
Foto: telhado verde do quiosque comunitário, coberto com a lona de circo colorida que o Hiroshi ganhou e quis reaproveitar. Por cima, sacos de cebola com terra para evitar deslizamentos durante as chuvas. O boldo rasteiro é bem rústico, precisa de pouca água e ainda dá uma flor roxa linda o ano inteiro. Quer mais?

Mas isso tudo é muito parecido com o funcionamento de um condomínio convencional, não? Para ser uma ecovila, queríamos avançar um pouco mais na participação e nas decisões comunitárias. Mas como fazer isso?
Bom, cada ecovila, no mundo inteiro, tem um jeito particular de lidar com a questão. As mais antigas testam hoje um sistema de tomada de decisões por consenso, em que as propostas, para serem aprovadas, precisam do aval de todos os integrantes. Há toda uma estratégia para esse tipo de decisão grupal – se quiser saber mais, já escrevi sobre isso em post mais antigo.
Só que para chegar nesse nível, é preciso muito amadurecimento, coisa que, realisticamente falando, ainda não temos. Pé no chão, decidimos caminhar devagar, fincar raízes fortes antes de começar a espalhar galhos enormes para o alto e para os lados. Assim, por mais de três anos, tentamos minimizar o problema das minorias insatisfeitas (elas sempre existem, pode acreditar, e são até saudáveis) estendendo as discussões das propostas, apresentando tudo de forma detalhada antes de uma votação.
Muitas vezes, no entanto, as ideias apareciam ainda cruas, sem muita reflexão ou detalhamento. Uma ideia é diferente de uma proposta, certo? E o que aparecia muito eram as boas ideias que, no entanto, não tinham qualquer vínculo com a realidade ou o momento da ecovila. E mais: as pessoas lançavam ideias e queriam que a diretoria cuidasse do resto. Nas ecovilas, um lema interessante adotado por muitas diz que “se você faz uma proposta, você é responsável por ela”.
Talvez seja uma herança cultural de uma sociedade acostumada a achar que o governo deve cuidar de tudo. Depois ficamos reclamando, porque não saiu como gostaríamos – ou sequer saiu alguma coisa... Numa ecovila, espera-se que as pessoas participem mais ativamente das decisões, e que não fiquem apenas sentadas passivamente aguardando que tudo se resolva de cima para baixo.
No discurso, é simples. Todo mundo acha lindo poder participar e dar pitaco em tudo. Mas na prática, garanto a você, a história é outra. Talvez por comodismo ou falta de experiência, o mais comum é querer terceirizar a responsabilidade pela execução da proposta. Dar ideias é fácil. Difícil e botá-la em prática, monitorá-la, aperfeiçoá-la e por aí vai. Dá um trabalho!
Mas, enfim. Em setembro, tivemos mais uma votação para a diretoria da Associação e meu companheiro foi eleito o novo presidente. Meses antes, eu e ele passamos horas e horas à noite tentando formular um modelo do que pudesse vir a ser um sistema mais participativo de tomada de decisões. E sua “candidatura” - aliás chapa única (veja como na hora de trabalhar ninguém quer se comprometer...) – foi ancorada nesse projeto de uma nova forma de decidir coletivamente.
Deu certo. No último fim de semana, a comunidade aprovou a proposta de mudança no desenho institucional da ecovila. Agora, além dos quatro integrantes da diretoria, temos uma assembléia de representantes, que defende as ideias e interesses dos três grupos distintos que convivem na ecovila: donos de lotes, construtores e moradores. Uma quarta pessoa integra o grupo como representante do interesse geral da ecovila, para evitar que um ou outro grupo faça propostas que possam afetar o espírito comunitário geral. Eu, que não estava presente na votação (minha cachorra, Sofia, ficou doente e passei o fim de semana cuidando dela), fui eleita representante do interesse geral. Responsa.
Bom, aí temos o Conselho, com três integrantes que analisam as propostas da diretoria e da assembléia de representantes, sempre questionando se são viáveis, se respeitam as normas internas vigentes, se podem ser consideradas sustentáveis etc. Esse Conselho seria uma espécie de CCJ – Comissão de Constituição e Justiça, do Senado (mas espero que seja beeeeeem diferente! Foi só uma comparação com intenção didática...).
De modo geral, gosto da proposta e vejo muito sentido nela sempre que reflito sobre os desafios que temos pela frente. Ela é um convite para que mais e mais pessoas participem, saibam dos problemas e restrições da comunidade. Mas é preciso testá-la na prática. Não basta que seja elegante ou eticamente bela. Nossa Constituição é maravilhosa e nem por isso temos uma democracia plena e madura no país... Nossa legislação ambiental é uma das mais bonitas do mundo e nem preciso dizer que está majoritariamente restrita ao papel...
Também penso que seria interessante criarmos nomes diferentes para cada instância. Conselho, diretoria e assembleia andam muito batidos... Já que queremos ser um laboratório da Agenda 21, inventar nomes pode ser inspirador e libertador também. Quem sabe nomes de flores, árvores, animais, estrelas e planetas... Muito bicho-grilo? Talvez, mas pode tornar a coisa mais leve, com menos cara de burocrática, sabe? Vou sugerir isso ao grupo, e volto depois para contar os próximos capítulos... E você, tem alguma história interessante de modelo de tomada de decisões em grupo? Se tiver, me escreva. Compartilhar experiências é muito bom e ajuda sempre. Será um prazer ouvir seu relato! Um grande abraço e até semana que vem!

Voltei para São Paulo com certa ansiedade para dar o primeiro passo. Mas eis que uns olhares desconfiados, uma meia dúzia de caras fechadas e uma ligeira falta de simpatia que vi nos vizinhos me botaram para baixo. Desisti da festa. A correria do trabalho também me distanciou da vontade de mexer no assunto. Isso já faz quase 4 anos! Que vergonha...
