solo-cimento, de pau-a-pique e de COB (técnica que usa terra, areia, palha, serragem e água). Nem o telhado escapou: metade leva telha cerâmica, metade é verde - feito com estrutura de madeira, impermeabilização, terra e grama. A fachada que é vista da rua tem três pequenas janelas (bem diferentes entre si) e paredes de garrafa (veja a foto no post anterior!). O painel de vidro que dá vista para as montanhas é todo irregular, cada um de um tamanho. E o melhor de tudo: na atual etapa da obra, o mestre-de-obra é agrônomo!!!! Sério! Não é piada, não!
E por que tanta coisa esquisita? Bem, porque queremos construir com o mínimo impacto possível para o planeta - e para o meu bolso. Para o planeta, porque vale a pena lembrar que a construção civil é responsável hoje pelo consumo de 40% dos recursos naturais usados pelo homem e por 40% de toda a energia consumida na Terra. Diminuir a pegada da construção é dever de todos nós. Quanto ao meu bolso (e do meu companheiro), é preciso dizer uma coisa: se queremos construir de um jeito mais sustentável, nossa casa não pode parecer privilégio de gente abastada. É preciso custar tanto quanto ou, de preferência, menos do que uma casa convencional – ou não haverá estímulo para a disseminação de práticas desse tipo.
Com esses princípios em mente, o resto foi acontecendo naturalmente. O mosaico de materiais é resultado da vontade de aproveitar ao máximo os materiais disponíveis localmente, para diminuir o peso ambiental e econômico do transporte de materiais fabricados bem longe da nossa obra. O mesmo vale para a parede de garrafas, compradas num depósito da cidade, para os vidros usados (adquiridos numa loja especializada), para as janelas e portas de demolição etc. etc. etc.
Isso tudo provoca uma inversão na maneira de projetar a casa. Não saímos de casa em busca de uma janela de madeira assim ou assado, mas de uma que caiba no vão que temos disponível no quarto, por exemplo. O tamanho máximo dos vidros é definido pela capacidade da caçamba do carro, para evitar o custo do frete.
Bom, e o agrônomo no meio disso tudo? Um capítulo à parte, esse é o nosso grande trunfo. O Ângelo Negri passou uma boa temporada no Tibá, Instituto de Tecnologia Intuitiva e Bioarquitetura, cujo mestre é ninguém menos que Johan van Lengen, autor do Manual do Arquiteto Descalço. E sabe muuuito sobre construção ecológica – que, no fim, deve ser isso mesmo: multidisciplinar, artesanal, medida com a palma da mão e feita com o carinho dos amigos.
Foto: Lateral da casa, em pau-a-pique (ainda sendo rebocado) e tijolo de solo-cimento. Repare no pedacinho do telhado verde, com planta crescendo espontaneamente. Monocultura não tá com nada!
Comentários
13/01/2009 às 14:34Thiago Carrapatoso - diz:Giu, lendo o seu post lembrei de dois outros que eu escrevi para a Super que muito me intrigaram. O primeiro é sobre um cimento que captura CO2 [http://super.abril.com.br/blogs/planeta/139772_post.shtml], o que, teoricamente, melhoraria o impacto ecológico da construção civil. Mas o outro post, mais interessante, casa com tudo o que você descreveu. Quem foi que disse que só engenheiros e arquitetos têm o conhecimento necessário para se construir edificações? Foi com esta idéia na cabeça - e inspirado pelo conhecimento local das comunidades do Rhajastão, na Índia -, é que se criou a Barefoot College (ou universidade dos pés descalços) [http://super.abril.com.br/blogs/planeta/136075_post.shtml]. Para se ter uma idéia, a edificação onde acontecem as aulas foi construída por um morador local, que ganhou prêmios de arquitetura graças ao seu projeto. Muito mais interessante do que se tivesse contratado um especialista formal. Outros, Thiago
14/01/2009 às 11:21Olivia Frade Zambone - diz:Olha, eu acho q vc já disse tudo. Só quero comentar o seguinte: a sua casa está ficando linda! Parabéns!
11/02/2009 às 17:05alexandre mendes - diz:Parabéns,sensaciocal.Qual a previsão p/o custo da casa?Quanto tempo?