Eco Balaio
27/05/2009 às 04:43
Da UTI para a vida

Desde que eu era criança no colégio, aprendi que a Mata Atlântica era o bioma moribundo, a causa perdida. Já ouvi muito sonhador apostando no dia em que voltaríamos a nadar no rio Tietê (na região metropolitana), mas nunca conheci ninguém que arriscasse dizer que a Mata Atlântica voltaria a se alastrar por toda a costa brasileira. Mas esse pessimismo pode estar mudando.

Eu recebi com muito entusiasmo a notícia do “Pacto Pela Restauração da Mata Atlântica”, uma iniciativa de um conjunto de ONGs, empresas e prefeituras comprometidas com um objetivo ambicioso: restaurar 15 milhões de hectares até o ano de 2050. Sim, é possível re-plantar paisagens naturais, são as maravilhas da engenharia florestal.

Para mim, é impossível não fazer comparações com a vastíssima Amazônia. A despeito das possíveis ameaças ligadas às mudanças climática e ao desmatamento constante, o bioma ainda parece estar longe de enfrentar o seu ponto de descaracterização, a temida “savanização”. Já na Mata Atlântica, há décadas o esforço é por re-conectar os remanescentes de floresta.

Sem isso, a biodiversidade se perde nas ilhas de vegetação. Um bioma não pode sobreviver para sempre fragmentado. Por isso, de cada oito espécies consideras extintas na biodiversidade brasileira, seis encontravam-se na Mata Atlântica. Mesmo assim, a mata está aí, resiste, ainda com grande endemismo (incidência de espécies exclusivas de um ambiente), o que confere uma valentia poética à natureza, digna de admiração.

Enquanto na Amazônia, quase 70% da região é terra pública, na Mata Atlântica a proporção se inverte: 80% dos remanescentes estão em terras privadas. Por isso me parece tão sensato o espírito do Pacto pela Restauração, que aposta muito na parceria voluntária com a iniciativa privada, sem a qual seria impossível planejar conectividade.

Mas já que estou no clima de “sonhar não custa nada”, aí vai: eu acho uma lástima que esse bioma não possa ainda contar com regulação linha-dura, de cima para baixo, sem choro nem vela. A Amazônia, que é a imensidão que é, já inspira propostas do tipo moratório do desmatamento, desmatamento zero, não precisamos derrubar mais uma única árvore... vocês sabem, já ouviram essa conversa.

Pois, por justiça e proporção, a irmã menor mil vezes mais ameaçada já deveria ter sido agraciada com coisa desse tipo há muito tempo. Mas a Mata Atlântica teve o azar de abrigar os centros de poder econômico no País, o que torna tudo muito mais difícil.

Hoje é dia da Mata Atlântica. Oportunidade para agradecer e parabenizar os abnegados que lutam por ela, com as armas e os caminhos que têm. Queria que tivessem mais...






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Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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