Vez ou outra, porém, acontece alguma coisa que me faz rever meus conceitos. Como quando a dona Lurdes, de mais de oitenta anos, caiu no pátio da vila, quebrou o fêmur e as mulheres da vila começaram a se revezar para ajudar a irmã mais nova, dona Mila, a dar conta dos cuidados especiais para a sua recuperação. Até meu marido colaborou. Três vezes na semana ele ia até a casa 3, ao lado da nossa, para auxiliá-la numa espécie de fisioterapia.
Mas aí vinham as festas com som alto até tarde, os churrascos “clandestinos” no meio da vila, as torcidas de futebol que faziam algazarra em território “comunitário”, as buzinas na madrugada - o bastante para acharmos que realmente não havia como manter o mínimo de contato. E, assim, voltávamos a nos contentar com o “bom dia” apático e sem graça de sempre, trocado à frente da porta de casa. Pró-forma.
Quando tivemos problemas com a construção de um prédio enorme bem ao nosso lado, a coisa mudou de figura de novo. De repente, viramos todos amigos, unidos pelo sofrimento e pela indignação. Até à delegacia eu fui com a vizinha Márcia, para dar queixa da construtora, que estava perturbando o sossego e deixando todo mundo maluco. Cogitamos a possibilidade de contratar um advogado para nos defender, mas, felizmente, conseguimos instalar um diálogo mínimo com a engenheira da obra e fomos tocando a história na base da conversa mesmo.
Duas semanas atrás, eu e meu marido reativamos um plano antigo, que já colecionava tentativas frustradas: colocar um portão na vila, para dar mais segurança, deixar as crianças mais livres para brincar no pátio interno e controlar a entrada de carros de visitantes. O que despertou nossa ação, na verdade, foi algo pragmático, devo confessar. Trocamos de carro e, na hora de fazer o seguro, o corretor me perguntou: tem garagem na sua casa? “Moro numa vilinha”, respondi. E ele retrucou: “Mas tem portão?” Não teve jeito. Tive que responder que não, é claro. Resultado: sem garagem, a apólice ficaria R$ 1 600 mais cara. A alternativa? Convencer os moradores, em dois dias, a instalar um portão que nos custaria R$ 400. Que tal?
Nos dividimos para conversar com os vizinhos, com tato. Queríamos apenas que todos aceitassem o portão, colaborando ou não para pagá-lo. Para nosso espanto, e sem muitas delongas, todos toparam e muitos disseram que faziam questão de pagar uma parte do dito cujo. Um dia depois, lá estava o portão. Pronto e instalado. Foi o assunto da semana.
A novidade provocou algo curioso. De repente, os vizinhos estavam mais fora de casa (o calor ajudou, é verdade), batendo papo. As crianças também são aliadas: não têm fronteiras e entram nas casas vizinhas sem qualquer cerimônia. Assim, ficou mais fácil olhar para outro desafio antigo da vila: o excesso de carros. A maioria das casas tem dois carros, quando só há espaço para um carro por casa... Como resolver isso? O jeito foi encarar o problema de frente. O mediador do “conflito em potencial” foi meu marido. Sim, ele de novo. Fiquei nos bastidores, palpitando aqui e ali. Devagar, como quem chega de mansinho, ele conseguiu ouvir todos os vizinhos, as sugestões, os senões, as broncas de tempos passados, enfim.
Juntos, ele e os demais proprietários de carros passaram uma tarde toda manobrando os carros da vila como quem move peças de um jogo de xadrez. As mulheres, vez ou outra, saíam à calçada para dar uma espiadinha, reclamar do calor, do vizinho que saiu e esqueceu o portão aberto, essas coisas. Durante as negociações, pudemos conhecer mais nossos vizinhos. “Eu preciso de uma vaga de acesso fácil, porque saio muito cedo para trabalhar”, dizia um. “O namorado da minha filha precisa de uma vaga aqui também”, dizia o outro. “Fulano não pode deixar três carros aqui dentro”, reclamava um terceiro. E assim fomos estreitando a conversa, ouvindo as demandas de todos e pensando numa maneira de ajeitar os carros sem maiores traumas.
Deu certo! Eles conseguiram uma boa solução para os carros, e o melhor: todos ficaram satisfeitos. O resultado desse episódio não poderia ter sido melhor. Contentes com as mudanças, todos agora estavam orgulhosos da vila mais organizada, com vagas pintadas no chão para facilitar as manobras. Isso me faz ter esperança. É verdade! Às vezes, deixamos planos de lado por não acreditar na bondade das pessoas, por não confiar que a mudança é possível. Mas, em muitos casos, basta alguém se dispor a olhar para o problema e tomá-lo nas mãos para resolvê-lo, para que tudo se transforme.
Quando eu estava na faculdade, eu e uma amiga tínhamos uma mania engraçada. Gostávamos de “provocar” as pessoas nos pontos de ônibus e dentro do metrô. Escolhíamos a dedo: quanto mais a cara estivesse fechada, mais divertido era perceber que aquilo tudo era só fachada. Bastavam poucas palavras para deslanchar uma conversa que durava todo o tempo da espera. É tudo só uma casca, pronta para ser quebrada a qualquer momento. Dentro dela moram seres humanos, como eu e você. Com tristezas e alegrias, mas, sobretudo, sentimentos e incertezas que ficam mais leves quando compartilhados. Pense nisso quando encontrar aquele vizinho (aparentemente) emburrado de novo...
Foto: a vila onde moro, com uma amoreira linda que nos ajuda a manter um bom relacionamento com os vizinhos. Colhemos os frutos todos os anos para fazer geleia e distribuir entre as famílias...