
O outro é o Hélio da Silva, executivo da Native (fabricante de alimentos orgânicos), morador da Penha. Praticamente sozinho, ele transformou a área degradada à beira do córrego Tiquatira no primeiro parque linear da cidade, um lugar bem agradável para o lazer e as caminhadas. Lá ele plantou mais de dez mil árvores, de 152 espécies.
Para mim, o Rubens e o Hélio são heróis urbanos, que não usam roupa de super-herói, não têm poderes mágicos nem foto publicada na capa dos jornais. Eles são como as personagens que leio na seção Local Hero da revista inglesa Ecologist: gente comum que doa trabalho e tempo para melhorar o lugar em que vivem. Como eles, existem muitos outros por aí, que preferem ser formigas discretas, ativas, gandhianas. São estrelas que nos inspiram.
Em tempos tão agitados, difícil é ter tempo e sintonia para perceber a presença desses heróis singelos. Porque eles não fazem alarde e não têm assessor de imprensa. Apenas fazem o que acham que tem que ser feito. E de coração. Simples assim.
Acho que por trás disso mora a ideia de que um exemplo vale mais do que mil palavras ou um discurso articulado. Ah, sim, e também o fato de que uma formiga mais algumas tantas formigas formam um formigueiro poderoso. Em resumo, mesmo a ação mais singela, quando somada a outras semelhantes, torna-se grandiosa. Já ouvi muita gente dizer que não separa o lixo e não economiza no banho e na energia porque o vizinho também não faz e ele sozinho não vai mudar nada. Ai, ai. Enquanto pensarmos assim, nada vai mudar mesmo. É preciso ter paciência, pensar no longo prazo, fugir do imediatismo. Acreditar. Confiar. Agir sem esperar resultados.
A mídia não ajuda quase nada nesse sentido. Aliás, acho que ela mais atrapalha do que ajuda. Herói é aquele malandro que se dá bem na vida, é o cara malhado que salva a mocinha do perigo, o executivo que só anda de carrão, a mulher que chefia uma equipe de 50 homens ou se mantém com pique de 20 aos 45 anos. Esses são os heróis dos filmes modernos, das novelas e dos telejornais.
Mas eu queria aqui ressaltar o valor dos heróis anônimos, humanos, imperfeitos. Esses são os verdadeiros, os autênticos. É deles que precisamos para restabelecer o equilíbrio do planeta. Não de gente que tem status pelo que consome, mas de gente que tem voz porque tem atitude. São os agricultores familiares que migram a produção orgânica, os catadores de recicláveis que descobrem o valor de seu trabalho, os plantadores urbanos, os ciclistas, os voluntários de mutirões de casas populares, as mulheres artesãs que resgatam a cultura de seus ancestrais. Esses sim são heróis de verdade, na vida real, sem Orkut e sem plano de marketing.
Da próxima vez que tiver um tempinho para passear pela cidade, procure identificar alguns heróis-formiguinhas que estão perto de você. Observe-os, inspire-se e acredite nos pequenos passos. As grandes jornadas sempre começam com um primeiro passo. (Pelo menos foi o que li num livro sobre peregrinos em busca de lugares sagrados na Terra...)

A casa na ecovila Clareando está em construção e, enquanto não fica pronta, minha morada durante a semana é a metrópole, com todos os seus problemas... Moro em São Paulo desde 1996, quando entrei na faculdade e me mudei para cá. Mas passei a infância e a adolescência em Itatiba, a 80 km da capital. A bicicleta era meu principal meio de transporte, eu conhecia os vizinhos, respirava ar puro, não enfrentava congestionamentos nem metrô lotado. Também quase não ia ao cinema (porque o único da cidade só passava filme do Didi, da Xuxa e do Schwarzenegger. Ninguém merece). Teatro não tinha. O lazer era a piscina do clube, os treinos no time de vôlei da cidade, as brincadeiras na rua e a pizzaria na praça do centro.
