Da UTI para a vida
Desde que eu era criança no colégio, aprendi que a Mata Atlântica era o bioma moribundo, a causa perdida. Já ouvi muito sonhador apostando no dia em que voltaríamos a nadar no rio Tietê (na região metropolitana), mas nunca conheci ninguém que arriscasse dizer que a Mata Atlântica voltaria a se alastrar por toda a costa brasileira. Mas esse pessimismo pode estar mudando.
Eu recebi com muito entusiasmo a notícia do “
Pacto Pela Restauração da Mata Atlântica”, uma iniciativa de um conjunto de ONGs, empresas e prefeituras comprometidas com um objetivo ambicioso: restaurar 15 milhões de hectares até o ano de 2050. Sim, é possível re-plantar paisagens naturais, são as maravilhas da engenharia florestal.
Para mim, é impossível não fazer comparações com a vastíssima Amazônia. A despeito das possíveis ameaças ligadas às mudanças climática e ao desmatamento constante, o bioma ainda parece estar longe de enfrentar o seu ponto de descaracterização, a temida “savanização”. Já na Mata Atlântica, há décadas o esforço é por re-conectar os remanescentes de floresta.
Sem isso, a biodiversidade se perde nas ilhas de vegetação. Um bioma não pode sobreviver para sempre fragmentado. Por isso, de cada oito espécies consideras extintas na biodiversidade brasileira, seis encontravam-se na Mata Atlântica. Mesmo assim, a mata está aí, resiste, ainda com grande endemismo (incidência de espécies exclusivas de um ambiente), o que confere uma valentia poética à natureza, digna de admiração.
Enquanto na Amazônia, quase 70% da região é terra pública, na Mata Atlântica a proporção se inverte: 80% dos remanescentes estão em terras privadas. Por isso me parece tão sensato o espírito do Pacto pela Restauração, que aposta muito na parceria voluntária com a iniciativa privada, sem a qual seria impossível planejar conectividade.
Mas já que estou no clima de “sonhar não custa nada”, aí vai: eu acho uma lástima que esse bioma não possa ainda contar com regulação linha-dura, de cima para baixo, sem choro nem vela. A Amazônia, que é a imensidão que é, já inspira propostas do tipo moratório do desmatamento, desmatamento zero, não precisamos derrubar mais uma única árvore... vocês sabem, já ouviram essa conversa.
Pois, por justiça e proporção, a irmã menor mil vezes mais ameaçada já deveria ter sido agraciada com coisa desse tipo há muito tempo. Mas a Mata Atlântica teve o azar de abrigar os centros de poder econômico no País, o que torna tudo muito mais difícil.
Hoje é dia da Mata Atlântica. Oportunidade para agradecer e parabenizar os abnegados que lutam por ela, com as armas e os caminhos que têm. Queria que tivessem mais...
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