Eco Balaio
28/07/2008 às 20:04
EXAME sulista da Amazônia

O recente especial Amazônia da revista Exame poderia ter sido excelente. A apuração é completa, as informações são ótimas, as artes impecáveis. Mas alguns poucos deslizes me fazem lamentar profundamente o modo alienígena de ver e entender a Amazônia.

Não sei se eu que sou implicante, ou se sou jovem demais para curtir esse debate, mas a insistência de certas publicações brasileiras em fazer de manchete a defesa ideológica do capitalismo me inspira uma coisa tão desgastada. Será possível que ainda estamos discutindo o raio do dilema comunismo X capitalismo? Poxa, tanta coisa mais interessante e atual pra gente conversar... me dá uma preguiça sem fim.

Pois bem, o argumento da reportagem é que são as grandes empresas que vão salvar a Amazônia, porque botam ordem no caos fundiário e geram empregos. Curiosamente, eu também estou trabalhando numa reportagem sobre empresas na Amazônia (mas de outra vertente), e também ouvi especialistas que dizem exatamente isso: não dá pra salvar a floresta só com projeto comunitário e fiscalização.

O que não fica claro para o leitor de Exame é que esse é o ponto de vista das árvores (com o perdão da extravagância lingüística). Esse é o argumento quando se quer falar só de números, o desmatamento sobe ou desce. Mas a Amazônia tem gente, em dois grupos principais: gente que mora nas cidades, que precisa de emprego, renda e serviços públicos exatamente como quem mora em São Paulo, e gente que mora na floresta, cujas necessidades e práticas sociais são completamente diferentes.

Em determinado momento, a reportagem diz: “o desenvolvimento da região passa necessariamente por empreendimentos de grande escala (...)Esqueça as pequenas iniciativas para ajudar comunidades ribeirinhas”. Como assim esqueça, minha gente? Então o bem maior agora é só empresa? Alguém um dia vai chegar nas comunidades tradicionais, que vivem dos recursos da floresta há gerações, e dizer: “Regozijem-se! O capitalismo chegou! Vocês todos são empregados!”?

É bizarro. Não menos bizarro que a catequização dos indígenas no Brasil colônia, as cruzadas na idade média ou até (forçando a barra) Estados Unidos no Iraque. Em todos os casos, o que prevalece é uma visão etnocêntrica, segundo a qual um único modelo de cultura e desenvolvimento vai salvar a todos.

Tudo bem que a Amazônia precisa de grandes empreendimentos para alavancar a economia florestal. Mas colocar os projetos comunitários para escanteio, além de ser mal-agradecido porque foram esses povos que mantiveram a floresta de pé até hoje, é ignorar que muito do se que sabe de manejo, biodiversidade, coisas que servem a essas empresas, veio do conhecimento tradicional.

“Palafitas, a versão local das favelas”, diz a reportagem. Se até o fim da vida eu conseguir convencer pelo menos alguns jornalistas que ribeirinho não é favelado, eu vou morrer feliz. Ô mania de paulista! Tem uma galera vivendo no mato, umas casinhas márromeno, pronto, é pobre. (sobre isso, leiam o post contextualizando a pobreza)

No mais, se é consenso entre os especialistas que a Amazônia precisa das grandes empresas, também é consenso que o desmatamento acontece por um simples motivo: a floresta em tora vale mais dinheiro que a floresta em pé. Isso não é capitalismo? Pois dizer que a “devastação prevalece onde o capitalismo não chegou”, como faz Exame, convenhamos: é muito malabarismo editorial.

Aqui o link para a reportagem “Capitalismo: a salvação para a Amazônia”






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Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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