Essa abordagem tem servido como um termômetro que, vira-e-mexe, mostra o quanto nossa vida é construída e moldada a partir da premissa de que precisamos trabalhar muito para ganhar (não muito, mas algum) dinheiro. E que sem dinheiro – e precisamos sempre mais e mais dele – não se vive bem. Será?
Dia desses refiz minha contabilidade pessoal, para tentar imaginar quais serão meus gastos na ecovila e, portanto, quanto precisarei receber para cobrir esses custos. É claro que o exercício foi só uma estimativa, mas já deu para perceber uma mudança significativa. Gastos com transporte, por exemplo, caíram substancialmente. Sabe aquele ir e vir para o trabalho? Praticamente desapareceu, uma vez que terei um escritório em casa – hoje, morando em São Paulo, trabalho parte em casa, parte nas redações.
Outra mudança importante será a alimentação. Chega dessa história de comer fora de casa. Na ecovila, teremos uma horta comunitária e um pomar com mais de 2 mil árvores frutíferas. O que não der para produzir localmente, como alguns grãos, por exemplo, será comprado no mercado da cidade. E ainda temos o queijo e os ovos caipiras da dona Expedita, vizinha da ecovila. (Se bem que criar algumas galinhas está nos planos da ecovila – e são excelentes para um bom design permacultural.)
E a água? Bom, faz tempo que não compro água engarrafada, pois acabo trazendo da ecovila para São Paulo. Lá, temos cinco nascentes maravilhosas, que nos garantem água pura, farta e de graça. Sim, não temos uma concessionária para mandar a conta no fim do mês. E isso, ao contrário do que possa parecer, significa mais responsabilidade. Tanto que é norma interna: todos os moradores devem fazer captação de água de chuva para usos não-potáveis, como irrigação, descarga de vasos sanitários e lavagem de roupas. Água da fonte é para cozinhar e beber.
Conta de luz? Bom, essa vai chegar todo mês. Mas o aquecimento solar de água deve reduzir o consumo de energia em 30%. Além disso, um gerador eólico, biodigestores e painéis fotovoltaicos estão no planejamento de médio e longo prazo da ecovila. Será mais um passo importante em direção à autonomia e sustentabilidade da comunidade.
Gastos com estacionamento e bilhetes de ônibus e metrô desaparecem da caderneta. Delivery de pizza, comida japonesa ou árabe, também. Passeios ao shopping, livrarias, bares e restaurantes e tudo o mais que nos parece lazer e implica consumo, consumo e mais consumo, viram programas extremamente esporádicos. Resultado: mais economia.
Tá, mas e a carreira profissional? Essa simplesmente não é minha prioridade, pelo menos não como se entende por aí: muito trabalho, muito estresse e pouco tempo livre para desfrutar a vida. Trabalho pode ser algo agradável, numa medida mais saudável. Privilégio de poucos? Tenho minhas dúvidas, já que muita gente conseguiria reduzir muito a carga horária se aderisse à simplicidade voluntária.
E, nesse ponto, mais uma vez reforço: vida simples não significa vida sem graça, monótona. Pelo contrário. Mais tempo livre quer dizer mais chances de se divertir, de curtir os amigos, de fazer pão, de aprender a tocar um instrumento (toco piano e um pouco de violão) ou fazer algum tipo de artesanato que possa ser, ao mesmo tempo, ser muito prazeroso e dispensar a compra de roupas, colchas, cortinas, bolsas etc.
Em geral, quem mora em ecovila desenvolve muitos talentos. Não tem essa de “não sei dançar, não sei cantar, não sei cozinhar, não sei plantar, não sei isso nem aquilo”. O tempo nos dá a chance de experimentar e a comunidade, a oportunidade de aprender e compartilhar.
Ah, e ainda tem os instrumentos de economia solidária para ajudar a todos. Nas feiras de troca, como o nome já diz, trocamos mercadorias e serviços. As roupas que não nos servem mais ou os livros que estão só ocupando espaço na estante podem virar peças e produtos que eu teria de comprar fora da comunidade. Uma aula de ioga, por exemplo, pode valer uma massagem, que tal?
Escola para as crianças? Bem, os pequenos nem precisam ir para a creche porque as mães podem se revezar para cuidar deles. Os maiores podem ir para a escola pública, que é melhor do que a escola pública da grande cidade porque os pais são mais presentes e acompanham tudo o que acontece por lá.
No fim das contas, o saldo é mais do que positivo. Menos gastos, menos trabalho, menos tempo no trânsito e nas filas, menos cartão de crédito, menos dívidas, menos preocupações. E mais prazer de viver, mais cuidado com a natureza e as pessoas, mais tempo para aprender, para escrever, para amar, para lidar com a terra, para ver o pôr-do-sol e o céu estrelado ou sentar na ponte da nossa Praça da Paz (foto) e ver a lua nascer. Tem dinheiro que compra isso?