Quando me mudei para São Paulo, sofri horrores. O que já era natural ou “normal” para muita gente, para mim era um martírio. Eu não entendia como alguém podia entrar num elevador e não cumprimentar a pessoa ao lado, ou dividir o banco do ônibus como se o outro fosse uma estátua. Ingenuidade do interior? Talvez, diria algum urbanóide.
Com o tempo, fui descobrindo os lugares bacanas da cidade, os amigos, as rotas alternativas. Depois de morar em inúmeros locais (república de estudantes, pensionato de freiras, apê de amigas, casa do tio solteiro etc.), chegou a hora (tem hora para isso?) de casar. Primeiro, fomos morar numa casa alugada. Costumo brincar que foi uma espécie de test drive. Depois, compramos um sobradinho de vila, perto do parque da Aclimação. Lugar gostoso, cheio de pequenos comércios familiares, com área verde, vizinhos gentis e uma amoreira na porta de casa (que já rendeu potes e mais potes de geléia).
No pequeno quintal, plantamos ervas aromáticas e medicinais, temperos, maracujá, abóbora, chuchu. Criamos um pedacinho de verde e um clima de interior. Um sossego. Os amigos chegavam e sempre diziam: “aqui nem parece São Paulo”. Mas a tranquilidade esbarrou na falta de planejamento da cidade. No tão comemorado boom imobiliário, que fez brotar de antigos casarões do bairro prédios enormes e condomínios gigantes, quase que da noite para o dia. Infelizmente, não escapamos disso.
Bem ao lado da minha vila, uma construtora comprou umas oito casas (que também formavam uma vilinha) e começou a levantar um prédio de 25 andares. Acabou o nosso sossego. As maritacas foram embora, junto com o silêncio das manhãs. Minha horta foi destruída pelos resíduos de cimento e areia que caem aos montes (até hoje) no meu quintal. Meu muro sofreu rachaduras, várias telhas foram quebradas, os carros da vila vivem sujos de resíduos de construção e a minha paciência de praticante de yoga chegou ao fim. Era hora de exigir o mínimo de respeito.
Fui conversar com a engenheira responsável e sabe o que ouvi dela? Que eu precisava ser mais tolerante. Mais?!?! E sabe o que é mais irônico nisso tudo? O nome da construtora: Diálogo. Para minha surpresa, o prédio também não deixou recuos decentes. Entre o beiral do meu telhado e o muro do prédio não há mais do que 50 cm! Um absurdo! Mas o absurdo maior é que a obra chegou a ser embargada pela prefeitura, mas depois foi autorizada a seguir adiante. Eu e os demais vizinhos fizemos de tudo para saber se a obra estava mesmo dentro da lei, e se era possível alterar o projeto para não prejudicar tanto as nossas casas.
Que nada. Nessa hora, infelizmente, ganha quem tem mais poder econômico. Ganham os grandes, quase sempre. Foi um inferno conviver com a obra – e ainda é, porque a coisa não terminou. Meu quintal está parecendo uma gaiola, com um aramado “protegendo” contra os resíduos da obra. Toda semana retiro do quintal mais ou menos 2 kg de sujeira. Um total absurdo.
E sabe por quê? Porque a cidade que “não para de crescer” não tem qualquer planejamento ou estudo prévio para prever os reflexos que um empreendimento pode causar num bairro. O Plano Diretor não sai do papel. O direito de vizinhança, já tão bem resolvido fora do Brasil, aqui não vale nada. Não é sequer conhecido pela população e pelas “autoridades”.
Como é que pode?!?! Perdi o sol das manhãs, minha casa ficou mais escura e fria, meu horizonte da janela não existe mais. E eu simplesmente não posso fazer nada para mudar a situação. Aliás, posso sim: fugir, mudar de endereço, como já estava nos planos antes mesmo da obra começar. Mas e quem não pode? E quem não tem a perspectiva de mudar de casa, de bairro, de cidade? Como fica? Fica como aguentar, como puder suportar? Vamos seguindo a vida anestesiados, tentando digerir as adversidades e pensar que é assim mesmo que o mundo funciona? Esse é o grande problema das cidades que crescem além da escala humana, além de qualquer limite que possa garantir um lugar decente e um ambiente saudável para todos.
