Gaiatos e Gaianos
26/08/2008 às 10:45
Tomada de decisão por consenso


Cena um: você acorda pouco antes do amanhecer e caminha até um local considerado sagrado pelo seu povo. Chegando lá, encontra os demais membros da sua comunidade, todos em círculo, à espera da alvorada, que vai inspirar a reunião do grupo. Entre a tribo dos Sukuma, na Tanzânia, África, esse ritual leva o nome de tradição dagashida.

Durante o encontro, todos são ouvidos e nada é decidido até que todos estejam prontos para entrar num consenso. E tem mais: quem tem uma proposta para oferecer ao grupo precisa contá-la a outra pessoa do círculo, que vai expor a idéia ao público. Assim, quem ouve presta realmente atenção na proposta do amigo, já que terá de apresentá-la aos demais. E como os Sukuma têm tradição oral, ao final de cada assembléia eles criam uma música para resumir os pontos e decisões mais importantes da reunião. Não é o máximo?

Índios norte-americanos também têm registro de tomada de decisão por consenso. Era comum entre eles o uso do talking stick ou bastão da palavra, objeto que ficava no centro do círculo e dava o direito à palavra a quem o tinha em mãos. Os mais velhos, tidos como sábios e conselheiros, eram especialmente ouvidos pelos demais.

A Sociedade dos Amigos (quarkers) também é da turma do consenso. Do século dezessete para cá, eles guardam mais de trezentos anos de memórias de decisões tomadas por todos. E por quê? Porque acreditam fortemente na igualdade e mantêm a crença religiosa de que cada um tem dentro de si a luz de Deus e, por isso, todos no grupo têm exatamente os mesmos poderes e direitos.
 
E hoje em dia? Onde foi parar a idéia do consenso? Bom, algumas comunidades, como as ecovilas, procuram resgatar esse processo em que um grupo de iguais toma suas decisões. No início, não é fácil. Mas nada como o tempo e a prática para quebrar hábitos e construir o novo – ainda que este seja um resgate de práticas muito antigas...

Sábado passado conheci um espanhol-quase-brasileiro, fundador do projeto Caravana Arco-Íris pela Paz. Pablo Bedmar já percorreu as Américas dentro de um ônibus com artistas mexicanos, alemães, australianos, brasileiros, venezuelanos. Em cada nova cidade, eles apresentam peças teatrais, números musicais, palestras sobre vida sustentável e cuidados com o meio ambiente, além, é claro, dos shows circenses.

Malabarista e expert em se equilibrar sobre pernas-de-pau, Pablo também ensina às comunidades visitadas pela caravana a arte do consenso. E fala por experiência própria. Afinal, comer, dormir e trabalhar dentro de um ônibus com pessoas de diferentes culturas e línguas não é tarefa simples. Não fosse a maestria no consenso, os processos de decisão seriam exaustivos e os conflitos internos acabariam com o projeto que hoje é um dos Pontos de Cultura do Ministério da Cultura.

No último fim de semana, participei de um curso sobre o processo de tomada de decisão por consenso, ministrado pelo Pablo. Ele é um dos facilitadores do Instituto Internacional de Facilitação e Câmbio (Mudança) – IIFAC. (Recomendo uma visita no site para mais detalhes.) Eu teria linhas e mais linhas para escrever sobre o tema, mas acho que já me estendi demais. Por isso, vou deixar apenas algumas idéias que podem ajudá-lo(a) a tornar as reuniões do seu grupo ou comunidade mais eficientes, tranqüilas e prazerosas – seja qual for o seu grupo: reunião de condomínio, da equipe do escritório, da igreja, ong, escola etc. Aí vai:

Algumas funções importantes para uma boa reunião:

- facilitador: é o guia imparcial do processo, não ocupa posição de poder e está a serviço do grupo;
- guardião do tempo: ajuda o facilitador a manter os horários estipulados na pauta;
- guardião da memória: registra as decisões por consenso feitas pelo grupo;
- idealizador das propostas: é quem apresenta uma proposta para ser discutida e decidida pelo grupo;
- planejador da próxima pauta: quem fica de olho em temas e propostas que surgem durante a reunião e que devem ser abordados numa próxima reunião;
- equipe de ordem e beleza: cuida da organização do espaço, serve biscoitinhos e chazinhos, enfeita a mesa com flores;
- guardião da entrada: acolhe quem chega atrasado e resume os pontos já discutidos na reunião.

E outras funções ainda mais curiosas:

- guardião de vibrações:
fica de olho no clima da reunião e sugere atividades para “acordar” ou “acalmar” os participantes;
- apaziguadores: pessoas com experiência em resolução de conflitos que interferem quando o clima fica tenso;
- guardião de todas as espécies (este é o meu preferido): figura criada numa comunidade do México, que vai para a reunião fantasiado(a) de animal, planta, vento, água ou outro elemento da natureza. Quando alguma discussão no grupo pode levar a algum impacto ambiental que atinja um outro ser vivo, essa pessoa começa a fazer sons e gestos para alertar o grupo sobre os perigos e conseqüências de tal decisão...

Gostou? Quer saber mais? Escreva um comentário e, quem sabe eu estendo o assunto num próximo post... Por enquanto, se tiver mais uns minutinhos, leia aqui o texto que escrevi sobre consenso, democracia e autocracia.

Ah, em setembro a Morada da Floresta, em São Paulo, vai realizar dois cursos sobre consenso com o Pablo Bedmar. Veja aqui mais detalhes. Se tiver oportunidade, não perca a chance!!






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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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