Eco Balaio
10/09/2007 ÀS 17:42
Gato por lebre

Al Gore tem a obrigação de ser um santo ambiental. Desde que se tornou o principal nome internacional à frente da cruzada contra as mudanças climáticas, a imprensa americana está incansavelmente à espreita, em busca de incoerências. Querem saber porque ele não se declara vegetariano, quanta energia gasta em sua casa etc etc. Mas a julgar pela matéria do LA Times, publicada no último dia 2, parece que o pulo do gato finalmente apareceu.

A reportagem questiona a efetividade da neutralização de emissões de carbono do documentário “Uma verdade inconveniente”. A produção do filme teria pagado US$496,80 à empresa Native Energy para compensar as mais de 40 toneladas de dióxido de carbono emitidas com deslocamento de equipe, consumo de eletricidade e combustível e tudo mais referente à confecção do filme.

Mas segundo o LA Times apurou, a verba foi para projetos que já estavam desenvolvidos e financiados: um “coletor de metano” em uma fazenda na Pensilvânia e três turbinas de vento em uma vila no Alaska. O dinheiro aplicado pela equipe de Al Gore teria coberto apenas uma fatia minúscula dos custos.

Uma denúncia verdadeiramente inconveniente, para dizer o mínimo. Mas essa história suscita questões ainda mais interessantes. A reportagem reconhece que, nos últimos anos, “a corrida para salvar o planeta do aquecimento global formou uma indústria emergente de intermediários que vendem a salvação ambiental a preços de barganha”.

Mas se até Al Gore aposta sua reputação em estratégias duvidosas, para onde estará indo o dinheiro bem-intencionado de todos os demais?

A dúvida requer doses cavalares de transparência para os vendedores de boas causas. Mas não se trata de pôr em dúvida apenas o trabalho de um setor específico, como a já mencionada “indústria da neutralização”. O que dizer das centenas (se não milhares) de campanhas publicitárias, dos mais variados produtos, que vêm pegando jacaré na famosa onda verde?

Cito um exemplo fictício: um grande banco poderia financiar empreendimentos poluidores na Amazônia, sem exigir as garantias necessárias, e utilizar papel reciclado em todas as suas agências. Certamente esse banco se valeria da estratégia do papel para se promover como “banco sustentável”. Mas seria, mesmo? E os clientes cativados pela campanha saberiam notar a diferença?

É certo que a ampliação do debate sobre meio ambiente, por melhor que seja, complicou muito a vida dos simpatizantes da causa. A propalada “consciência ambiental”, que antes exigia apenas senso de responsabilidade e boa vontade, sofisticou-se. E para ser amigo do meio ambiente, hoje, é preciso buscar muita informação e exigir transparência. Irônica conclusão: não seja como Al Gore! Informe-se, desconfie.




Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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