Eco Balaio
06/05/2009 às 23:15
Maquiagem sorrateira


Esta é da série “histórias que merecem ser contadas”: a rede britânica de supermercados Tesco lançou recentemente uma promoção ecofriendly, como dizem os ingleses, para incentivar a compra de lâmpadas fluorescentes. Chama-se “lights for flights”. Quanto mais lâmpadas você compra, mais milhas ganha para gastar em passagens aéreas.

É isso mesmo. Queria muito saber quem é o tipo que teve essa ideia. As viagens de avião, claro, emitem estupidamente mais carbono que as pobres lâmpadas incandescentes.

A mesma rede de supermercados lançou uma linha de cem produtos com selos que informam quanto carbono foi emitido na fabricação. A Tesco tem o orgulho de informar aos súditos da rainha que cada folha de papel higiênico demanda 1,1g de carbono para ser produzida. E fica assim, cada um com a sua informação, cada um com a sua escolha.

Em algum lugar entre o erro crasso da primeira promoção, à virada que levou a uma medida de transparência aparentemente louvável, o jornalista Ed Gillespie perdeu a paciência. Seus textos no blog Ethical Living, do jornal The Guardian, me conquistaram. Sobre esse episódio ele levanta um ótimo argumento: você usaria menos folhas de papel higiênico, graças a essa informação, mesmo sabendo o quão infinitesimal seria a sua contribuição para o meio ambiente?

O problema, diz Ed, é que nós somos afogados em informações, de todos os gêneros e níveis de complexidade, e levados a acreditar que a responsabilidade de salvar o mundo é principalmente nossa: dos consumidores. E mais: seguindo os passos de formiga, porque afinal “cada pequena atitude conta”.
 
“Eu ficaria muito mais impressionado se a Tesco se comprometesse em remover de suas prateleiras qualquer produto que não obedeça aos mais altos padrões em termos de integridade ambiental”, diz o jornalista. “É isso que ‘cada pequena atitude conta’ deveria significar”.

O argumento de Ed é que empresas (e governos) tomam medidas muito aquém de sua capacidade para combater as mudanças climáticas. E conseguem fazer isso promovendo sua imagem ecofriendly e ainda nos fazendo sentir culpados por cada escolha mal calculada. “Nós precisamos de uma guinada, não apenas de mudanças minúsculas” diz Ed. A tal maquiagem verde nem sempre é óbvia.






Comentários

11/05/2009 às 10:41
Valdinei Calvento - diz:
Olá Carolina, tudo bom?Acompanho seu blog e todos os outros aqui do Planeta Sustentável. Moro em São Paulo próximo ao Parque do Belém. Parque este que desde sua inauguração nunca sofreu manutenção, virou um imenso terreno abandonado. Coloquei em meu blog um depoimento do que vi e vejo todos os dias, gostaria que você desse uma olhada. Não consegui entrar em contato com a administração do Parque ainda, mas farei isso o mais rápido possível. Você sabe me dizer qual é a secretaria que cuida de Parques públicos?Obrigado pela força,

11/05/2009 às 17:14
Fernanda Daltro - diz:
Taí um exemplo de que estamos meio presos dentro de padrões insustentáveis de consumo: só podemos consumir o que nos é oferecido. Se só oferecem produtos com alta emissão de carbono e consumo de recursos naturais, não adianta informar isso - não temos escolha!Concordo com o Ed: é tb função do mercado ser mais responsável e oferecer produtos que realmente tenham menor impacto ambiental, e não ficar repassando esse peso na consciência para o consumidor.

13/05/2009 às 16:36
Carolina Derivi - diz:
Valdeini, é a Setaria do Verde e do Meio Ambiente. Acho que vale para você dar uma olhada no estudo da SINAENCO sobre os parques da cidade. Eles fizeram uma ranking de todos os parques, usando critérios como manutenção. Você pode levantar como o Parque do Belém foi avaliado e o que respondeu a prefeitura. Boa sorte!

13/05/2009 às 16:44
Carolina Derivi - diz:
Fernanda, concordo contigo. Não tenho nada contra o valor das pequenas atitudes. Mas me preocupa pensar se não estaríamos apostando fichas demais na alternativa menos viável: transformar todos os consumidores em experts da sustentabilidade.



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Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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