Eco Balaio
13/05/2009 às 17:52
Uma espiada no Rio

Vêm do Rio de Janeiro alguns dos debates socioambientais mais interessantes que tenho visto nos últimos tempos.  Muros nas favelas, bolsa-invasão e outras medidas para lidar com o avanço de comunidades sobre as florestas revelam a interdependência entre social e ambiental no estado mais completo.

Há conflito geográfico, de fato, visível.  E há o conflito simbólico, não menos real. Murar a comunidade do morro Santa Marta, como vem sendo feito, evoca comparações com os guetos e uma possível tentativa de tornar a pobreza invisível, reforçando a separação entre morro e asfalto. Essa hipótese ganha ainda mais verossimilhança no momento em que o Rio aposta tudo na sua candidatura para sede das Olimpíadas em 2016.  Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, durante visita recente do Comitê Olímpico Internacional, os moradores de rua foram "varridos" do caminho.

Minha chefe lembrou de citar o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi: "Sociedades democráticas não erguem muros".  O desconforto é algo com que a prefeitura vai ter de lidar.  Não vai desaparecer, porque é tão ironicamente representativo da cisão social que vive o Rio.  Só acho que poderia ser apaziguado (um pouco) se a prefeitura combinasse essa medida com um programa agressivo que contemplasse não só as favelas, mas toda e qualquer ocupação irregular, inclusive a de condomínios de luxo.

O tal bolsa-invasão é um apelido que ganhou o bolsa floresta, programa "importado" do estado do Amazonas.  Ele remunera as populações que vivem em área de preservação permanente para que não desmatem.  Não consigo decidir se essa ideia é muito boa ou muito idiota.

O bolsa floresta, do Amazonas, atende populações tradicionais.  Presume-se que essas pessoas já têm um modo de vida integrado ao meio natural.  A remuneração é apenas uma forma de reconhecimento e de incentivar esse serviço de conservação, mantendo os povos tradicionais na floresta.  No Rio a coisa é completamente outra. São pessoas com modo de vida urbano, que garantem sua subsistência com empregos e consumo, e que, casualmente, moram nessas áreas.

Terá o Rio subestimado a natureza dessa política pública e promovido uma tradução mal feita e inócua para sua realidade? Ou terá encontrado uma forma eficiente de distribuir renda e, de quebra, promover educação ambiental? Estou aguardando os próximos capítulos.






Comentários

20/05/2009 às 13:37
Regina Scharf - diz:
Carolina, Depois da nossa conversa, hoje, quis conferir o seu blog. Muito, muito bom. Gostei particularmente do post sobre a Tesco. You go, girl!Regina

20/05/2009 às 20:32
Carolina Derivi - diz:
Oi Regina, obrigada!Eu tento, mas acho que a força está com você. ;-)Vou adorar ter a sua visita por aqui.



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Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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