Isso sim é real. E surreal ao mesmo tempo. Acho que todo esse papo de aquecimento global só vai ganhar sentido mesmo quando se materializar em alguma coisa que a gente gosta.
Ainda bem que acabo de entrevistar o Sergio Besserman. Economista, flamenguista e atual “conselheiro” de mudanças climáticas e assuntos correlatos para a prefeitura do Rio. Ele me garantiu que antes de o oceano Atlântico engolir Copacabana, muitas alternativas tecnológicas serão adaptadas para evitar o pior. Está aí a Holanda, país situado ligeiramente abaixo no nível do mar, mas que literalmente segura a onda com diques e outros macetes.
Adorei perceber quantas semelhanças existem entre a pomposa Convenção do Clima em Copenhagen e os desafios que a gente tem que enfrentar aqui, cada um na sua cidade. Por exemplo, um dos nós no plano internacional não é convencer os ricos a pagarem a maior parte da conta? Pois na cidade é a mesma coisa. Os ricos, aqueles que mais contribuíram e contribuem com emissões de carbono, precisam se acostumar com medidas restritivas ao transporte individual. Isso significa custo.
Vocês sabiam que além de agravar as mudanças climáticas, os escapamentos dos carros ainda pioram as ilhas de calor nos ambientes urbanos? Ou seja, o abuso do carro não é um problema apenas para a abstração de um aquecimento global que vai se abater não se sabe bem onde, não se sabe bem como. É vetor de um problema real, enquanto os microclimas urbanos já são expressivamente mais quentes que outros cantos arborizados.
Querem mais uma? Disse o IPCC que os países mais pobres serão os mais afetados pelos eventos climáticos extremos. Na minha cidade, na sua cidade, é a mesma coisa. As populações mais carentes, instaladas em favelas íngremes e beira de córregos, com imóveis improvisados, correm mais riscos. O interessante é que a ameaça vira também uma oportunidade para superar a segregação sócio-espacial nas metrópoles. A emergência climática dá um sentido coletivo ao meio urbano, um interesse comum, que há muito tempo não se vê.
“Pensar global e agir local”, repetiu o Bessrman. “Mas também pensar local e agir global. O cidadão carioca, brasileiro, do mundo... não tem mais grande diferença. Essa é a marca do século 21”. Estamos todos juntos na mesma barca, seja no planeta ou na rua, no bairro. Alguma coisa sempre nos uniu, mas talvez nunca tão claramente.