Bicho de ecovila

Quando visitei a Ecovila Clareando pela primeira vez, uns dois anos e pouco atrás, uma preocupação não saía da minha cabeça: será que lá eles aceitam animais de estimação? Não posso ficar sem a minha (cachorra) Sofia! Isso porque a maioria das ecovilas não admite que os moradores tenham cães ou gatos.
O motivo é bem razoável. Normalmente, essas comunidades ficam em locais com natureza bastante preservada, o que significa também uma fauna silvestre rica e abundante. E, convenhamos, cães e gatos não são muito amistosos com aves, pequenos roedores, lagartos, sapos e por aí vai. Para um cão, caçar um tatu pode ser uma aventura inesquecível. Sem falar que cachorros não são muito cuidadosos com canteiros de horta e adoram fazer buracos na terra, tal como os gatos que se divertem caçando ninho de passarinho em árvores...
Pois bem, na Clareando os pets – e os donos deles (ufa!) – tiveram mais sorte. Não foram barrados na entrada. Mas vão ter que seguir algumas regras de comportamento, é claro. Nada de passeios sem coleira e guia, por exemplo. Soltos mesmo, só no terreno de seus donos, que terá de ter uma boa cerca-viva (oba, os muros foram vetados!) para conter os bichanos.
Com alguns cuidados de posse responsável, o que se espera é que a gente consiga pacificar o convívio dos bichos de estimação com a fauna local, de forma harmoniosa. Para que isso funcione, as regras devem ser claras e precisam fazer parte do regulamento interno da ecovila. Não se trata de burocratizar, mas sim de formalizar um acordo para a boa convivência entre fauna e flora silvestres, bichos de estimação e humanos. Só isso.
Quem proíbe os pets nas ecovilas alega que eles não têm função na comunidade. Ao contrário, por exemplo, das galinhas, que fornecem ovos, carne, esterco (excelente adubo) e trator (quando ciscam, ajudam a arar a terra); dos porcos, fonte também de carne e esterco para biodigestores que o transformam em energia; das minhocas, especialistas em transformar lixo orgânico em húmus; vacas e cabras, produtoras de leite; ovelhas, que inspiram as tecelãs; cavalos, meio de transporte mais ecológico; além dos coelhos, peixes, codornas, búfalos e outros tantos animais que são “aliados” no planejamento de comunidades sustentáveis.
Mas será que os cães não têm função nesse novo design de assentamentos humanos?? Ouso dizer que sim. Além de ótimos companheiros, eles são garantia de diversão e ajudam no desenvolvimento das crianças – e no bom humor dos adultos. Também fazem a segurança local de forma mais suave e natural, sem agredir a paisagem com guaritas, portões imensos, cadeados gordos ou qualquer outra parafernália que oprime o ambiente e dá uma falsa sensação de segurança. Cães e gatos de raças peludas podem ainda fornecer pêlos para rechear almofadas e estofados (há até quem consiga tecer roupas com eles).
Enfim, basta um pouco de criatividade e bom senso (sempre bem-vindo) para que esses bichos continuem estimados também nas ecovilas. Com todo o respeito que a diversidade exige e com todo o direito que a liberdade de expressão me oferece, bicho-grilo que não gosta de bicho, como diz aquele samba, bom sujeito não é; é ruim da cabeça ou doente do pé...
P.S.: Escrevi sobre a minha Sofia tempos atrás, contando como a adotei no Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo. Para ler essa história, clique
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Foto: Sofia curtindo um dia de sol sobre a braquiária do nosso pedacinho de chão na Clareando.
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