Hoje em dia, quando um paulistano ou paulistana me questiona por que vou sair de São Paulo, imediatamente me vem à cabeça: e você ainda me pergunta?!? Sei que a ecovila não será um paraíso na terra, mas, como lá nós temos um planejamento de lotes e zoneamento da terra, também sei que posso dormir tranquila, sabendo que ninguém nunca poderá tirar de mim o sol e o horizonte (tal como aparece na foto que fiz recentemente).
Se você mora numa cidade grande, não deixe de buscar seus direitos. Só assim, um dia, quem sabe, o ambiente urbano poderá se tornar um lugar melhor para se viver - e não apenas sobreviver.

No último sábado, participei de um encontro um tanto inusitado. Um casal de amigos que já mora na Ecovila Clareando convidou uma amiga, a Liane, para dar um curso de tear na casa deles. Estávamos em dez ou doze pessoas, entre mulheres e homens. Sim, os homens também participaram e, aliás, saíram-se muito bem.
Passamos a tarde juntos, enredados em novelos de lã e barbante coloridos, agulhas de crochê, teares e outros apetrechos. Cada um tinha em mãos um tear, pequeno, de 20 x 20 cm, com preguinhos nas quatro laterais. A cada nova lição, lá íamos nós tecer um pouquinho mais. E sempre conversando, contando histórias, ouvindo os comentários de quem se deliciava com o novo aprendizado.
Ao final de cada quadradinho saído do tear, uma sensação gostosa de nascimento e realização parecia brotar em nossos corações. De repente, tínhamos vários deles, cada um de uma cor: azul, rosa, amarelo, verde, laranja, bege, cinza. Dispostos sobre a mesa, nossa imaginação ia longe com sugestões do que fazer com eles. Uma toalha de mesa, umas duas ou três capas de almofadas, um cachecol ou um começo de colcha de retalhos, quem sabe.
Quase todos que estavam ali, inclusive eu e meu companheiro, nunca tinham experimentado um tear. E a sensação de poder aprender uma habilidade nova foi contagiante. Nem vimos o tempo passar. Ficamos ali, apenas tecendo e tecendo, até anoitecer.
Trabalhos coletivos são realmente prazerosos. Tudo fica mais gostoso em grupo, mais vivo, mais cheio de sentido. Naquela tarde fria, aqueles fios não escapavam da metáfora mais evidente: viver numa ecovila é como tecer uma peça que nunca acaba, mas que a cada novo pedacinho vai ganhando mais corpo e mais história.
Lembro-me de quando comprei o lote na Clareando. Eu não conhecia muito as outras pessoas da comunidade. Tinha, no entanto, uma intuição muito boa de que estava no lugar certo. Aos poucos, entre festas, mutirões e conflitos (estes são inevitáveis e até saudáveis, de certo modo), fui descobrindo um pouco mais sobre cada um. E aprendendo a gostar de todos, cada um à sua maneira, com suas cores e fios próprios.
Nesse tempo de convivência, já dividimos muita coisa. Incontáveis vezes, fomos para a cozinha preparar refeições para a comunidade, plantamos um pomar inteiro de frutíferas, sentamos sob o luar para ouvir música e cantar, construímos com a terra local, amassando o barro com as mãos carregadas de vida. Cuidamos um do outro em momentos de dor, dividimos a casa, o sofá, o pão, os sonhos, a colheita de feijão. Até tivemos a bênção de receber novos integrantes, bebês que vieram ao mundo já como futuros moradores de uma ecovila – e com um olhar de esperança e gratidão que me emociona sempre.
Acho que tecer a vida é isso. É estar presente a cada instante e trama tecida, e ter com quem recordar (tornar a passar pelo coração) o passado e desenhar o futuro. Mas sempre no aqui e agora, fio por fio.