Gaiatos e Gaianos
11/11/2008 às 10:14
Mitos e vícios modernos


Fiquei muito satisfeita com a repercussão do último post, sobre a crise financeira, e resolvi seguir na mesma toada, mais uma vez. Só que agora convido você a parar para pensar em algumas coisas que são dadas como verdade (pela mídia, pelo marketing corporativo e até por nós mesmos), sem qualquer questionamento. Não se diz por aí que para transpormos essa crise ambiental teremos que “quebrar paradigmas”? Então! Que tal começar a questionar algumas “verdades”? Fiz aqui uma listinha de mitos que circulam na sociedade há anos ou centenas de anos:

Casa de pau-a-pique dá barbeiro?
Domingo passado, na ecovila Clareando, fizemos um belíssimo mutirão de pau-a-pique na minha casa (a foto acima mostra a parede que fizemos!). Se eu fosse contar todos que passaram por lá acho que daria umas 40 pessoas ou mais. Dessas, talvez a metade tenha feito a pergunta: “mas não vai dar barbeiro”?
Respire fundo um instante e me responda: de onde vem essa idéia? Você já parou para pensar nisso?

Um amigo arquiteto conta uma história interessante sobre esse mito urbano. Até o fim do século XIX, em São Paulo, as casas eram de pau-a-pique e taipa de pilão. Na época da expansão do café, muitos pátios (de tijolos de barro cozido) foram construídos para secar o grão e, por isso, surgiram várias olarias no estado. Só que a capacidade das olarias de fabricar tijolos era muito maior do que a demanda dos cafeicultores pelo material. Foi aí que começou uma mega campanha para a construção de casas de tijolos. E, para isso, foi preciso pegar pesado no marketing contra o pau-a-pique... Que Nizan Guanaes que nada! Esse marketeiro do tijolo é que foi bom mesmo!

O barbeiro se instala em frestas de paredes mal acabadas, ou seja, ele pode aparecer em casas de terra, de tijolo ou de concreto. O problema está no mal fechamento das paredes e não no material. Sorte nossa que, aos poucos, alguns arquitetos estão resgatando a técnica, muito mais ecológica e termicamente confortável do que os tão famosos tijolinhos. Prova disso é uma matéria publicada na revista Arquitetura & Construção, que traz uma casa belíssima feita de pau-a-pique – para também derrubar a idéia de que casa de terra é coisa de gente que parou no tempo ou não tem dinheiro para construir “coisa melhor”.

Roupa precisa ser passada a ferro?
Escrevi sobre isso aqui no blog. Há anos não passo minhas roupas e nenhum amigo (ou desconhecido) até hoje me parou para perguntar por que eu estava toda amarrotada... O que aconteceria se você parasse de passar suas roupas? Nada. Ou melhor, economizaria energia, dinheiro e tempo para investir em algo mais agradável.

PIB precisa sempre crescer?
Você leu o post da semana passada? Pois é, lá eu questiono essa história, citando o pesquisador André Gorz, autor da idéia de PIB negativo, como sendo uma evolução da nação em direção à autonomia das pessoas. Menos dinheiro circulando, para ele, seria uma mostra de mais autonomia do povo, que conseguiria suprir suas necessidades com produção própria de alimentos, confecção caseira de roupas, trocas de produtos e serviços etc.
Ah, e para quem ainda acha que o PIB é o melhor termômetro para medir a saúde da economia e o bem-estar da população, que tal investigar mais sobre o FIB do Butão? FIB é a sigla para Felicidade Interna Bruta, assunto que foi tema de um evento em São Paulo, dias atrás.

Casa sem cheiro de produto de limpeza é suja?
O mito aqui é o seguinte: se a casa não estiver cheirando a produto químico, os moradores não são lá pessoas que se importam muito com a higiene. Pode? Ninguém nem reclama quando fica com alergia a algum produto químico, desde que ele deixe a casa “bem limpinha”. Esses produtos são, muitas vezes, um veneno para a nossa saúde e ainda poluem o meio ambiente, especialmente a água. Será que a louça precisa ter cheiro de maçã verde ou de lima-limão para você achar que ela está limpinha?? Em casa eu uso sabão de coco para lavar louças e roupas e não sinto falta de cheirinhos pela casa. Ao contrário. Ah, e tem a receita do vinagre com água para limpar banheiros e pias. Diluído, o vinagre não deixa odores fortes nem químicos pela casa... Resumo da ópera: os produtos de limpeza que usamos em casa não precisam aparecer em propagandas de tv vestidos de super-heróis das donas-de-casa...

Horta com mato não funciona?
Quando plantamos monoculturas, criamos um paraíso para as pragas que, quando atacam, destroem tudo. Mas se a horta é diversificada, uma praga de couve, por exemplo, não vai comer sua colheita de alface, rúcula ou berinjela. Flores no canteiro atraem os bichinhos e protegem a lavoura. E o matinho que chamamos de ervas daninhas também protege as culturas – e também são bons indicadores de saúde do solo (algumas espécies indicam acidez ou falta de água ou de algum outro nutriente). Só que plantar assim, mais naturalmente (e organicamente) gera autonomia para o produtor, que não precisa ficar comprando sementes, fertilizantes, agrotóxicos. E quem não gosta disso? As empresas fabricantes de insumos agrícolas. Lembra do marketing feito pelas olarias paulistas? É mais ou menos a mesma história...

Eu poderia ficar aqui até amanhã listando outros mitos modernos, mas acho que o post já ficou longo demais... Por isso, deixo alguns links de textos mais antigos, publicados aqui, que também tratam de verdades questionáveis. É o caso do parto natural como coisa "superada pela ciência",  da tapioca que foi substituída pelo pão de trigo importado, do banheiro seco que é "nojento" para quem ouve o conceito pela primeira vez, da festa infantil que não precisa ser de plástico e outros tantos. Aliás, se você lembrar de mais algum, por favor, compartilhe com a gente! Precisamos, sim, quebrar paradigmas, questionar regras, mudar hábitos e costumes. E essa tarefa começa sempre em casa...






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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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