Gaiatos e Gaianos
02/12/2008 às 08:47
A alegria de viver em comunidade

Comunidade. Eita palavrinha “multiuso”. Para quem viveu os anos 60 e 70, comunidade quase sempre anda junto com a palavra alternativa, o que, para muita gente, significa: amor livre, drogas e muita Janis Joplin. De uns tempos prá cá, a mídia adotou a palavra como um eufemismo usado para nomear bairro pobre ou favela mesmo: “os moradores da comunidade de Heliópolis...” E tem ainda o pessoal que entende comunidade como aquele grupo de pessoas que têm fotos na mesma página daquele site de relacionamento, ou seja, teoricamente, têm interesses comuns entre si – ainda que seja algo do tipo “eu amo coca-cola”...

Seja como for, comunidade remete à idéia de encontro de pessoas. Na maioria das vezes, esse encontro ocorre voluntariamente: uma a uma, cada pessoa entra numa comunidade por escolha própria. Assim ocorre também nas ecovilas.

Nessas comunidades, há o que se costuma chamar de cola, aquilo que une as pessoas. A Ecovila Clareando, por exemplo, da qual faço parte, tem como cola a Agenda 21 (documento elaborado durante a Eco-92, com diretrizes para cuidar do planeta e viver melhor no século XXI). Estamos juntos naquele lugar tão especial porque queremos ser um laboratório da Agenda 21 e vivenciar, no dia-a-dia, o cuidado com a água, a terra e as pessoas, a gestão (e redução) dos resíduos, a integração social e as parcerias locais e globais.

Algumas ecovilas têm como cola a espiritualidade, geralmente centralizada na figura de um líder espiritual. Mas também existem ecovilas que se unem pela agricultura, pela arte, pela permacultura e pela educação. Em comum, elas têm o desejo – transformado em atitudes e ações – de construir um modelo de comunidade que respeita o planeta e trabalha com e não contra a Terra – daí o prefixo “eco”.

Dentro de uma comunidade ecológica, as pessoas experimentam diferentes maneiras de lidar com o que a Terra nos oferece: a água é sagrada e merece muito cuidado; a terra é adubada organicamente; os alimentos são produzidos comunitariamente; as casas levam materiais e técnicas construtivas menos agressivas ao ambiente e à saúde dos moradores; a energia deve vir de fontes renováveis e limpas etc. e tal.

De tudo isso, no entanto, o grande desafio não está em transformar a matriz energética, o jeito de construir, plantar ou usar a água. Não. Essa é a parte mais fácil, pode acreditar. O mais difícil é (re)aprender a viver em comunidade, compartilhando espaços, alimentos e sonhos com outras pessoas.

É por isso que toda ecovila procura, de tempos em tempos, fortalecer seus propósitos de comunhão. Muitas delas têm valores, visão, missão e acordos comunitários bem claros e definidos – e isso ajuda, por exemplo, na prevenção de conflitos, na manutenção da inspiração e do entusiasmo do grupo em momentos difíceis e na atração de novos integrantes realmente alinhados ao espírito da comunidade.

Bom, tudo isso para dizer que a Clareando está exatamente nesse processo de descoberta e fortalecimento de seus propósitos. Há duas semanas, realizamos um encontro para discutir e refletir sobre os nossos valores norteadores e nossa visão de ecovila.

Ainda sem um centro comunitário com espaço para reuniões e manifestações artísticas, tivemos que improvisar em quase tudo. Modéstia à parte, porém, o resultado foi excepcional. Uma das casas em construção, dos amigos Regina e Júlio, serviu de base para os encontros de trabalho. A Casa Clara, nosso apoio-de-todas-as-horas na ecovila abrigou alguns participantes (que se dividiram entre as casas prontas e semi-prontas) e também foi o local de todas as refeições. Para que os pais pudessem ficar tranqüilos, as crianças receberam atenção e carinho da Fufa, uma super monitora do Acampamento Franciscando, fundado pelo irmão Hiroshi.

Além de muito trabalho, tivemos também meditações diárias às seis da manhã e às 7 da noite, danças circulares, apresentação teatral das crianças, muita celebração e um sentimento de gratidão que preencheu todos os corações. Foi simplesmente lindo. De uma beleza singela, pura, livre.

Sou muito, mas muito grata mesmo pela chance que recebi de viver entre pessoas tão especiais e que me dão força para seguir adiante com meus sonhos e meus ideais. Obrigada, comunidade da Clareando!

p.s.: Do encontro, extraímos nossos valores e nossa visão, que compartilho com você, logo abaixo. Ah, e o vídeo que coloquei aqui contém fotos, música e imagens captadas durante o II Encontro da Visão, realizado entre os dias 21 e 23 de novembro. É para dar a você uma idéia do espírito de nossa ecovila e um gostinho de quero-saber-mais-sobre-essa-história...

Valores:
Amorosidade, autoconhecimento, alegria, cooperação, respeito, simplicidade, espiritualidade e arte-beleza.

Visão:
"Ser uma comunidade que incentiva o auto-desenvolvimento de seus integrantes e promove o florescimento de talentos, habilidades e saberes; cultivar o Sagrado, a amorosidade, a simplicidade, a cooperação mútua e com a Terra e celebrar a alegria de viver em grupo."







Comentários

03/12/2008 às 00:00
Marcelo - diz:
Fala! Que bom ler mais um texto vindo direto do seu coração! Só não gostei da expressão "prevenção de conflitos" pq acho que com a idéia de "previnir" vem uma intenção de que eles não existam (o que nunca será possível). Acredito que o caminho começa por compreender que o problema não é a existência dos conflitos, mas sim a maneira como usualmente lidamos com eles.

03/12/2008 às 00:00
Alfredo - diz:
:=)

03/12/2008 às 00:00
Marcelo - diz:
Fala! Que bom ler mais um texto vindo direto do seu coração! Só não gostei da expressão "prevenção de conflitos" pq acho que com a idéia de "previnir" vem uma intenção de que eles não existam (o que nunca será possível). Acredito que o caminho começa por compreender que o problema não é a existência dos conflitos, mas sim a maneira como usualmente lidamos com eles.

12/12/2008 às 00:00
ELISEU - diz:
ola!fiquei muito feliz de saber q existe uma comunidade assim.estou procurando um lugar para viver onde as pessoas nao esteja contaminadas pela a febre do ouro.sou amante da natureza e da simplicidade,implantei em minha vida habitos saudaveis q possam contribuir com o meio ambiemte como reciclagem, transporte nao poluente como a bicicleta e outras pequenas atitudes q fazem grandes diferença quando é feito em grupo.acho q este modelo de vida atual ja nao funciona mais , as pessoal se distanciaram, o dinheiro virou a razao de muita gente se justificar para destruir nosso planeta.gostaria de saber mais sobre esta comunidade q vive em harmonia e que tem conciencia q este é o seculo de mudanças de habitos.

13/12/2008 às 00:00
Giuliana Capello - diz:
Olá, Eliseu, grata por escrever. É sempre muito gostoso encontrar pessoas que estejam no mesmo caminho da mudança, da transformação, da revisão de hábitos e conceitos. Será um prazer recebê-lo na ecovila Clareando. No nosso site, você pode se cadastrar para receber informações de eventos abertos para visitantes, como os famosos piqueniques que promovemos mensalmente por lá. Dá uma espiadinha: www.clareando.com.br. Nos encontramos pelo caminho. Um abraço, Giuliana



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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