Gaiatos e Gaianos
14/10/2008 às 10:10
Construir com as próprias mãos

Taí uma habilidade que nossos antepassados tinham e que hoje é vista pelos   profissionais do mercado imobiliário como um mal a ser combatido. Por quê? Alegam os donos de construtoras, incorporadoras e afins que o brasileiro não sabe construir, que é perigoso porque a casa pode cair, que se gasta mais material por falta de mão-de-obra qualificada, que inexistem cálculos e métodos construtivos mais racionais. Até que ponto isso é verdade? 

Bom, se pensarmos nos barracos triplex das favelas ou nas casas improvisadas em áreas de risco fica fácil dizer que essas construções não primam pela segurança. Mas também existem os poréns e vale ir além do senso comum. Construir como a indústria imobiliária determina significa terceirizar o trabalho, comprar materiais industrializados e deixar de lado qualquer habilidade manual que, porventura, você possa ter. Em outras palavras, significa desaprender a fazer.

Gerações após gerações, fomos perdendo o dom de construir com terra, de saber aproveitar materiais naturais abundantes na nossa região, de usar a madeira na medida certa, de fazer tramas de fibras para barrear e fechar paredes. Perdemos a ligação mais direta com a nossa morada, que virou algo artificial, poluidor e encomendado a profissionais mal pagos ou empresas que  não pensam duas vezes antes de destruir o meio ambiente em nome do lucro fácil e rápido. Não por acaso, hoje temos mais muros e menos horizontes.

É nesse sentido que vejo a autoconstrução como uma janela de resgate de algo importante que se perdeu no tempo e na ilusão do capitalismo frenético. Há coisas muito interessantes no ato de construir com as próprias mãos. Um exemplo? A solidariedade. Construir com as mãos requer um grupo, requer gente reunida em torno de um objetivo. Você já reparou naquela cena famosa de vizinhos “enchendo a laje”? Tem coisa mais civilizada do que esse gesto de amizade?

Agora imagine trocar o cimento e o concreto por materiais mais sustentáveis e até mesmo eficientes. Imagine poder substituir produtos que agridem a saúde de quem trabalha na obra por terra, bambu, madeira de reflorestamento, fibras, tintas naturais e tantos outros já disponíveis por aí. Que conjunção bacana seria unir pessoas para construir de maneira mais ecológica! Nem é nada assim tão complicado, porque as técnicas construtivas, em geral,  são bastante rudimentares, simples e inclusivas. Jovens, crianças e até o pessoal da terceira idade pode participar. Ah, sim, e mulheres também. Há trabalho para todos.

Desde sábado, estou na ecovila Clareando trabalhando na minha casa com as mãos e os pés “sujos”de barro, erguendo paredes de Cob e pau-a-pique. Amigos arquitetos e arquitetas dão as dicas fundamentais e, depois, é confiar na sabedoria tradicional e na habilidade que, remotamente, ainda carregamos dentro de nós.

A cada pãozinho de terra de incorporo à parede, fico pensando em como será gostoso morar ali e curtir uma casa feita com carinho, sem pressa, no ritmo das nossas possibilidades. Fico me imaginando deitada na cama, observando os detalhes das paredes, lembrando dos amigos que ajudaram, dos sorrisos, da terra boa e vermelha, do sol, da chuva e do vento que tocou cada milímetro daquele barro. E, podes crer, de uma coisa tenho certeza: nem o mais competente pedreiro ou o mais renomados dos arquitetos poderia me proporcionar um lar assim tão especial.

p.s.: Na atual fase da obra, a Bianca (bio-arquiteta e gente-boa) e o Ângelo (agrônomo e futuro morador da ecovila) são as mãos que mais nos ajudam e que estão preparando o pau-a-pique do mezanino. Na semana que vem, quando as tramas de bambu ficarem prontas, publico uma foto aqui, ok?







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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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